helinho e a trupe do helinho

beto vianna

no filme get back, paul e john reclamam da viagem dos beatles à índia. dizem que “não eram eles mesmos”. george solta essa: “a piada é que, se vocês fossem vocês mesmos, não seriam o que são agora”. conhecer helinho e sua trupe – soraya, maru, izabel, zezinho, fernando, ronaldo – com licença pra brincar o teatro com a trupe, pra ser outra coisa, muitas outras coisas, no espaço dionisíaco, e portanto, rigorosamente verdadeiro, da arte da trupe, foi determinante de tudo que eu possa ser agora.

belo horizonte, 1989, brasileirinho versus mister mídia. helinho e a trupe do helinho botaram arte, política e rua na epigênese da candidatura de leonel brizola à presidência da república federativa do brasil. helinho acrescentou aos seus muitos metros de altura dramática, 20 polegadas a mais de tv, sintonizando a própria imagem, verossimilhança e som em playback, ó, tempos de vhs. transmutante em ator de tv, o hélio-híbrido cibernético-zolini impersonava em tecnicolor o televilão mister mídia, maléfico impositor de alternativas políticas à alegria, arqui-inimigo do prazer (e da dor que também somos, como ensinou darcy), nêmesis do carnaval, do delírio, da comida, da casa, do trabalho, da educação e da arte. só hélio era sol e tamanho pra ser mister mídia. só a um gigante gentil foi permitido atuar vertiginosamente pelo precipício da ignomínia que a direita, toda eleição, todo ano, todo santo dia, como uma fênix sem brilho e sem pena, reinventa. mister mídia é o interminável renascer do “lado doutor, fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens”, como já manifestara Osvaldo em 22. 

botar o coração e a cabeça de helinho dentro do mister mídia – o canal e o aparelho da direita – era explodir de-dentro-pra-fora, de bombamor, de bomba cômica, o meio e a mensagem da canalha. no andar de baixo do cenário, que é a calçada, ou o balcão de um bar de esquina, o trio brasileirinho (um malasartes-capitão rodrigo, ou só rodrigo, de carcomida que é hoje a patente) e duas musas de teatro de revista (carmen e josephine, clementina e pina, isadora e cacilda, leila e alicia, elis e luz) duelam com mister mídia empunhando a palavra-cantada, a palavra-encenada e a palavra-dançada. nos bastidores do nosso lado, um cineasta, um jornalista, um brandão e um artista plástico. nos bastidores do lado deles, eles mesmos, a direita.

o brasil é saboroso e terrível, mas a mim, pessoalmente, e envergonhadamente, o brasil sempre sabe mais saboroso que terrível. por isso, vale viver. esse olho-ouvido torto, que turva de ver fome e enganação, e vibra de escutar samba e roquenrol, foi o presente ainda presente que ganhei do helinho e da trupe do helinho. e também por isso, vale viver. 

ronaldo, soraya e helinho mereciam só ter morrido depois de termos vencido.

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Noivinha do Aristides

A novinha do Aristides

Inúmeros órgãos e entidades ligados à saúde pública cobram do governo federal a exigência de apresentação do certificado de vacinação aos passageiros que chegam ao Brasil. Entre eles, e com insistência desde o dia 12 de novembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Hoje, vários estados e municípios já exigem o certificado para várias atividades públicas. No Rio, até para hotéis. Com a chegada da nova variante ômicron, a pressão junto ao governo aumentou. A medida ainda não foi adotada porque o presidente cabeça dura é contra. E não é só por ser negacionista. Se aprovada a exigência do certificado, ele poderia ser barrado quando voltar ao Brasil de uma viagem ao exterior. Ou teria de admitir que, escondido de seu bando, tomou as três doses. O Brasil, felizmente, é muito maior do que bolsonaro e a recomendação da Anvisa deve ser adotada nos próximos dias.

Antes da chamada 4ª onda da covid, vários países já haviam flexibilizado a entrada de brasileiros. Como os EUA, o Canadá acaba de “aceitar” brasileiros vacinados com as duas doses da coronavac. Mesmo os cidadãos canadenses que, fora do Canadá, tomaram a coronavac estavam proibidos de retornar ao país. Foi o meu caso. Tenho a dupla cidadania há mais de 20 anos e sou editor de uma revista em Toronto. Mesmo assim, tive de adiar por três vezes a minha viagem de trabalho. Não deixei por menos e escrevi um artigo na revista Brazilian Wave. A matéria, publicada em português, inglês e francês, levou o título “Canadá discrimina cidadãos canadenses”.

No Brasil, o ano parece não querer terminar. Além da última bobagem do bolsonaro (tem sempre uma), a corrida pela presidência ganha novos contornos. O ex-juiz de Maringá, suspeito e incompetente como decidiu o Supremo Tribunal Federal, lança sua candidatura e começa a receber mimos de certa imprensa. Em seu discurso, defendeu criar no Brasil um tribunal de exceção e citou como exemplo a Ucrânia. Para conquistar o eleitorado de extrema-direita, o juiz suspeito e incompetente se apresenta como o verdadeiro bolsonaro da campanha de 2018. Sua mulher, Rosângela Moro, já havia declarado, em fevereiro de 2020, que bolsonaro e moro são “uma coisa só”. O presidente deve conhecer bem o seu ex-ministro. Ontem, ele declarou que o moro é “mentiroso, palhaço e sem caráter”.

