A simplicidade dos invasores de corpos

Ilustração do filme “Invasores de corpos” (dir. Philip Kaufman, 1978)

                                          Nelson Vaz – Imunologista

Compartilho com todos a esperança de que as vacinas funcionem, mas não vejo essa solução com simplicidade. A atual pandemia foi prevista por vários cientistas que estudam vírus de animais silvestres que podem “transbordar” para os seres humanos, ocasionando as crises epidêmicas. Mas os vírus sempre estiveram em harmonia não só com animais silvestres, mas com tudo o que vive, incluindo as plantas, os animais domesticados e nós mesmos, seres humanos. A formação da placenta humana depende de genes de vírus que foram importados para o genoma humano. Os vírus são parte do viver de todos seres vivos, não são invasores inimigos. O novo coronavírus se tornou um perigo para nós e há perigos maiores no horizonte, mas essas são complicações que nós mesmos criamos. Pelo entendimento atual, as pandemias resultam da confluência de dois fatores gigantescamente complicados: a abundância de vírus na natureza e a explosão populacional humana.

Calcula-se que há entre 500 mil e 800 mil diferentes vírus em animais silvestres; não há como interferir nesse processo. Do nosso lado, a população humana, que levou 3 mil séculos para alcançar o primeiro bilhão de habitantes, ganhou no século seguinte mais 6 bilhões e meio, e vai chegar a 9 ou 12 bilhões até 2100. É importante descrever com (alguma) clareza esses problemas (quase) insolúveis para que o conhecimento científico não pareça cada vez mais reservado a uma elite que, afinal, não consegue resolver os problemas do povo e é cada vez mais desacreditada! Nesse caminho, acabaremos todos acreditando em soluções curtas, simples e erradas. Como a terra plana. Ou a especificidade da imunização.

Há um século e meio, acreditávamos que as doenças eram causadas por “miasmas”, coisas invisíveis, relacionadas a fedores e “maus ares” (“malárias”). Mas quando pensamos nas viroses como “invasões” de nosso corpo pensamos em algo muito parecido com “miasmas”. Em certo sentido, o vírus é isso mesmo: algo invisível que nos invade. Mas essa é uma daquelas soluções curtas, simples e erradas. Como surgiu essa virose? Como podemos nos proteger dela e de outras mais que — dizem os cientistas — poderão surgir e serem piores que essa? Queremos explicar o que se passa para poder intervir nesses acontecimentos. 

Para entender o entendimento da imunologia, preciso entender algo sobre a natureza do entendimento humano. Certas coisas ficam em “pontos cegos conceituais”, coisas que não vemos que não vemos; somos cegos a algumas de nossas cegueiras e um pequeno olho aberto nessa direção pode ser muito importante.

Quando o polimento de lentes tornou possível fabricar microscópios e telescópios, o que mudou não foi nossa capacidade de ver coisas muito pequenas ou ver muito longe: foi a realidade. Galileu disse isso mesmo; virou seu telescópio para os planetas e para a lua e disse: “O céu mudou!” — a Igreja não podia deixar esse homem livre. Que realidade é essa, então, que muda quando a gente põe lentes frente aos olhos? As explicações são também formas de relacionamento humano. Queremos explicar o que se passa. E o que se passa agora são coisas que interferem — gravemente — com o que consideramos real. Acabaram as torcidas de futebol e as olimpíadas., os concertos de rock! — talvez o Carnaval! E milhares de outros hábitos que considerávamos permanentes. Talvez tenhamos que explicar realidades, talvez haja mais de uma.

O problema das explicações é importante principalmente para a imunologia, porque a gente imagina que o corpo “sabe” que foi invadido por algo “estranho”, “mobiliza defesas”, se livra da doença com “anticorpos” e, ainda por cima, guarda uma “memória” desses eventos e fica “imune” a esse vírus, ou micróbio — e é exatamente isso o que queremos que uma vacina contra o coronavírus faça! 

Há 50 anos eu era um imunologista convencional, até bem sucedido. Tinha ido para Nova York e tinha tido sucesso em pesquisas sobre a genética das respostas imunes.  Uma conjunção de dois acontecimentos mudou meu modo de ver a imunologia e a própria natureza do viver. O segundo acontecimento foi encontrar um jovem neurobiólogo chileno que me fascinou com conversas parecidas com essa que descrevo acima, e eu nunca tinha escutado. Francisco Varela era budista e falava coisas incríveis sobre o cérebro humano, como podemos ver o mundo e falar sobre ele. E sem saber direito quem ele era, eu o convidei para o pequeno laboratório que eu chefiava, onde acabava de tropeçar no primeiro acontecimento que mudaria minha carreira desde então: nós constatáramos que um camundongo forma mil vezes menos anticorpos para um proteína se antes ele a ingerir com um alimento!

Vocês nunca ouviram falar nisso! Que os animais “travam” sua reatividade aos antígenos que contactam por via digestiva — um fenômeno conservador, sistêmico. Isso deveria estar na primeira página dos livros de imunologia, mas não está. Não está porque contradiz e complica enormemente coisas que já sabemos e o que queremos é discutir sobre agentes invasores, “mobilização de defesas”, “memória imunológica” e, claro, aplicar logo uma solução simples, fabricável, ou seja, a vacina. 

Quando um animal ingere novas proteínas em um alimento, linfócitos são mobilizados e adquirem novas relações com outros linfócitos; o intestino está cheio de linfócitos ativados. Isso resulta no recrutamento mais ou menos permanente de imunoglobulinas naturais que podem reagir em novos circuitos que incluem detalhes dessas proteínas. O problema da atividade imunológica não é distinguir entre o próprio corpo e um corpo estranho — self nonself —, mas manter níveis estáveis de atividade linfocitária. A fisiologia imunológica é conservadora. O problema é entender o que se conserva nessas mudanças.

Esse modo de ver é útil para entender mais rápida e claramente a imunidade anti-infecciosa, pois nenhum ser vivo está isento de contágio por incontáveis vírus e micróbios. Cerca de um terço de todos os seres vivos vive às custas (explora, parasita) outro ser vivo. A situação usual não pode ser bem descrita como uma batalha entre invasor e invadido, não é episódica, é processual, contínua, e seus elementos principais não estão entre os mortos e feridos, mas sim entre a enorme maioria de entes saudáveis. A fisiologia do organismo é a fisiologia de entes saudáveis. Já nos acostumamos aos métodos de amplificar DNA/RNA que nos mostraram que a microbiota nativa, com que cada um de nós convive harmonicamente em seu viver, é gigantesca e muito diversificada. 

As doenças são acidentes de percurso e não invasões malévolas vindas do desconhecido. Mesmo quando somos invadidos por vírus e micróbios recém-chegados, nossa microbiota nativa e os muitos vírus que já abrigamos participam do que acontece. Se tudo corre a contento, mantemos nosso equilíbrio.

Durante duas centenas de milhares de anos, os seres humanos, assim como as plantas e os animais ao seu redor, não sofriam de doenças infecciosas agudas, nem eram dizimados por epidemias. As doenças infecciosas agudas que, desde o Neolítico, afetaram plantas e animais não domesticados, ocorreram por intervenção direta ou indireta de seres humanos. Tudo o que os seres humanos fazem pode ser considerado “natural” assim como tudo que os pássaros fazem, mas as doenças infecciosas agudas não são fenômenos naturais nesse sentido: elas surgiram como acontecimentos recentes, são fenômenos históricos ligados à invenção da escrita, da escravidão e da agricultura de cereais em campo fixo, entre 12 e 5 mil anos atrás, e que possibilitaram o surgimento dos primeiros Estados. Mais que invasões inesperadas por vírus e micróbios desconhecidos, as doenças infecciosas agudas são fenômenos criados por um modo de viver humano, que não é nem permanente, nem o único possível, e não foi o modo de viver humano durante quase toda a sua existência no planeta.

Assim como o aquecimento global e a contaminação do mar e do ar por microplásticos, a covid-19 é uma criação do modo de viver cosmopolita e da exploração desregrada e aviltante do nosso entorno. Mas contra essa ameaça em particular — a pandemia —, existe a esperança de vacinas, e a imunologia tornou-se o assunto dominante na mídia. Contra o pandemônio que criamos, não há vacinas. O entendimento da imunologia que resulta da aceitação das doenças infecciosas agudas como criações humanas, não vê os anticorpos como antídotos específicos que o corpo fabrica em sua própria defesa. A defesa imunológica — a imunidade — é um resultado, uma consequência dos mecanismos do viver, que, claro, dado o nosso modo de viver atual, não dispensam a interferência da vacinação, mas inclui a adoção de outros modos de vida, como, aliás, vimos experimentando com algum sucesso nos últimos meses. Ou podemos continuar apostando todas as fichas nas soluções simples, acreditando que se pode reforçar uma “memória imunológica” com vacinas. Pois é. Só que não.

Belo Horizonte, 2 de dezembro de 2020

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Pedra na botina

Você já parou para pensar? Um presidente como Jair Bolsonaro, cuja total falta de empatia não sabemos se é uma questão psiquiátrica ou de caráter. No Ministério das  Relações Exteriores, um tipo como o tal do Ernesto Araújo, que envergonha a nossa nação aos quatro ventos. No Meio Ambiente, um ministro que é contra o meio ambiente, contra os povos indígenas e a favor dos grileiros e do garimpo ilegal. Mais de 3 mil militares no governo e vários generais. Um ministro da economia que até agora não apresentou um plano. Ou apresentou um a cada dois dias.

São tantas aberrações que, confesso, dá até revolta enumerar os absurdos dos feitos e o desatino das declarações do capitão e de seus capitaneados. Triste Brasil, diria hoje o nosso Drummond.

Felizmente, ainda temos jornalistas afiados que tentam, a duras penas e pouco apoio publicitário, revelar o Brasil real a seus leitores, ouvintes e espectadores. Não são muitos como o Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Revista Fórum e Intercept Brasil. E ainda alguns bons comunicadores espalhados web afora. Entre eles, o excelente Gregório Duvivier (Greg News).

Dos jornalistas mais seguidos do Brasil, cito o Reinaldo Azevedo. Nunca fui seu fã. Pelo contrário, eu tinha até uma certa birra de seus escritos. Como a metáfora que o  próprio Reinaldo gosta de usar, nós não frequentamos a mesma enfermaria. Socialista, eu não concordava, e não concordo, com o seu posicionamento liberal e sua costumaz crítica à esquerda. Nos últimos anos, no entanto, passei a acompanhar seus artigos na Folha e seu programa na Band. Ali e lá, encontrei muitas e boas qualidades. 

Lula. Desde a sua prisão, em 7 de abril de 2018, foram inúmeros os programas e artigos contra a ilegalidade cometida pelo ex-juiz Sérgio Moro contra Lula. Ultimamente, não passa uma semana sem o jornalista lembrar que o presidente Lula foi preso sem prova para não poder disputar, e provavelmente ganhar, a presidência da República. Agora mesmo, em fins de novembro, Reinaldo escreveu: “Ah, sim: se Cármen e Fachin me indicarem em quais páginas da sentença de Moro aparecem as provas contra Lula, eu as transcreverei aqui. Mas a dupla não tem como aceitar o desafio porque as provas não estão lá. Se é que eles a leram, claro… E o desafio se estende aos ministros do STJ e à trinca do TRF-4 que referendou a dita-cuja. Insisto: eu quero as provas, não um romance mal redigido em que as ilações são as protagonistas e os fatos os seus adversários. Advirto: se qualquer um desse grupo ousar chamar de prova o que quer que seja, eu o desmentirei com palavras do próprio Moro. Ou vocês não leram também a resposta que ele deu aos embargos de declaração?”

O racismo estrutural brasileiro é destacado e condenado pelo jornalista diuturnamente. Registrou e comentou as agressões (conhecidas) contra os negros e pobres. Apresentou as estatísticas que demonstram o tamanho do racismo no Brasil e criticou recentes falas do presidente e de seu vice. Para os dois, não há racismo no país. Ontem, fez uma homenagem a Gilberto Gil e Caetano com a música “Haiti” .

Trecho:

E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
E são quase todos pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados

Com relações às cotas sociais e raciais nas Universidades, o Reinaldo já falou diversas vezes que ele, inicialmente, era contra. Hoje, ele é totalmente a favor e explica que mudou porque as cotas comprovaram ser eficazes. Além da dívida histórica que o país tem com os negros, a cota veio minimizar as diferenças raciais e socioeconômicas que sempre existiram no Brasil.

Homofobia e movimento LGBT são temas recorrentes do jornalista. Recentemente, reprovou o ministro da Educação Milton Ribeiro pelo seu discurso homofóbico. São conhecidas as suas críticas aos reacionários, preconceituosos e fundamentalistas religiosos que querem sonegar direitos.

Um dos assuntos mais comentados pelo Reinaldo é a presença de militares no governo. Ele lembra que as Forças Armadas servem ao Estado e não a governos. Ele é radicalmente contra a participação de militares no governo Bolsonaro (mais de 3 mil), inclusive com generais da ativa. Segundo o jornalista, a História irá debitar às Forças Armadas os graves desacertos do governo Bolsonaro. Outra crítica é a presença de policiais militares nas empresas de vigilância e segurança particulares. Vide o exemplo recente no Carrefour.

O seu programa diário de uma hora na Band Rádio, transmitido pelo Youtube, “O É da Coisa” recebe centenas de milhares de ouvintes e espectadores. Na semana passada, um deles chegou a ser ouvido/visto por 500 mil pessoas.

Não dá para falar de todos os muitos assuntos abordados pelo jornalista. Durante a pandemia (que continua), ele faz a defesa da ciência, do distanciamento social, do uso da máscara e das vacinas (todas elas). E sempre responsabiliza o governo pela péssima gestão na pandemia, na economia, nos incêndios florestais, no desmatamento e no combate ao garimpo ilegal. 

Como jornalista atento, um dos assuntos mais abordados pelo Reinaldo Azevedo é o Bolsonaro e seu governo. Todos os dias, a cobertura dos mal feitos, das omissões e das falas grotescas de um presidente caricato.

O Sérgio Moro é figurinha fácil nas páginas e falas de Reinaldo Azevedo. Além de relatar os crimes cometidos por Moro, tanto como juiz em Curitiba como ministro em Brasília, o jornalista abriu espaço para reproduzir as acusações divulgadas pelo Intercept Brasil sobre os desmandos e conluios da Lava Jato.  

Por falar na sinistra figura, o ex-juiz e ex-ministro do Bolsonaro trabalha agora, como advogado, na defesa de um empresário investigado por suspeitas de corromper governantes, lavar dinheiro, sonegar impostos e violar direitos humanos e leis ambientais e que já foi preso a mando das autoridades suíças e israelitas. O nome do novo patrão de Sérgio Moro é Benjamim “Beny” Steinmetz, um bilionário da mineração e alvo da justiça na Suíça, nos EUA e em Serra Leoa.

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o inferno: fora daqui

todo ano, queimam-se no japão os bonecos do daruma, tenha ele atendido ou não as preces de seu dono.

beto vianna

pois é, racismo é estrutural, e cobra sua parte no comportamento de todos nós, em especial dos brancos, pessoalmente beneficiados por não arcar com todas as suas consequências. ainda assim, vivemos um momento em que o recurso ao racismo explícito, dito pública e impunemente, inclusive por agentes públicos e celebridades, aprofunda o problema, pela via da naturalização, e dificulta as ações institucionais e as políticas públicas pro seu combate.

a expressão pública do racismo, mal disfarçada pelo tom jocoso e travestida de liberdade de expressão, não é condenada com a mesma intensidade pelo grosso da grande mídia, recebe o apoio de parte da população, e motiva a escalada da violência contra os pretos, como se essa já não fosse insuportável, e minimiza ou ressignifica suas consequências (como na recente declaração da delegada sobre o caso do preto assassinado por seguranças do carrefour). o problema se estende a outras populações minorizadas nas relações sociais e econômicas, como índios, mulheres, bichas, transgêneros, imigrantes e deficientes, em que o fator classe é muita coisa, mas não é tudo (se meu tom tá didático, já peço desculpas, quero ou desabafar ou conversar, não ensinar).