No legislativo federal, senado aprova a PEC dos precatórios e a indicação do André Mendonça. Com os bilhões dos precatórios, bolsonaro espera manter o segundo lugar na disputa presidencial de 2022. Já o pastor-juiz, com nova cabeleira, deixou de ser terrivelmente evangélico como queria seu patrão. Para conquistar o posto, agora é favor do casamento gay e nada de prece no Tribunal. Não sei se o prometido almoço semanal com o presidente será mantido.

O PSDB, antes de afundar de vez, lança o ex-Bolsodória como um possível Morodória. Tem também as pesquisas. A última aponta o índice mais baixo de aprovação do governo bolsonaro: 19%. A Globo coloca no ar uma nova identidade visual. Sai o verde e amarelo e entra violeta e vermelho. No gramado, as vitórias do Deca rumo à Libertadores e o merecido bicampeonato do Galo. E ainda faltam 29 longos dias para o fim de 2021. Haja coração e vacina.

Em tempo: foto do casamento de Aristides Bertual, político e piloto de corrida gaúcho, com sua noivinha Elmira Roveda (1943).

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O vírus é um animal político (e nós, estamos preparados para negociar?)

Nelson Vaz – montvaz@ufmg.br

Luiz Andrade – labauff@yahoo.com.br

Beto Vianna – btvianna@gmail.com

O dilema das ruas 

No último dia 29 de maio, um sábado, centenas de milhares de pessoas ocuparam ruas e praças em atos contra o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Entre as pautas mais destacadas do 29M, o protesto contra as políticas nacionais de enfrentamento da pandemia (ou a falta delas), cobrando mais vacinação, o aumento do valor do auxílio emergencial, e a responsabilização, ou o impedimento, do presidente. O movimento se estendeu por 200 cidades brasileiras, de todas as unidades federativas, e outra dúzia mundo afora. Cada capital reuniu dezenas de milhares de pessoas, chegando a 80 mil em São Paulo, com pouco ou nenhum confronto, à exceção do Recife, onde a Polícia Militar de Pernambuco se lançou criminosamente sobre os manifestantes. Em um balanço dos organizadores, fala-se em 450 mil pessoas no total, número macabramente próximo do saldo de vítimas da COVID-19 no Brasil, naquele momento. “Se o povo vai às ruas protestar em plena pandemia…”, como se lia nos cartazes empunhados, “… é porque o governo é mais perigoso que o próprio vírus”. Sim, a justificativa é impecável, mas, claramente, há um dilema, aqui. Estávamos, como ainda estamos, no olho do furacão da crise sanitária. Mesmo tomando as melhores precauções, como se tomou (o uso e a distribuição de máscaras e álcool em gel, e os esforços de se manter algum distanciamento), juntar tanta gente, em tantos lugares do país, é um reforço à linha de transmissão do SARS-CoV-2. 

O dilema se impõe, sem deixar de ser dilema, pois os esforços do governo federal e de seus aliados, protagonizados pelo próprio presidente, sempre visaram facilitar a disseminação do vírus, seja abertamente, na defesa da imunidade de rebanho, ou matizados por argumentos econômicos (“a fome mata mais que o vírus”), psicológicos (a febre da cabana), ou francamente delirantes, como atribuir a origem da pandemia a uma manobra geopolítica de bastidores. A estratégia do governo foi documentada em um recente relatório do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitários, da USP (CEPEDISA, 2021), entregue à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pandemia. É inevitável pesar o 29M no contexto das manifestações promovidas e estimuladas por Bolsonaro, que respiram negacionismo cientifico no discurso e na própria dinâmica dos atos: minimização da doença, ataques ao isolamento, ao uso de máscara e às vacinas, e por outro lado (com efeitos idênticos no mau comportamento coletivo), estimulo ao uso de drogas milagrosas. Como disputar as ruas com o negacionismo, se as ruas são seu palco preferencial? Gostaríamos de estender essa pergunta para uma arena similar, que é o debate político em ciência (ou, se se quiser, o debate científico na política): como questionar o afazer científico, como pensar as consequências (públicas) do que fazem e dizem os cientistas, em um momento em que a autonomia das ciências tem sido o alvo preferencial do governo?

O fato é que, a despeito da gritaria bolsonarista contra a ciência, não entendemos, com raríssimas exceções, o mecanismo de doenças infecciosas agudas e crônicas. Em suma, ainda não entendemos a COVID-19. O contágio com o SARS-CoV-2 é necessário, mas não suficiente, para resultar na doença grave, que surge preferencialmente, mas não apenas, em idosos e pessoas debilitadas por comorbidades. As crianças parecem particularmente resistentes aos sintomas respiratórios graves, mas, em pequena porcentagem, são afetadas por outro tipo de patologia inflamatória. Não entendemos ainda a que isso se deve. Podemos repetir, transposto para o vírus, o que disse o patologista alemão Carl Weigert em meados do século dezenove: as bactérias podem ser a causa, mas não são a explicação, das doenças infecciosas. Como corolário dessa lacuna em nosso conhecimento, é preciso reconhecer que tampouco entendemos plenamente como as vacinas funcionam. O que é bem diferente de, como fazem os arautos da desinformação, colocar em questão a eficácia geral das vacinas que temos hoje, à nossa disposição, na corrida para a diminuição de casos graves de COVID-19. Ao lado do entendimento precário da relação de nossos corpos com o vírus, não é sensato pensarmos a vacinação, e junto com ela, a metáfora da imunização – a blindagem individual de nossos corpos contra um invasor externo – como a solução para as causas ou para os efeitos da pandemia. O buraco em que nos metemos é sistêmico, tem escala global, e não se trata, nem de longe, de uma guerra contra o vírus.