é um problema continuado, sempre político, a ser tratado politicamente, mas, atualmente, também uma questão ideológica (que implica, em qualquer espectro político, o adesismo convicto, resistente à prática da conversa), graças ao renascimento da extrema direita e sua personificação na figura do presidente, eleito democraticamente pela maioria da população brasileira (ignorar essa última parte é negar a parte – talvez a pior – do problema), que nunca escondeu suas posições preconceituosas, ao contrário, aumenta seu cacife político graças à sua exposição constante. ainda hoje, e apesar das pinceladas de diversidade das últimas eleições municipais.

tudo isso é muito óbvio, mas darcy já alertou que é o óbvio o que mais nos devia assombrar. todas as frases abaixo foram ditas publicamente pelo presidente da república do brasil. não precisam de contexto. o conjunto das frases é o contexto.

“olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. não fazem nada. acho que nem pra procriador serve mais”.

“falei realmente, né, aquele negócio lá do… ‘ô hélio, tudo bem, hélio? tranquilo aí? você pesa quantos arrobas, hélio?’ (dirigindo-se ao deputado hélio lopes, psl-rj)

“meu irmão que demorou para nascer (…)deu uma queimadinha no hélio aí. senão, ele seria a minha cara” (em referência ao deputado hélio lopes, psl-rj)

“índio tá evoluindo, cada vez é mais ser humano igual a nós”

“não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu“ (respondendo à pergunta de preta gil, sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma negra)

“prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”

“só não te estupro porque você não merece” (dirigindo-se à deputada maria do rosário, pt-rs)

“as minorias devem se curvar às maiorias ou serão esmagadas”

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Jus esperneandi*

Rei morto, rei posto.

No poderoso país localizado acima do Rio Grande, lá está um presidente derrotado nas últimas eleições fazendo birra. Mesmo sabendo que no dia 20 de janeiro próximo terá de cair fora da Casa Branca, o histriônico Trump continua soltando traques e demitindo quem se opõe à sua permanência. Como outro presidente que conhecemos bem, também portador de graves transtornos de personalidade e de caráter, Trump poderá ser indiciado e preso logo após perder seu mandato. São inúmeras as acusações, que vão desde abuso de poder até calote na Receita. A imprensa dos EUA descobriu que ele não pagou o imposto de renda em 10 dos últimos 15 anos. Embora tenha uma fortuna calculada em mais de US$ 4 bilhões, ele só pagou 750 dólares no ano em que concorreu para presidente. Vale lembrar que Al Capone, também nascido em Nova Iorque, só foi preso quando deixou de pagar o imposto de renda.

Com a derrota de Trump nos EUA, o meme mais divulgado nas redes sociais do Brasil não poderia ser outro: Donald já foi, agora só falta tirar o Pateta.

O amor de Bolsonaro pelo Trump é explícito. Ao encontrar seu ídolo nas Nações Unidas, o capitão não segurou e soltou um I love you. E nem ficou magoado quando o presidente dos EUA respondeu: “Bom te ver de novo”. No ano passado, Bolsonaro decidiu indicar seu filho (um dos zeros à esquerda) para embaixador do Brasil nos EUA. A justificativa (além do filho saber fritar hambúrguer) seria a afinidade do filhote com a família Trump. A pretensão era tão absurda que Bolsonaro acabou não indicando ninguém. O novo embaixador só foi aprovado pelo Senado há dois meses.

Ao contrário do Bolsonaro, que não entende a pressa das pessoas por uma vacina, Trump contava iniciar a distribuição da vacina antes das eleições. Uma espécie de fake news para conquistar votos. Mas os dois encorajaram as manifestações contra o distanciamento social e, tanto Trump como Bolsonaro, criticaram os governadores que aderiram às recomendações da Organização Mundial de Saúde. Em julho, o governo dos EUA rompeu suas relações com a OMS. Pau mandado, Bolsonaro declarou na época: “E adianto aqui, os Estados Unidos saíram da OMS, e a gente estuda, no futuro, ou a OMS trabalha sem viés ideológico, ou vamos estar fora também. Não precisamos de ninguém de lá de fora para dar palpite na saúde aqui dentro”.

Há pouco menos de um mês, ao falar para os alunos do Colégio Rio Branco (Itamarati), o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, declarou: “Se falar em liberdade nos faz um pária internacional, que sejamos um pária”. Infelizmente, mercê das políticas ditadas por pessoas como Bolsonaro e seus ministros, o Brasil já está sendo considerado um pária no concerto das nações. Em menos de dois anos, perdemos o que conquistamos desde a transição para a democracia. Mesmo com todo o nosso potencial e riqueza, somos hoje considerados uma nação de terceira na diplomacia internacional. Bolsonaro e Ernesto Araújo já atacaram a Argentina (maior comprador de produtos manufaturados brasileiros), China (maior importador do Brasil), os EUA de Joe Biden (segundo maior importador do país) e diversos países da União Europeia, como Alemanha e França (que estão entre os dez mais importantes parceiros comerciais).

Na última terça-feira, durante a abertura da Cúpula de Líderes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), Bolsonaro fez um ataque direto aos países europeus. Sem citar nome, ele declarou que irá divulgar uma lista de países que importam madeira ilegal do Brasil e que são os países que mais criticam a política do Brasil na Amazônia.

Duas questões que, por ignorância, escapam ao presidente: o Brasil é que deveria ter um órgão para controlar o desmatamento e a venda de madeira ilegal e, segundo, não são os países que importam. Empresas importam madeira, seja legal ou não.

Finalmente, mais um registro da citada reunião do Brics. No encerramento da cúpula, o presidente da Rússia teceu loas ao colega do Brasil. Vladimir Putin considerou Bolsonaro “um exemplo” por sua gestão na pandemia do coronavírus e exaltou suas “qualidades masculinas”. Para nós, brasileiros, Bolsonaro foi um aliado da Covid-19, com uma atuação criminosa, negacionista, caótica e irresponsável. Com relação às suas qualidades “masculinas”, teríamos de perguntar ao dirigente russo quais foram.

* a expressão, embora pareça, não existe em latim e significa o direito de espernear e reclamar.

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É preciso ser muito imbecil para ser contra uma vacina. Qualquer uma

O presidente Bolsonaro, discursando sobre o turismo no Brasil, comemorou a suspensão, pela Anvisa, dos testes da vacina Coronavac. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária suspendeu os testes pela ocorrência de um “evento adverso grave” envolvendo um voluntário. Já sabemos que o “evento” não tem nada a ver com a vacina: o rapaz teria se suicidado. Hoje, o Supremo Tribunal Federal solicitou informações da Anvisa sobre a suspensão.

O mais absurdo é o Bolsonaro tratar a vacina como um jogo político. Ele finge torcer pela vacina de Oxford. Digo finge, porque, na verdade, ele é contra a vacina, qualquer delas. E como o governador de São Paulo, possível concorrente do Bolsonaro em 2022, fez um acordo com uma vacina desenvolvida pelo Butantan e um laboratório chinês, ele é contra o Dória e, pela sua lógica burra, a vacina. No mês passado, ele declarou que não entende a pressa que as pessoas estão para vacinar. Ao torcer contra uma vacina, seja ela dos EUA, chinesa ou norte-coreana, ele torce contra a vida dos brasileiros. Contra a nossa vida.

No discurso citado, além das bobagens sobre vacinas, inclusive mentiras que podem motivar processos, Bolsonaro, entusiasmado com a plateia de encomenda, chegou a ameaçar guerra aos EUA. Ao citar recentes declarações do presidente eleito Joe Biden sobre a Amazônia, ele emendou: “Apenas diplomacia não dá, tem que ter pólvora”. Um jornalista lembrou que, como a Coronavac, a pólvora é também uma invenção chinesa.

O Bolsonaro tem a maior deformação do ser humano, que é a total falta de empatia. Os médicos ainda não chegaram a uma conclusão se a falta de empatia é uma questão psiquiátrica ou de caráter. Já tratamos deste assunto aqui no blogue, mas não custa insistir.

A suspeita é que a Anvisa, dirigida por um militar, estaria servindo aos interesses eleitorais do Bolsonaro. Penso que o imbróglio provocado deve ser contornado nos próximos dias, já que a pretensa atitude técnica da Agência não se sustenta. 

E, por falar no dirigente da Anvisa, o contra-almirante Antônio Barra Torres, eu não resisto: também sou contra almirante, general, coronel, major, capitão e assemelhados no governo. As Forças Armadas, como determina a Constituição, devem servir ao Estado e não a um governo.

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Os barcos

Barco de Imigrantes, de Lasar Segall

Os barcos, por Carlos Vianna

(uma ficção política em 23 idiomas oficiais) 

O autor, brasileiro, vive há 32 anos em Portugal, é co-fundador e ex-presidente da Casa do Brasil de Lisboa e representante da comunidade brasileira no CM – Conselho de Migrações. 

Para ler ou baixar, clique no quadro

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A língua nos escritos do Carlos, do Caetano e do Beto

Outro dia coloquei à disposição dos leitores do Blog do Conde uma novela policial de autoria de um brasileiro, Carlos Vianna, que vive a 32 anos em Lisboa. A obra é excepcional e merece a nossa leitura atenta. Tanto pela bem elaborada trama como pelas denúncias do trabalho escravo nas colheitas agrícolas. Em sua obra, Carlos utiliza expressões do português falado em Portugal.

Foi aí que lembrei de uma música que está no disco “Velô”, de 1984. A canção chama-se “Língua”, letra do Caetano Veloso e música de Gilberto Gil. Para mim, é uma das mais importantes obras de Caetano, tendo sido tema de inúmeros estudos linguísticos, mestrados e doutorados.

Pedi ao Beto Vianna, meu filho e linguista, para escrever algumas linhas sobre a letra do grande músico baiano. Assim, logo após apreciarmos a língua do Caetano, segue o comentário enviado pelo Beto.

Língua

Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões 
Gosto de ser e de estar 
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias 
E uma profusão de paródias 
Que encurtem dores 
E furtem cores como camaleões 
Gosto do Pessoa na pessoa 
Da rosa no Rosa 
E sei que a poesia está para a prosa 
Assim como o amor está para a amizade 
E quem há de negar que esta lhe é superior? 
E deixe os Portugais morrerem à míngua 
Minha pátria é minha língua 
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó 
O que quer 
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas 
E o falso inglês relax dos surfistas 
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda 
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate 
E (xeque-mate) explique-nos Luanda 
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo 
Sejamos o lobo do lobo do homem 
Lobo do lobo do lobo do homem 
Adoro nomes 
Nomes em ã 
De coisas como rã e ímã 
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã 
Nomes de nomes 
Como Scarlet, Moon, de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé 
E Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó 
O que quer 
O que pode esta língua?

Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção 
Está provado que só é possível filosofar em alemão 
Blitz quer dizer corisco 
Hollywood quer dizer Azevedo 
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo 
A língua é minha pátria 
E eu não tenho pátria, tenho mátria 
E quero frátria 
Poesia concreta, prosa caótica 
Ótica futura 
Samba-rap, chic-left com banana

(Será que ele está no Pão de Açúcar? 
Tá craude brô 
Você e tu 
Lhe amo 
Qué queu te faço, nego? 
Bote ligeiro! 
Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado! 
Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho! 
I like to spend some time in Mozambique 
Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros 
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem 
Livros, discos, vídeos à mancheia 
E deixa que digam, que pensem, que falem

—–

“Língua” não fala sobre língua 

Beto Vianna

Linguista – Universidade Federal de Sergipe 

Há duas canções do Caê que bem ou mal tratam da língua (ou das línguas, ou das falas, ou das escutas, como a querer desaussuriar e deschomskiar o objeto), em especial a de lustre lusitano: uma é “Quereres”, e a outra, “A outra banda da terra”. Na primeira, Caetano malabariza com o infinitivo pessoal plural em particular, e, em geral, com o esquizofrênico entrelaçamento entre os nossos dizeres e os desejos do outro: um double bind, para usar o conceito do cientista-poeta Gregory Bateson (1979). Na segunda canção, o compositor-soteropolitano (cosmopolitano, então) capricha no erre retroflexo do Brasil profundo caipira para, nessa fonética, congregar Cantuária, Holanda, Canadá e Maputo em “nossa banda da terra”, ou seja, o “Brasil, tá que o pariu”. Sendo eu mesmo linguista por profissão, gostava mais de falar sobre essas duas linguajeiras canções de Caê, mas a missão que me é dada aqui é discorrer sobre outra obra do mesmo cantautor, intitulada (desajeitadamente, a meu ver) “Língua”. 

“Língua”, argumento eu, nada tem a ver com língua, no sentido ou referência (Frege, 1892) filológicos do termo. Pois cientificamente, ou, como se dizia em antanho, filosoficamente, não se pode analisar um objeto usando, como objeto de análise, o próprio objeto. Há de se guardar distância pra se ser objetivo. E a poesia de Caetano, talvez como toda poesia, ou como todo Caetano, recusa-se a tomar distância pra chutar a bola da língua. Vamos a um exemplo, para facilitar essa conversa, que já vai ficando demasiado hermética. Se seguirmos os preceitos da própria letra de “Língua” para traduzir, em filosofês, o que se fala da língua, diríamos que das Lied beginnt mit dem Wort “Geschmack” (“Gosto”), Sprache als Zunge, eher ein Teil des Körpers als ein sprachliches Objekt und enthüllt die wahren körperlichen Absichten eines sinnlichistischen Caetano!

De todo modo, sempre se pode achar algo no universo das criações artísticas que interesse a nós, estudiosos dessa superior capacidade humana, que é a fofoca. Em „Língua“, encontramos a alusão caetânica a uma hipótese científica sobre nossas hipóteses ocidentais acerca da comunicação humana, conhecida como „metáfora do tubo“, ou, no original, the conduit metaphor (Reddy, 1979). Segundo a crítica do linguista Michael Reddy, costumamos atribuir à linguagem o poder místico de transmitir ideias de uma cabeça a outra por um canal sonoro (ou gestual, como fazem nosses brothers & sisters surdes), daí a noção de „tubo“. Parece até conversa sobre telepatia ou viagem extrasensorial, e é. Em „Língua“, Caetano refere-se a essa noção terraplanista da língua (vigente nos melhores salões científicos) com o imperativo fático: „Fala, mangueira!“, seguido de um grito primal entoado por Elza Soares. Outro fenômeno residualmente afim aos estudos linguísticos em „Língua“ é a referência a Arrigo Barnabé (talvez não no estudo dos elementos segmentais da fala, mas como uma bioacústica da vanguarda paulista). Com essa, despeço-me caetano e cantando e seguindo ao final da análise da canção.

Aracaju, 5 de novembro de 2020

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Exemplos a seguir e a evitar

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

Por mau exemplo e destempero, deixo apenas o codinome: Chihuahua do Trump. Estamos prestes a conhecer o novo presidente dos EUA. Se repetir a dose (cavalar), o hóspede do planalto continuará o cachorrinho “papai mandou” de sempre. Se vencer, como espero, o mais ou menos democrata, ele se travesti naquele cachorro que corre atrás do caminhão de mudança. Para nosso desalento, o retrato do futuro ficou na fala, ontem (2/11), do presidente da Câmara Rodrigo Maia: “Estamos caminhando a passos largos para o precipício”. 

No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau anunciou que seu governo já assinou contratos com diversos laboratórios para a compra de 358 milhões de doses. Entre os laboratórios, a compra de 76 milhões de doses do canadense Medicago, de Quebec. Vale lembrar que a população do Canadá é de 38 milhões de pessoas. Segundo Trudeau, “a grande quantidade é uma apólice de seguro caso algumas das vacinas em desenvolvimento se mostrem ineficazes em testes clínicos”. Para financiar pesquisas médicas e ajudar a desenvolver e comprar mais vacinas, o governo destinou um adicional de US$ 5,4 bilhões (cerca de 30 bilhões de reais) para a Agência de Saúde Pública do Canadá.