Onde foi parar o organismo? 

Ainda não entendemos as doenças infecciosas, porque não entendemos ainda a natureza dos seres vivos. Na imunologia, o organismo é apenas o lugar ou a dimensão em que se dão as respostas imunes à invasão de materiais estranhos. Durante 40 anos, um de nós (Nelson Vaz) teve o privilégio de compartilhar ideias sobre esses problemas com o biólogo chileno Humberto Maturana, recentemente falecido. Em uma troca de e-mails, em maio de 2018, conversando sobre o mecanismo de doenças infecciosas, Maturana disse: “Lembre-se de que não são nem os antígenos, nem os próprios anticorpos, que levam à recuperação da saúde, mas a recuperação da contínua realização da harmonia da autopoiese molecular.” Maturana e Vaz tentavam escrever juntos um texto que aplicasse à imunologia as ideias sobre a biologia do conhecer e a linguagem (MATURANA, 2002). Com a delicadeza que lhe era característica, Maturana esperava que Vaz entendesse, em seus próprios termos, o que isso significa. Mas como falar aos colegas imunologistas sobre “harmonia da autopoiese molecular” se, com raras exceções, eles estão todos empenhados em entender a regulação de respostas imunes específicas?

O sistema imunológico de que falam os imunologistas sequer é um sistema, no sentido mais aceito deste termo. Sistemas são entidades compostas que mudam sem se transformar em outra coisa, sem mudar de identidade de classe. O sistema imunológico oficial é um aglomerado de linfócitos e produtos moleculares de linfócitos, como anticorpos e citocinas. Não é um sistema, porque sistemas derivam sua identidade das conexões entre seus componentes. Assim descrito, como um conjunto desarticulado de clones linfocitários, o sistema imunológico oficial como que habita o organismo, e o defende, mas não pertence a ele, porque não o contacta fisiologicamente. Os contatos mais frequentes e mais abundantes com materiais imunogênicos se dão com proteínas dos alimentos e produtos de uma imensa microbiota nativa. Em animais sadios, esses contatos não resultam em respostas imunes progressivas, como as que se observam nas doses “de reforço” das vacinas. O corpo não desenvolve uma “memória imunológica” de sua comida e dos micróbios que traz sobre a pele e as mucosas, e com os quais convive em harmonia. Mas o corpo não ignora esses antígenos: ativa linfócitos e produz anticorpos que reagem com os mesmos, mas não o faz de maneira progressiva. Estabelece patamares de reatividade que são robustamente mantidos durante todo o viver sadio, embora o corpo troque continuamente de linfócitos por outros que lhes são equivalentes.

Essa estabilidade robusta da atividade imunológica natural se manifesta em padrões de reatividade que podem ser visualizados e estudados tanto em imunoglobulinas “naturais”, ou seja, que são produzidas espontaneamente pelo corpo, como em repertórios de linfócitos T. Sem conhecer a natureza destes padrões, como eles se formam e o que significam, não saberemos sequer quais perguntas devemos fazer. Esses padrões se alteram de maneiras não aleatórias durante doenças infecciosas graves, doenças alérgicas e autoimunes. A maneira de estudar esses padrões, é expor as imunoglobulinas naturais ou os linfócitos T a misturas de muitos antígenos, aqui tratados meramente como “ligantes”, ou seja, de uma forma inespecífica, que não busca identificar “anticorpos específicos”, e sim analisar o conjunto complexo de atividades que resulta nos padrões observados. A conservação e as alterações destes padrões são aquilo que Maturana apontava ao se referir à harmonia da autopoiese molecular. Quando propriamente definido, o sistema imunológico será visto como um subsistema de organismos vertebrados, composto por linfócitos e produtos de linfócitos que se voltam sobre si mesmos, isto é, que exibem uma organização invariante a despeito de contínuas mudanças estruturais. 

Organização e estrutura são dois termos propostos por Maturana e Varela (1984) para se referir à estabilidade e a mudança característica de sistemas dinâmicos, entre os quais se destacam os seres vivos. Devemos a Jorge Mpodozis um pensamento notável, usado como epígrafe em um pequeno livro que ele escreveu com Nelson Vaz e outros autores (VAZ et al, 2011): 

Há plasticidade nos modos de desenvolver. Os caminhos do desenvolvimento têm plasticidade em todos os momentos, e isso é o que permite essa maravilhosa diversidade de linhagens de seres vivos. Mas o problema não é o que é plástico, e sim o que se conserva. Se a mudança é uma condição constitutiva do viver, então, como se conserva aquilo que se conserva?

Respostas imunes específicas medem aquilo que o imunologista deseja medir, na suposição de que a reatividade imunológica seja específica (VAZ, 2011). Nesse modo de ver, as vacinas seriam comandos bioquímicos, a que o corpo obedece formando anticorpos e ativando linfócitos específicos. O corpo, no entanto, não obedece! O corpo faz a si mesmo, mantém sua autopoiese molecular. Há situações excepcionais nas quais se formam anticorpos específicos suficientes para impedir a chegada de determinadas toxinas ou vírus a receptores celulares. Felizmente, isso ocorreu na COVID-19, e a infecção pelo SARS-CoV-2, ou o desenvolvimento de quadros graves, pode ser evitada pela vacinação. Em múltiplas outras situações, tentativas similares falharam. Um exemplo notável é a busca por uma vacina anti-HIV para a prevenção da AIDS.

Os invasores de corpos

Muito antes do surgimento da atual crise pandêmica, tanto nas universidades e institutos de pesquisa, como na indústria farmacêutica, havia muita pesquisa em curso sobre vírus e sobre vacinas. O aclamado sucesso das vacinas de mRNA, como a Pfizer-BioNTech, a Moderna e a chinesa Walvax (ainda em promissora terceira fase de testes), deveu-se a pesquisas básicas sobre imunizações com RNA e DNA realizadas há décadas. Apesar disso, apenas uma pequena parte do mecanismo de funcionamento das vacinas, bem sucedidas ou não, é conhecida. A imensa maioria das tentativas de se criar novas vacinas está destinada ao fracasso, e ainda se trabalha por tentativa e erro, exatamente como Pasteur fazia há um século e meio. Sem dúvida, ciência e tecnologia estão entrelaçadas neste propósito, mas a vacinação é uma vitória muito mais tecnológica, que cientifica. A vacina contra a varíola, a primeira a ser inventada, foi o maior benefício já criado pela medicina. Calcula-se que a varíola tenha matado, desfigurado e cegado mais de 600 milhões de pessoas antes que a vacina se tornasse disponível. Mas quando a vacina começou a ser utilizada em larga escala, nada sabíamos da existência de micróbios e vírus, e muito menos de anticorpos. Entender o que acontece parece secundário, desde que vacinação funcione. A busca de explicações pela prática científica é mais difícil porque não traz resultados imediatos. Em vez de gerar dinheiro, a pesquisa científica requer investimentos e seus resultados são incertos. Os financiadores da ciência, sejam eles oficiais ou privados, são geralmente mal informados sobre o que se passa, e a face mais visível dos problemas é mais tecnológica que científica. Assim, apesar de considerarmos a imunologia como a ciência por excelência por trás das pesquisas, o debate que inundou a mídia e as redes sociais desde o anúncio da pandemia, é mais propriamente uma vacinologia, que imunologia. 

A pandemia tem sido encarada como uma emergência biopolítica em si mesma, que deve ser enfrentada com estratégia militar: uma guerra contra um agente invasor, em que o novo coronavírus é o inimigo, e as vacinas, as nossas armas. Não é sensato ver os vírus como invasores acidentais de nossos corpos. As partículas biológicas mais comuns na natureza são vírus. A água limpa dos oceanos está repleta de vírus, como os bacteriófagos, que infectam bactérias marinhas. Há milhares de vírus associados a todo e qualquer ser vivo, inclusive, claro, os humanos. Em certos animais, como os morcegos, de que existem mais de mil linhagens, as condições anti-inflamatórias que compensam extensas lesões celulares criadas durante o vôo, são propícias a abrigar, harmoniosamente, vários tipos de vírus, incluindo muitos coronavírus. Mesmo em humanos, e no caso específico da COVID-19, sabemos que há casos assintomáticos, ou seja, pessoas que podem conviver por muito tempo em harmonia com o vírus, sem nem mesmo saber que foram contagiadas, transmitindo-o para outras pessoas. Esse carácter furtivo da infecção pelo SARS-CoV-2 dificulta o controle epidemiológico por isolamento social.

A linhagem humana levou 400 mil anos para atingir o primeiro bilhão de habitantes e, no século seguinte, gerou outros 6 bilhões, uma verdadeira explosão. Com o viver desarmônico que levou à destruição do ambiente natural e à extinção de múltiplas espécies, à crise do clima e a contaminação por microplásticos, estes problemas se entrelaçam com o “transbordamento” de vírus e bactérias que vivem em harmonia nos animais silvestres. Vacinas e isolamento social são medidas importantes, mas se destinam a combater sintomas desta situação. Os esforços de retomada de nosso viver em um “novo normal” contemplam a retomada de um curso nitidamente suicida, e não as mudanças radicais de conduta necessárias a frear minimamente estes problemas gigantescos, ou, como lembra Ailton Krenak (2020) “adiar o fim do mundo”. No caso da vacinação, é importante que ela não tome emprestada a racionalidade subjacente à defesa do uso de drogas (a hidroxicloroquina e a Ivermectina são as personagens clássicas), elevadas, contra todas as evidências, à condição de tratamento precoce da COVID-19. O resultado de manifestações públicas como a de Donald Trump, incentivando o uso desses fármacos, replicado até hoje nas redes bolsonaristas e no discurso oficial do governo brasileiro, é uma disposição coletiva autodestrutiva, que vê, na ingestão de balas mágicas, a alternativa a mudanças comportamentais tidas como difíceis ou ameaçadoras, seja à liberdade individual, seja a uma imaginada tradição cultural. 