Com uma população estimada em 211 milhões, o Brasil tem, segundo informa o Ministério da Saúde, contratos para a compra de 140 milhões de doses da vacina contra o coronavírus. O maior contrato (100 milhões de doses) é com a vacina de Oxford, cuja imunização será feita com duas doses por pessoa.

O grande exemplo, no entanto, vem de um país insular da Oceania, localizado no sudoeste do Oceano Pacífico e distante 4 mil Km da Austrália. Com uma população de pouco menos de 5 milhões de habitantes, a Nova Zelândia está entre os 10 países mais procurados pelos jovens brasileiros para intercâmbio estudantil. A hospitalidade e as políticas governamentais que incentivam o trabalho estrangeiro estão, ao lado de sua beleza natural, entre os principais atrativos para os intercambistas. 

Durante a pandemia, a Nova Zelândia mostrou ao mundo ser possível controlar a infecção pela covid-19. Com medidas duras, como o confinamento (lockdown) e o fechamento das fronteiras, o governo conseguiu manter o coronavírus em seus níveis mais baixos. Quando em agosto surgiram 4 casos em Auckland, após 102 dias sem qualquer manifestação da doença no país, foi novamente decretado um lockdown de 3 dias na cidade. Hoje, oito meses após o primeiro caso, a Nova Zelândia contabiliza 1.968 infectados, 1.868 recuperados e 25 mortes. 

O mérito do trabalho desenvolvido pelo governo neozelandês durante a pandemia deve-se a uma jovem de 40 anos, a primeira-ministra Jacinda Ardern. Ela acaba de ser reeleita pelo Partido Trabalhista para mais um mandato como chefe de governo. No combate ao coronavírus, ela priorizou a vida e a ciência. Como escreveu o colunista Jamil Chade: “A eleição de Jacinda é a derrota do ódio como política. Sua campanha é tão urgente como universal: o ódio precisa ser combatido e apenas o diálogo e a aceitação da diversidade podem trazer a paz social. Tão óbvio quando revolucionário, seu programa é uma antítese de tudo o que governos populistas, como o de Jair Bolsonaro, representam”. 

Nanaia Mahuta, ministra de Relações Exteriores da Nova Zelândia

Ao assumir o seu novo mandato, Jacinda Ardern nomeou Nanaia Mahuta como ministra de Relações Exteriores. Nanaia, membro do Parlamento desde 2008, pertence ao povo indígena Maori e é a primeira mulher no governo a usar o “moko kauae”, a tradicional tatuagem no queixo. Com as eleições, o novo parlamento neozelandês se tornou um dos mais diversos do mundo, sendo composto metade por mulheres e cerca de 10% dos parlamentares LGBTQ.

Ao comentar com a minha irmã sobre o trabalho desenvolvido pela primeira-ministra Jacinda Ardern, a Marcinha comentou que a cidade mineira de São Thomé das Letras não registrou, até agora, nenhum caso de infecção pela Covid-19. De fato, com cerca de 8 mil habitantes, São Thomé está entre as 10 cidades (dos 853 municípios mineiros) que não receberam a indesejada visita da doença. Em todo o Estado de Minas Gerais, somamos hoje 359.991 infectados e 9.015 mortes.

Mesmo sendo uma cidade turística, a prefeitura de São Thomé das Letras apostou na ciência e teve a coragem de isolar a cidade e proibir a entrada de visitantes desde o início da pandemia. Hoje, para um turista passar pelo município tem de preencher um formulário solicitando autorização com, no mínimo, 48h de antecedência.

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Uma Questão de Justiça

Com texto completo, um romance policial de Carlos Vianna.

O autor, brasileiro, vive há 32 anos em Portugal, é co-fundador e ex-presidente da Casa do Brasil de Lisboa e representante da comunidade brasileira no CM – Conselho de Migrações. 

O livro contém modismos regionais e expressões da língua portuguesa falada em Portugal.

Para ler ou baixar, clique acima na capa do livro.

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Livro de Graça na Praça

Clique na imagem da capa do “O Boi Zebu e as Formiga” para ler ou baixar a edição comemorativa dos 18 anos do projeto Livro de Graça na Praça. Este ano, infelizmente, não deu para realizar o evento em praça pública. Nos últimos 17 anos, o projeto idealizado e coordenado pelo professor José Mauro da Costa já distribuiu mais de 350 mil exemplares, tanto de contos como para o público infantojuvenil. O Livro de Graça já foi realizado nas praças de Belo Horizonte (18 edições), Crato (CE), Manaus (AM), São Lourenço (MG), Uberaba (MG), Uberlândia (MG) e Toronto (Canadá).

livrodegracanapraca.blogspot.com.br

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A Revolta da Vacina

Podemos dizer que, tecnicamente, o atual presidente do Brasil foi eleito  democraticamente. No segundo turno, ele conquistou 57,7 milhões de votos, cerca de 10 milhões a mais do que seu concorrente, Fernando Haddad. Ao tomar posse, ele fez, como determina a Constituição, o seguinte juramento: “Manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”. No mesmo dia, em uma transmissão ao vivo nas redes sociais, declarou: “Vou buscar pacificar o nosso Brasil. Nós vamos pacificar. Sem eles contra nós ou nós contra eles. Nós temos como fazer políticas que atendam o interesse de todos”.

Desde a sua posse, ao contrário de seu juramento e de sua primeira declaração como presidente, Bolsonaro não fez outra coisa a não ser dividir a população brasileira, criando inimigos imaginários e atrelando o Brasil aos interesses dos EUA. Para ele, quem não reza em sua cartilha negacionista, é comunista e traidor da pátria. E comunista para ele pode ser o Papa ou qualquer um que lhe faça oposição. Na pandemia, foi contra a ciência, o distanciamento social, a máscara e, agora, até mesmo a vacina tem pouca importância. Com o seu exemplo maquiavélico, seguidores bolsonaristas fazem manifestações contra a vacina e as instituições democráticas.

Na quarta-feira passada, ao receber em Brasília uma comissão dos EUA, interessada no apoio do Brasil na guerra comercial de Trump contra a China, Bolsonaro, sem nenhum pudor, enquadrou o general da ativa ministro da Saúde e afirmou que o Brasil não comprará a vacina CoronaVac, da empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Para ele, o medicamento não transmite segurança e não tem credibilidade “pela sua origem”. No mesmo dia, em entrevista à rádio Jovem Pan, Bolsonaro declarou que o governo federal não comprará nenhuma vacina oriunda da China, mesmo que seja aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Dois dias antes, 24 governadores haviam acertado com o Ministério da Saúde, com o conhecimento do presidente Bolsonaro, uma compra inicial de 46 milhões da CoronaVac. Na oportunidade, o ministro da Saúde teria dito que seria a vacina do Brasil. O acordo chegou a ser publicado no site do Ministério da Saúde. Após as declarações do Bolsonaro, a matéria foi retirada do site e o secretário-executivo do ministério declarou que “não há intenção de compra de vacinas chinesas”. 

A população brasileira não pode ficar à mercê dos jogos político-eleitorais e ideológicos dos nossos governantes. Mais grave é aceitar a ingerência de um país estrangeiro, no caso os EUA, na escolha da vacina que teremos direito. O perigo é que este tipo de disputa absurda pode, entre outros prejuízos, atrasar a distribuição e aplicação da vacina entre nós.

O espírito negacionista das hordas bolsonaristas não é de hoje. Em 1904, no Rio de Janeiro, ocorreu o que ficou na história como a Revolta da Vacina. Na época, houve até um motim na cidade contra as medidas sanitaristas e a vacina contra a varíola. A insurreição deixou 30 mortos, centenas de feridos e mais de mil revoltosos presos. As fake news de então diziam que a vacina servia para introduzir uma doença dentro do corpo das pessoas. Exatamente como são as notícias implantadas nas redes sociais da extrema-direita bolsonarista sobre a vacina contra o coronavírus. A diferença, entre outras, é que, naquela época, era o governo que desejava vacinar a população. Hoje, é a população que deseja ser vacinada. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha, 89% dos brasileiros pretendem se vacinar contra o coronavírus, 3% responderam que não sabiam e 9% disseram que não iriam tomar a vacina. Assim, se acontecer uma nova Revolta da Vacina, será o povo nas ruas contra um governo que não adota o que recomenda a ciência e determina a Constituição Brasileira.