Sim, devemos tomar as vacinas, e apoiar a vacinação em massa. O fato de nos posicionarmos firmemente contra o negacionismo científico, não deve, no entanto, impedir o questionamento incessante que, de resto, não é estranho à prática científica. As ciências podem e devem ser mais debatidas (portanto, politizadas), assim como a (boa) prática política convida à maior compreensão dos fenômenos por parte da população, que pode, assim, se engajar de forma qualificada no debate público (desasnar, como dizia Darcy Ribeiro). Justamente por estarmos diante de um obscurantismo pernicioso, os cientistas precisam ser convidados a se sentar à mesa como interlocutores produtivos, com toda a sua experiência de articular procedimentos e fenômenos, e não como uma casta de tradutores privilegiados da natureza. Uma analogia pode ser útil. O antropólogo Clifford Geertz (1984) lembra que, no contexto do macarthismo, nos EUA, criou-se o conceito de “anti anti-comunismo”. Ou seja, sem implicar, necessariamente, uma adesão a teses marxistas, era preciso confrontar a ignorância e a perversidade da caça às bruxas: denunciar o perigo real de se combater um perigo imaginário. Na mesma lógica, propomos o conceito isomórfico de anti anti-vax. E como Geertz, lembramos que se trata de uma semelhança formal. Os partidários anti-vacina não são, por extensão, anticomunistas (mesmo que alguns, de fato, o sejam). O que está em jogo é nos posicionarmos contra a disseminação de notícias fantasiosas, mal fundamentadas, e, sobretudo, perigosas para a população, e, ao mesmo tempo, podermos discutir abertamente as abordagens dos cientistas e as políticas públicas de saúde, tanto no que diz respeito às dinâmicas imediatas do organismo (em seu encontro com o vírus) quanto o caráter global, sistêmico, e de responsabilidade coletiva, da pandemia. 

Animais políticos

Em sua Política, Aristóteles fez a famosa declaração de que “o homem [isto é, o humano]  é, por natureza, um animal político”. A afirmação decorre da sugestão de que o espaço do debate público, a pólis, existe por natureza, e, sendo assim, nossa condição de organismos de determinado tipo – um animal – e a ocupação dos espaços de debate, são, ambas, e ao mesmo tempo, naturezas humanas. Podemos aproveitar algo da sugestão de Aristóteles, sem precisarmos restringir essa convergência entre o natural e o social ao dominio do humano. O vírus não é, obviamente, um animal (ou mesmo, um organismo unicelular, diferença elusiva para certos médicos bolsonaristas), mas pensemos o animal, com as devidas licenças poética e política, como uma referência à condição estrutural do vírus, a que atribuímos anima quando ele participa da dinâmica celular. Mas, por isso mesmo, o vírus também tem uma história de encontros com outros organismos, incluindo o humano. E é isso, evidentemente, o que nos interessa, e nos preocupa. Em um cenário como a pandemia, em que nunca agimos sozinhos (seja como cientistas, como atores políticos, ou como humanos), e, portanto, nenhuma solução monocrática é satisfatória, faríamos bem em considerar outros atores como responsáveis, isto é, com capacidade de responder, como efetivamente respondem, ao comportamento dos demais participantes. 

Ainda não sabemos ao certo de que animal – um morcego, o pagolim – o vírus transbordou para corpos humanos, ou se isso se deu em uma área de mata virgem, ou em um tumultuado mercado de Wuhan. Mas não estaríamos alarmados se o vírus não tivesse saído de seu berço de origem e migrado, através de corpos humanos, para outros lugarejos e outros continentes, como continua a fazer, copiosamente. Como ocorre com outros coronavírus, o SARS-CoV-2 é, de vários modos, uma partícula aerotransportada: propaga-se localmente pelo ar, é expelida pelas (e penetra as) vias aéreas dos nossos corpos, e irradia-se globalmente usando a densa rede de linhas aéreas, ou seja, de modernos aviões à jato, que liga em poucas horas os mais distantes pontos do planeta. Tornamo-nos humanos suscetíveis a doenças graves e potenciais veículos de um patógeno poderoso no enconto com o novo vírus, assim como o coronavírus surge e se dissemina em coerência com os modos de vida que conservamos (ou deixamos de conservar). Entre eles, para citar os mais eloquentes, a população vertiginosa (nossa e de nossos agrobiotas), a degradação ambiental em escala planetária, e os avanços na tecnologia de transporte. Assim como nós, humanos, temos uma história (mudamos no encontro com o vírus, a partir de dinâmicas do nosso próprio organismo), o vírus também tem uma história, também surge e muda em resposta às nossas ações, seguindo sua própria deriva estrutural. É preciso deixar de encarar nosso atual modo de vida como inevitável, se o que queremos é evitar respostas dramáticas de outros atores, essas sim, além do nosso controle, como fica escandalosamente claro na pandemia. Certamente virão outras, e a metáfora da guerra não ajuda. É mais prudente sentar à mesa e negociar, de preferência, com disposição para escutar.

Referências

ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Edipro, 2019.

CEPEDISA – Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário. A linha do tempo da estratégia federal de disseminação da Covid-19.  Estudo elaborado no âmbito do projeto de pesquisa “Mapeamento e análise das normas jurídicas de resposta à Covid-19 no Brasil”. Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, 2021.

GEERTZ, Clifford. Distinguished Lecture: Anti Anti-Relativism. American Anthropologist, 86(2), p. 263-278, 1984.

KRENAK, Aílton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2020.

MATURANA, Humberto; VARELA, Fernando. El Árbol del conocimiento. Las bases biológicas del entendimiento humano. Santiago: Editorial Universitaria, 1984.

MATURANA, Humberto (2002). Autopoiesis, structural coupling and cognition: a history of these and other notions in the biology of cognition. Cybernetics & Human Knowing, 9(3-4), p. 5-34, 2002.

VAZ, Nelson; MPODOZIS, Jorge; BOTELHO, Jorge; RAMOS, Gustavo (eds.). Onde está o organismo?Derivas e outras histórias na Biologia e na Imunologia. Florianópolis: UFSC, 2011.

VAZ, Nelson. The specificity of immunological observations. Constructivist Foundations, 6(3), p. 334-351, 2011.

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Cuba resiste

Um artigo do Frei Betto para quem, realmente, deseja saber um pouco mais sobre Cuba. A matéria foi publicada, originalmente, na revista Carta Maior.

Inferno, purgatório, paraíso.

Frei Betto

       “Poucos ignoram minha solidariedade à Revolução Cubana. Há 40 anos visito com frequência a Ilha, em função de compromissos de trabalho e convites a eventos. Por longo período  intermediei a retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, conforme descrito em meus livros “Fidel e a religião” (Fontanar/Companhia das Letras) e “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco). Atualmente, contratado pela FAO, assessoro o governo cubano na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.

       Conheço em detalhes o cotidiano cubano, inclusive as dificuldades enfrentadas pela população, os questionamentos à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas do país. Visitei cárceres, conversei com opositores da Revolução, convivi com sacerdotes e leigos cubanos avessos ao socialismo. 

       Quando dizem a mim, um brasileiro, que em Cuba não há democracia, desço da abstração das palavras à realidade. Quantas fotos ou notícias foram ou são vistos sobre cubanos na miséria, mendigos espalhados nas calçadas, crianças abandonadas nas ruas, famílias debaixo de viadutos? Algo semelhante à cracolândia, às milícias, às longas filas de enfermos aguardando anos para serem atendidos num hospital? 

       Advirto os amigos: se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, “orgulhar-se” da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.

       Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.

       Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.

       Nada é mais prostituído do que a linguagem. A celebrada democracia nascida na Grécia tem seus méritos, mas é bom lembrar que, na época, Atenas tinha 20 mil habitantes que viviam do trabalho de 400 mil escravos… O que responderia um desses milhares de servos se indagado sobre as virtudes da democracia?

       Não desejo ao futuro de Cuba o presente do Brasil, da Guatemala, de Honduras e ou mesmo de Porto Rico, colônia estadunidense, à qual é negada independência. Nem desejo que Cuba invada os EUA e ocupe uma área litorânea da Califórnia, como ocorre com Guantánamo, transformada em centro de torturas e cárcere ilegal de supostos terroristas. 

       Democracia, no meu conceito, significa o “Pai nosso” – a autoridade legitimada pela vontade popular -, e o “pão nosso” – a partilha dos frutos da natureza e do trabalho humano. A rotatividade eleitoral não faz, nem assegura uma democracia. O Brasil e a Índia, tidas como democracias, são exemplos gritantes de miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento. 

       Só quem conhece a realidade de Cuba anterior a 1959 sabe por que Fidel contou com tanto apoio popular para levar a Revolução à vitória. O país era conhecido pela alcunha de “prostíbulo do Caribe”. A máfia dominava os bancos e o turismo (há vários filmes sobre isso). O principal bairro de Havana, ainda hoje chamado de Vedado, tem esse nome porque, ali, os negros não podiam circular… 

       Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba sujeita às suas ambições. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje. 

       Cuba é uma ilha com poucos recursos. É obrigada a importar mais de 60% dos produtos essenciais ao país. Com o arrocho do bloqueio promovido por Trump (243 novas medidas e, até agora, não removidas por Biden), e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, a situação interna se agravou. Os cubanos tiveram que apertar os cintos. Então, os insatisfeitos com a Revolução, que gravitam na órbita do “sonho americano”, promoveram os protestos do domingo, 11 de julho – com a “solidária” ajuda da CIA, cujo chefe acaba de fazer um giro pelo Continente, preocupado com o resultado das eleições no Peru e no Chile. 

       Quem melhor pode explicar a atual conjuntura de Cuba é seu presidente, Diaz-Canel: “Começou a perseguição financeira, econômica, comercial e energética. Eles (a Casa Branca) querem que se provoque um surto social interno em Cuba para convocar “missões humanitárias” que se traduzem em invasões e interferências militares.”