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Uma família sonante

Tudo indica que foi durante a dinastia Tang (619 a 907 d.C.) que os chineses inventaram e passaram a utilizar o papel-moeda em suas transações comerciais. No século XIII, o navegador veneziano Marco Polo registrou o curioso sistema monetário que ele encontrou na China. A Europa só veio adotar as cédulas de dinheiro no século XVII e o primeiro país europeu a implantar o papel-moeda foi a Suécia, em 1661. Aqui, o papel-moeda surgiu em 1771. Hoje, com um aumento de 35% durante a pandemia, o total de dinheiro em circulação no Brasil chega a R$ 311,2 bilhões.

É interessante notar que a China, embora tenha criado o papel-moeda, é o primeiro país a anunciar sua morte. Lá, as notas e moedas estão sendo substituídas pelo dinheiro digital. Com o advento da pandemia, o processo foi acelerado pelo Banco do Povo da China com a criação do criptodinheiro, que pode ser transferido de um celular sem necessidade de conexão à internet.

Pesquisa do Banco Central indica que 90% dos brasileiros realizam pagamentos ou fazem compra em dinheiro vivo. O cartão de débito fica com uma fatia de 52% e o de crédito com 46%. No entanto, é importante assinalar que a utilização de dinheiro pela população é para compras de baixo valor, entre 10 a 20 reais. Para valores maiores, a preferência é pelo cartão de débito, crédito ou transferência bancária.

Com o anúncio da cédula de 200 reais e a quantidade de dinheiro vivo utilizada por traficantes, cambistas de jogo de bicho e milicianos, andei pesquisando a nossa moeda nas últimas décadas. A moeda brasileira, na tentativa de controlar a inflação, perdeu, desde 1942, nada menos do que 18 zeros. Ou seja, recolocando os zeros, 1 real seria $ 2.750.000.000.000.000.000,00.

Sabemos que não é crime fazer pagamentos com dinheiro vivo. No entanto, fica sempre a pergunta, o porquê de se utilizar milhares de cédulas e não o prático depósito em conta. A bandidagem sabe que qualquer valor acima de 10 mil reais tem de ser comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o mesmo COAF que flagrou a tramoia das rachadinhas (crime de peculato) do Flávio Bolsonaro por intermédio do Queiróz e com a participação de milicianos (The Intercept Brasil). 

A família do presidente Bolsonaro é useira e vezeira nas movimentações ao vivo. Segundo levantamento d’O Globo, o valor corrigido do leva e traz da família chega a quase 3 milhões de reais. Nada menos do que 7 quilos e meio em notas de 100 reais. Como é de pequeno que o pepino toma forma, o Carlos Bolsonaro, então com apenas 20 anos, já andava com uma mochila cheia de dinheiro vivo para comprar apartamentos no Rio. Na escritura do apartamento comprado pelo Eduardo no Rio consta que parcela foi paga “em moeda corrente do país, contada e achada certa”. Nem é preciso traduzir. 

Já o outro irmão, o Flávio das rachadinhas, resolveu aplicar sua técnica em uma fantástica loja de chocolate. Fantástica porque era a única do mundo que não vendia mais chocolate na páscoa. O movimento maior era quando ocorria o pagamento do 13º salário dos funcionários da Assembleia Legislativa do Rio. Com a quebra do sigilo bancário pela Justiça, foram encontrados nada menos do que 1.512 depósitos em dinheiro vivo na contabilidade da loja. 

Os filhotes têm a quem puxar. O exemplo vem do pai, Jair, que fez uma doação irregular 10 mil em dinheiro vivo para a campanha do Carlos. Uma resolução do TSE determina que valores acima de R$ 1.064,10 só podem ser feitos por transferência bancária. Já a primeira ex do Jair e mãe dos três vivaldinos, Rogéria, também comprou um apartamento no Rio quando o marido era deputado federal. Em dinheiro vivo, claro. 

Para completar o lustro do quadro familiar, a madrasta dos meninos e atual primeira-dama, Michelle, recebeu em sua conta bancária 27 cheques do Queiroz e de sua mulher, Márcia, no valor total de 89 mil reais. Milhões de pessoas utilizaram as redes sociais para saber o motivo dos depósitos. Quando foi diretamente perguntado por um repórter, o nosso educado e democrático presidente respondeu: “vontade de encher tua boca com uma porrada, tá? Seu safado”.

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Fica o dito pelo dito

Tem gente que gosta de um bom ditado. Eu também. Nos contos que publiquei nas antologias do Livro de Graça na Praça, eu sempre iniciava com um dito popular. Alguns curiosos, como o ibérico “Cada um é como cada qual”. Em certo conto, inclui uma citação do jurista, político, filósofo e humanista francês do século XVI, Michel de Montaigne: “A palavra pertence metade a quem a profere e metade a quem a ouve”.

Também é verdade que, entre os ditados e provérbios, alguns são completamente furados. Entre eles, o “Mata a cobra e mostra o pau”. Mostrar o pau não indica que a cobra está morta. O correto seria matar a cobra e mostrar a cobra.

Como nos ensina a enciclopédia livre Wikipédia, alguns provérbios são baseados em histórias. As fábulas do grego Esopo (620-564 a.C.) inspiraram diversos escritores, como La Fontaine. Entre nós, as mais conhecidas são: A Lebre e a Tartaruga, A Cigarra e a Formiga e A Reunião Geral dos Ratos.

Vale a pena recordar esta última. Conta que os ratos viviam com medo de um gato. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim, um rato jovem levantou-se e deu a ideia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto, eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas, o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se do seu canto e falou que o plano era muito inteligente, que com toda a certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem iria pendurar a sineta no pescoço do gato?

No ano passado, em visita a Moçambique, o papa Francisco citou o seguinte provérbio: “Se quiser chegar rápido, caminha sozinho; se quiser chegar longe, vai acompanhado”.

Francisco deve ter se lembrado do provérbio africano quando lançou a encíclica “Fratelli Tutti” (Todos Irmãos) no passado dia 3 de outubro. E, claro, deu uma necessária atualizada na encíclica “Rerum Novarum” (Das coisas novas) do papa Leão XIII, de 1891. O documento de Leão XIII trata de alguns princípios que deveriam ser usados na busca de justiça na vida social e econômica dos trabalhadores, como uma melhor distribuição de riqueza e a intervenção do Estado na economia.

Mas Francisco foi além. Em suas 84 páginas, ele cita líderes como Martin Luther King, Desmond Tutu e Mahatma Gandhi, denuncia a desigualdade e condena o neoliberalismo, afirmando que “O mercado sozinho não resolve tudo, embora mais uma vez queiram nos fazer acreditar nesse dogma de fé neoliberal. É um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas diante de qualquer desafio que surja”.

Sobre o combate ao coronavírus, Francisco destacou a incapacidade dos dirigentes de atuar em conjunto, revelando que “a fragilidade dos sistemas mundiais diante das pandemias evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado”. E afirma: “Muitos ateus cumprem melhor a vontade de Deus que muitos crentes autorizados por sua fé a apoiar formas de nacionalismos fechados e violentos, atitudes xenófobas, desprezos ou inclusive maus-tratos aos que são diferentes”.

Ao fazer uma referência à canção “Samba de Benção”, de Vinícius de Moraes, “A vida é a arte de encontro, embora haja tanto desencontro na vida”, Francisco coloca em sua encíclica que “a especulação financeira com o lucro fácil como objetivo fundamental continua provocando estragos. O vírus do individualismo radical é o vírus mais difícil de derrotar. É possível aceitar o desafio de sonhar e pensar em outra humanidade. É possível desejar um planeta que assegure terra, teto e trabalho para todos”.  

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Depois de latir, virou galinha-verde?