       “Temos sido honestos, temos sido transparentes, temos sido claros e, a cada momento, explicamos ao nosso povo as complexidades dos dias atuais. Lembro que há mais de um ano e meio, quando começou o segundo semestre de 2019, tivemos que explicar que estávamos em situação difícil. Os EUA começaram a intensificar uma série de medidas restritivas, endurecimento do bloqueio, perseguições financeiras contra o setor energético, com o objetivo de sufocar nossa economia.  Isso provocaria a desejada eclosão social massiva, para poder apelar à intervenção “humanitária”, que terminaria em intervenções militares”. 

       “Essa situação continuou, depois vieram as 243 medidas (de Trump, para arrochar o bloqueio) que todos conhecemos e, finalmente, decidiu-se incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Todas essas restrições levaram o país a cortar imediatamente várias fontes de receita em divisas, como o turismo, as viagens de cubano-americanos ao nosso país e as remessas de dinheiro.  Formou-se um plano para desacreditar as brigadas médicas cubanas e as colaborações solidárias de Cuba, que recebeu uma parte importante de divisas por essa colaboração.”

       “Toda essa situação gerou uma situação de escassez no país, principalmente de alimentos, medicamentos, matérias-primas e insumos para podermos desenvolver nossos processos econômicos e produtivos que, ao mesmo tempo, contribuam para as exportações. Dois elementos importantes são eliminados: a capacidade de exportar e a capacidade de investir recursos.” 

       “Também temos limitações de combustíveis e peças sobressalentes, e tudo isso tem causado um nível de insatisfação, somado a problemas acumulados que temos sido capazes de resolver e que vieram do Período Especial (1990-1995, quando desabou a União Soviética, com grave reflexo na economia cubana). Juntamente com uma feroz campanha mediática de descrédito, como parte da guerra não convencional, que tenta fraturar a unidade entre o partido, o Estado e o povo; e pretende qualificar o governo como insuficiente e incapaz de proporcionar bem-estar ao povo cubano.”

       “O exemplo da Revolução Cubana incomodou muito os EUA durante 60 anos.  Eles aplicaram um bloqueio injusto, criminoso e cruel, agora intensificado na pandemia. Bloqueio e ações restritivas que nunca realizaram contra nenhum outro país, nem contra aqueles que consideram seus principais inimigos. Portanto,  tem sido uma política perversa contra uma pequena ilha que apenas aspira a defender sua independência, sua soberania e construir a sua sociedade com autodeterminação,  segundo princípios que mais de 86% da população têm apoiado.”

       “Em meio a essas condições, surge a pandemia, uma pandemia que afetou não apenas Cuba, mas o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Afetou países ricos, e é preciso dizer que diante dessa pandemia nem os Estados Unidos, nem esses países ricos tiveram toda a capacidade de enfrentar seus efeitos. Os pobres foram prejudicados, porque não existem políticas públicas dirigidas ao povo, e há indicadores em relação ao enfrentamento da pandemia com resultados piores que os de Cuba em muitos casos. As taxas de infecção e mortalidade por milhão de habitantes são notavelmente mais altas nos EUA que em Cuba (os EUA registraram 1.724 mortes por milhão, enquanto Cuba está em 47 mortes por milhão). Enquanto os EUA se entrincheiravam no nacionalismo vacinal, a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos, continuou seu trabalho entre os povos mais pobres do mundo (por isso, é claro, merece o Prêmio Nobel da Paz).”

       “Sem a possibilidade de invadir Cuba com êxito, os EUA persistem com um bloqueio rígido. Após a queda da URSS, que proporcionou à ilha meios de contornar o bloqueio, os EUA tentaram aumentar seu controle sobre o país caribenho. De 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU votou esmagadoramente pelo fim desse bloqueio. O governo cubano informou que entre abril de 2019 e março de 2020 Cuba perdeu 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; nas últimas quase seis décadas, perdeu o equivalente a 144 bilhões de dólares. Agora, o governo estadunidense aprofundou as sanções contra as companhias de navegação que trazem petróleo para a ilha.”

       É essa fragilidade que abre um flanco para as manifestações de descontentamento, sem que o governo tenha colocado tanques e tropas nas ruas. A resiliência do povo cubano, nutrida por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, tem se demonstrado invencível. E a ela devemos, todos nós, que lutamos por um mundo mais justo, prestar solidariedade.”

Dois conselhos às Forças Armadas

Não tenho lá muita afinidade com as chamadas Forças Armadas. Tive até um tio marechal, mas nunca fui muito chegado às fardas e aos militares. No entanto, sei que, conforme o artigo 142 da Constituição, elas destinam-se à defesa da Pátria, da lei e da ordem e à garantia dos poderes constitucionais. São pagos por nós, civis, para manter a defesa das instituições democráticas.

Como os militares têm, em tese, um sistema mais rígido de hierarquia e disciplina do que a sociedade civil, muitas vezes eles se esquecem que estão a serviço da população e do Estado democrático de direito.