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Nesta quinta-feira, em discurso durante a inauguração da primeira fase do Sistema Adutor do Pajeú, em São José do Egito (PE), o presidente Bolsonaro pediu para o brasileiro votar em prefeitos e vereadores que tenham Deus no coração.

Como quem fala demais dá bom dia a cavalo, Bolsonaro declarou que “Deus foi tão abençoado que nos deu até a hidroxicloroquina”. Vou repetir: “Deus foi tão abençoado…”.

E, para quem ainda tinha alguma dúvida, terminou o discurso com um Deus, Pátria e Família. Como sabemos, Deus, Pátria e Família é o slogan da Ação Integralista Brasileira, movimento de extrema-direita criado em 1932 pelo Plínio Salgado e inspirado no fascismo italiano.Outro dia, ao assinar lei que aumenta a pena para quem maltratar cães e gatos, Bolsonaro chegou a latir para um cachorro. Agora, mostrou seu lado de “galinha-verde”, como eram chamados os seguidores do movimento fascista brasileiro. Só faltou o presidente fazer a saudação com sua mão direita estendida.

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Ailton Krenak, Intelectual do Ano

Ailton Krenak na Assembleia Nacional Constituinte

Um dos momentos mais marcantes da Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988), ocorreu em 4 de setembro de 1987. Naquele dia, com vários temas em pauta, o plenário estava cheio e os embates eram acalorados. Em dado momento, sobe à tribuna um jovem de 34 anos, trajando terno branco e gravata. Já nas suas primeiras palavras, cessa o burburinho e os constituintes começam a prestar atenção naquele que, ao falar, ia pintando sua face com tinta preta de jenipapo. Na tribuna, Ailton Krenak, protestava contra emendas ruralistas que poderiam ser um retrocesso na luta pelos direitos dos índios brasileiros. Seu pronunciamento contundente, decisivo para aprovar os artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, foi reproduzido pelos principais veículos de comunicação do mundo. Na Academia, são inúmeros os trabalhos e teses sobre o evento. 

Passado que são 33 anos daquele dia histórico, o líder indígena, ambientalista e escritor Ailton Krenak é escolhido “Intelectual do Ano” e ganhador do troféu Juca Pato, concedido anualmente pela União Brasileira de Escritores (UBE). O prêmio é conferido à personalidade que, havendo publicado um livro de repercussão nacional no ano anterior, tenha se destacado em qualquer área do conhecimento e contribuído para o desenvolvimento e prestígio do país, na defesa dos valores democráticos e republicanos.

Com vários livros publicados, inclusive em outros idiomas, a obra escolhida para homenagear Ailton Krenak foi “Ideias para adiar o fim do mundo”. 

Mineiro da região do Médio Rio Doce, Ailton pertence a um grupo indígena que ficou sendo conhecido como Krenak. Mas ele próprio explica que a autodenominação correta do grupo é Burun, que significa seres humanos. O grupo buscou existir e se perpetuar às margens do Watu, nome original do Rio Doce. O mesmo rio que foi atingido pelo desastre provocado pela Vale e Samarco com rompimento criminoso da barragem de Fundão em novembro de 2015.

É interessante como algumas tribos e grupos, como os Buruns, se autodenominam “seres humanos”. Também a denominação Yanomami, grupo de 35 mil indígenas que vivem na floresta amazônica, quer dizer “ser humano”, em oposição a yaro (que é o animal de caça), yai (ser invisível) e napë (inimigo, branco ou não yanomami).

Como líder indígena, Ailton participou de vários movimentos. Em 1988, com a criação da União dos Povos Indígenas. No ano seguinte, por ocasião do assassinato de Chico Mendes, foi a vez da Aliança dos Povos da Floresta. O movimento busca a subsistência econômica das tribos através da extração do látex das seringueiras e de outros produtos da floresta. Em Minas Gerais, dedicou-se ao Núcleo de Cultura Indígena. Na região da Serra do Cipó, o Núcleo realiza o Festival de Dança e Cultura Indígena.

Trechos do premiado “Ideias para adiar o fim do mundo”:

“Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapar dessa. A gente resistiu expandindo a nossa subjetividade, não aceitando essa ideia de que nós somos todos iguais”.

“Sentimo-nos como se estivéssemos soltos num cosmos vazio de sentido e desresponsabilizados de uma ética que possa ser compartilhada, mas sentimos o peso dessa escolha sobre as nossas vidas. Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu?”

“A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos”.

Uma passagem do último livro de Ailton Krenak, “O amanhã não está à venda”:

“Esse vírus está discriminando a humanidade. Basta olhar em volta. O melão-de-são-caetano continua a crescer aqui do lado de casa. O vírus não mata pássaro, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise. Temos de abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a Covid-a9. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos”.

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O pior entre os piores

Qual o transtorno?

Uma coisa é o governo bolsonaro. Suas ações variam de acordo com cada integrante ou patente. Diversionista, engana quem gosta com um rosário de declarações absurdas. Entreguista, destrói a economia nacional e submete a nação ao jugo dos interesses de potências e empresas estrangeiras. Fascistóide, embarca nos modelos atrasados contra a ciência e as instituições democráticas. Policial, mantem o país refém entre o legal e as acobertadas milícias. Justicialesco, delações por encomenda e ações que ferem a Constituição e o estado democrático de direito. Militarista, segue a lógica castrense de ocupação com 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos civis do governo (dados de julho). Como se em quartel, ordem unida contra críticas. E o governo é, acima de tudo, golpista.

Outra coisa é o próprio Bolsonaro. Mesmo com um governo à sua imagem e semelhança, a criatura consegue superar sua criação. O presidente Bolsonaro tem um dos maiores defeitos da raça humana. Ele não tem nenhuma empatia. O conceito de empatia, como sabemos, significa a capacidade de se identificar com outra pessoa,  uma capacidade de compreensão emocional do outro. Não dá para criar empatia. É preciso, antes, aceitar suas próprias vulnerabilidades. Afinal, trata-se de um processo cognitivo e afetivo. Ou tem, ou não tem.

Ao longo de todo o período em que estamos vivendo, com a crise provocada por uma doença terrível que já matou quase um milhão em todo o mundo e que, só no Brasil, ceifou mais de 136 mil vidas, ele jamais conseguiu externar empatia. Pelo contrário, todas as suas falas e atitudes mostram o total desprezo pela vida de seus semelhantes.

Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique (08/05/2020), o articulista Guilherme Antônio Fernandes, após comentar a falta de empatia do Bolsonaro, escreveu: “A empatia é fundamental para a construção de uma sociedade, onde a dignidade da pessoa humana se coloca como central. A falta de empatia, portanto, reduz a qualidade da convivência humana e conduz a própria sociedade à sua autofagia. A ausência de empatia leva ao excesso de individualismo, que toma conta das ações e degrada o espaço público do encontro humano”.

Para quem não leu ou não conseguiu acompanhar, o portal IG Último Segundo publicou o que disse e fez Bolsonaro durante todo o período da pandemia (até ontem). A título subjetivo, que pode não ter a ver com o tema, o google explica o que vem a ser uma doença chamada Transtorno de Personalidade Borderline e também uma outra, o Transtorno de Personalidade Antissocial (psicopatia). A primeira apresenta diferentes graus de comprometimento de empatia, já o psicopata não possui qualquer empatia.

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Agro é tech. Agro é pop. Agro é tudo. Será mesmo?

AGRO É TUDO?

Campanhas milionárias do agronegócio são divulgadas pela grande mídia. Em especial na rede globo, cujos proprietários são grandes produtores rurais. Imagens mostram plantações e colheitas com máquinas fantásticas e cortam para os produtos nos supermercados. O telespectador pouco informado não tem como duvidar: é uma maravilha, o que seríamos de nós sem o agronegócio. 

É verdade que o agronegócio, além de distribuir muita riqueza a seus poucos proprietários, traz divisas importantes para o Brasil. As exportações do agronegócio chegaram a mais de 10 bilhões de dólares em junho passado. Só a soja ficou com mais da metade da exportação brasileira. Também é verdade que não sabemos até quando alguns países continuarão a comprar do Brasil. Há um movimento internacional contra o nosso país pelas políticas negacionistas do governo atual com relação ao meio ambiente e na flexibilização das regras para fiscalização e aplicação de agrotóxicos. Ou seja, breve o agronegócio pode começar a perder tradicionais importadores.

Concordar que agro é tech não é difícil. Aquelas máquinas imensas que devem substituir centenas de trabalhadores, podem ser consideradas tech. Já aceitar que é pop fica mais difícil. De popular não tem nada. E ainda são responsáveis por diversos problemas ambientais, pois desequilibram o ecossistema e provocam o empobrecimento do solo. Mas dizer que agro é tudo, é demais. É uma mentira deslavada, principalmente quando a propaganda leva o telespectador a imaginar que aquela produção rica e tech vai estar nas vendas e nos supermercados.

Não vai estar não. Aquelas monoculturas são para exportação, que é o negócio do agro. Quem coloca o alimento nas prateleiras das vendas e nas gôndolas dos supermercados leva o nome de agricultura familiar. Segundo a ONU, cerca de 80% de toda a comida do planeta vem desse tipo de produção.

No Brasil, a agricultura familiar envolve aproximadamente 4,4 milhões de famílias e é responsável por gerar renda para mais de 70% dos brasileiros que vivem no campo. De acordo com o censo agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE, 77% dos estabelecimentos rurais no Brasil são classificados como sendo de agricultura familiar.

Ainda assim, esses pequenos produtores, que são os responsáveis em colocar o alimento nas mesas dos brasileiros, têm acesso a apenas 14% de todo o financiamento disponível para a agricultura. O grosso vai para os grandes negócios, para a agro continuar a ser cada vez mais tech.

Outro importante parceiro para garantir o alimento ao brasileiro tem sido o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), por intermédio de seus assentamentos. A  agricultura familiar do MST, localizada no Rio Grande do Sul, é a maior produtora de arroz orgânico da América Latina. O que sobra no mercado interno é exportado para diversos países, como EUA, Portugal, Itália, China e Emirados Árabes. Por falar em MST, o movimento já doou, desde o início da pandemia, mais de 3.400 toneladas de alimentos. 

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Livro de Graça na Praça 2020

Como previsto, o nosso evento, com a distribuição dos livros na Praça de Santa Tereza, foi adiado.

Esperamos que o lançamento da obra “O Boi Zebú e as Formiga”, em comemoração ao décimo-oitavo aniversário do Livro de Graça na Praça, possa acontecer em meados de outubro ou novembro.

Em breve, o livro será disponibilizado no blog para quem desejar.

18ª edição do Livro de Graça na Praça

Título: O boi zebu e as formiga

Ilustrações: Walter Lara

Prefácio: Arthur Vianna

Relação dos autores:

Álvarenga Peixoto – Liras (Bárbara bela)

Augusto do Anjos – A Idéia

Bruno Terra Dias – Chico Pessoa

Bule-Bule –  Coração de poeta

Christian  Coelho – A pedra

Cícero Christófaro – Amor…Paixão. ..Ciúme

Dagmar Braga – (sem titulo)

Everaldo Chrispim – A terna paixão

Fabiano Salim  – Estrela de rua

Fábio Lucas – O zelador do céu 

Fernando Fabbrini  – Quando dá o trem

Fernando Sabino- Basta saber Latim

Geraldo Amâncio –  Homenagem aos 18 anos do LGP

Gonçalves Dias – Canção do exílio

Gregório de Matos – Implorando perdão

Guilherme Sabino – Um lanche delicioso 

João Camilo Torres – Dionísio,  o invicto

José Flávio Vieira – Assim na Terra como no Céu 

José Mauro da Costa – A trama da aranha

José Paulo Cavalcanti – Todo o Mundo e  Ninguém 

Josenir Lacerda – Certas dores

Jussara de Queiroz – O trem das estepes 

Klévisson  Viana –  Embrapa

Lamartine Babo – Eu sonhei que tu estavas tão linda

Leida Lusmar – Herança

Marco Haurélio – Projeto Tamar

Mario de Andrade – A Serra do Rola-moça

Olavo  Bilac – Ouvir estrelas

Olavo Romano – Formigas e Taiobas

Patativa  do Assaré – O boi zebu e as formiga

Rogério Faria Tavares – Margareth Marques

Rouxinol do Rinaré – Rede Mata Atlântica 

Adendo: Poesias, trovas e desafios de vários poetas e cordelistas nordestinos

Concurso: não houve contos classificados no 10o Concurso Nacional de Contos LGP 

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Animais salvos na Amazônia e outros pagando mico em Brasília

Animais amazônicos?

O governo federal continua pautando a imprensa internacional. Não há uma só semana sem duas e três bobagens. Às vezes, com declarações graves. Outras, apenas burrice. Nem chegamos na sexta-feira e o Festival de Besteira que Assola o País (termo criado em 1966 pelo escritor Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta) já registrou várias desacertos (para gáudio dos correspondentes estrangeiros) de nossos governantes. 

Assim que o governo “descobriu” que o arroz, entre outros alimentos, havia subido de preço em até 40%, o ministério da Economia, por intermédio de um assessor, declarou que o motivo para o aumento é que “o auxílio emergencial aumentou a demanda e a população mais carente estava comprando mais comida”. A informação, embora incompleta, pode até ter um certo sentido. O motivo principal, no entanto, é que quase todo o arroz produzido no Brasil está sendo exportado. Em 2020, sua exportação teve um aumento de 169,5% em relação a 2019, com um total de 487,5 mil toneladas de arroz. Só o México acaba de importar 60 mil toneladas. Com o dólar a R$ 5,30, o produtor prefere buscar o mercado externo do que as prateleiras dos supermercados.

Então, qual foi o ato falho do eminente assessor do ministério da Economia? É que ele, depois de justificar o aumento do preço do arroz pelo consumo da população mais carente, emendou “mas, felizmente, este problema vai acabar e o preço voltará aos níveis anteriores”. Ou seja, quando terminar o auxílio emergencial, a população mais pobre deixará de comprar…alimento! Réu confesso, diria a Marcinha minha irmã.

Mais uma do governo. E agora, com as assinaturas do vice-presidente, o político Mourão (general é lá no quartel), e do campeão das besteiras governamentais, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Os dois acabam de compartilhar um vídeo produzido por uma entidade ruralista intitulado “A Amazônia não está queimando”. Logo no início do vídeo, aparece o Mico Leão Dourado com o locutor (em inglês) “Você está sentindo cheiro de fumaça? Claro que não, pois a Amazônia não está queimando novamente”.

Duvida? Eu também duvidaria se não tivesse assistido. Você sentir ou não sentir cheiro de fumaça ao assistir um vídeo deve ser altíssima tecnologia. Nem o Facebook e o WhatsApp conseguiram tal façanha. Na verdade, a mentira começa no título, pois, segundo órgão do próprio governo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi contabilizado 29.307 focos de calor no mês passado na Amazônia, um dos piores resultados nos últimos dez anos.

A maior besteira da dupla, do vice-presidente e do “passador de boiada” é acreditar, e divulgar em suas redes sociais, que o mico leão dourado mora na floresta amazônica. Eles não sabem que o charmoso animalzinho habita a Mata Atlântica. Talvez eles também não saibam que o leão (Panthera leo), que hoje pode ser encontrado na África subsaariana e na Ásia, já habitou as Américas, mas foi há 10 mil anos. Já o mico leão dourado nunca frequentou a Amazônia. Nem como turista.

A confusão não é apenas dos dois. Parece ser endêmica no governo Bolsonaro. Outro dia, o ministro das Comunicações (!?) Fábio Faria, em entrevista à CNN, declarou que “a Amazônia é composta por 87% de Mata Atlântica e os outros 13% correspondem às queimadas”. 

Na próxima reunião ministerial, e sem precisar utilizar palavrões como aconteceu em 22 de abril, o presidente poderia convidar um especialista (algum aluno do ensino médio) para explicar que a mata atlântica e a amazônica são biomas diferentes. O primeiro, localizado na faixa costeira do Sul e do Nordeste, e o segundo no interior do país, principalmente na região Norte. O jovem professor poderá, certamente, desenhar para o presidente, vice e seus ministros.

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