Vamos aos fatos. O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, declarou que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo”. Para quem acompanhou a CPI, sabe que surgiram nomes de vários militares ligados ao ministério da Saúde no imbróglio na compra de vacinas. Se culpados ou não, veremos. Mas envolvidos, estão.

In continenti (não resisti), os comandantes da marinha, exército e aeronáutica distribuíram ontem uma nota à nação dizendo que “as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”. Ou seja, eles consideraram que a ofensa atingiu a todos e não só o “lado podre”. Ato falho? A fala do senador, ao contrário do que entenderam os comandantes fardados, foi em defesa das Forças Armadas, mostrando que, como acontece no poder civil, pode existir um lado podre.

A verdade é que os militares são useiros e vezeiros na defesa corporativa. Até mesmo com um capitão que ameaçou colocar bombas em quartéis…

O governo abriga na boquinha federal cerca de 6 mil militares. Muitos de altas patentes e até general da ativa. Vários estão sendo investigados, inclusive o general (da ativa) Eduardo Pazuello.

Aqui vai o meu primeiro conselho: se os comandantes das três forças armadas acreditam mesmo que o senador cometeu, em sua fala, um ato de injúria, calúnia ou difamação, só existe um caminho em um Estado democrático de direito: a justiça. Já que eles, os militares, existem para defender a lei e a ordem, deveriam recorrer aos mecanismos legais. E não soltar uma nota absurda e golpista com o nítido propósito de ameaçar. Ameaçar de quê? Já chega as ameaças de golpe do próprio capitão. 

O segundo conselho é curto e grosso: chega de bravata! Tome tento!

Para terminar, as últimas do capitão.

Desorientado com as últimas pesquisas e com as denúncias de corrupção em seu governo, o meliante soltou hoje duas frases que devem merecer uma nota (de apoio?) dos comandantes militares a seu afilhado:

“Sem voto impresso, não vai ter eleições em 2022”

“Caguei para a CPI” 

Em tempo: para mim, a fala do senador Omar Aziz foi em cima da bucha e na justiça não iria configurar coisa alguma.

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A propósito do depoimento do senhor Carlos Martins (alcunha: Wizard)

O ministro Luís Roberto Barroso (STF) deu a “Wizard” o direito de não responder a perguntas que impliquem autoincriminação (não produzir prova contra si mesmo) e o dispensou de dizer a verdade no depoimento.

Ou seja, a qualquer pergunta que poderia incriminá-lo, ele tem o direito de não responder ou responder com uma mentira.

Assim sendo, podemos imaginar as seguintes perguntas e possíveis respostas:

Pergunta: o senhor tem conhecimento de corrupção na compra de vacinas pelo governo federal?

Resposta 1: não respondo, pois posso me autoincriminar. Resposta 2: não (mentira).

Pergunta: o senhor tem interesse econômico nas compras de vacinas pelo governo federal?

Resposta 1: não respondo, pois posso me autoincriminar. Resposta 2: não (mentira).

Pergunta: o senhor sabe se o presidente Bolsonaro tem conhecimento da corrupção na compra de vacinas?

Resposta 1: não respondo, pois posso me autoincriminar. Resposta 2: não (mentira).

Pergunta: o senhor sabe se o presidente, além de conhecimento, tem interesse na compra de alguma vacina?

Resposta 1: não respondo, pois posso me autoincriminar. Resposta 2: não (mentira)

Pergunta: o senhor participou de reuniões com o presidente Bolsonaro e/ou membros do governo para divulgar o chamado “tratamento precoce” e a utilização de remédios sem eficácia contra a Covid-19?

Resposta 1: não respondo, pois posso me autoincriminar. Resposta 2: não (mentira).

Pergunta: o senhor está deixando de responder ou mentindo na CPI para ocultar informações que poderiam colocar o presidente na cadeia? 

Resposta 1: não respondo, pois posso me autoincriminar. Resposta 2: não (mentira)

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Apesar dele

Há cerca de um ano, publiquei aqui no blogdoconde uma matéria sobre a necessidade do Brasil adotar um sistema de renda mínima para todos os brasileiros (https://blogdoconde.net/2020/07/03/renda-basica-universal-ainda-uma-utopia/). Na oportunidade, citei o projeto de autoria do então senador Eduardo Suplicy que instituía o benefício. O projeto foi sancionado pelo presidente Lula e pelo seu Ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, em 2004. Como tantas outras, esta lei nunca foi regulamentada e muito menos aplicada. Além de citar alguns países que há anos adotam o sistema de renda mínima, dei o exemplo da cidade de Maricá (RJ). Desde 2013, seus moradores mais necessitados têm direito a uma renda básica.

Acabo de receber da minha amiga Anne Cauwel, de Alter do Chão (PA), uma matéria sobre Maricá. Nela, o retrato de uma cidade que tem conseguido avançar nas conquistas sociais. Apesar do genocida de plantão.

Segue o texto:

Un pueblo Maricá en el Brasil de Bolsonaro

Por Camila Parodi 

Hacia finales del 2020 el actual presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, se dirigió a su población con un consejo: “Tenemos que dejar de ser un país de maricas”. En ese momento, su discurso tuvo mucha repercusión no sólo por su contenido homo-odiante, sino también por la acusación hacia las personas que adoptan medidas de cuidados frente a la pandemia por COVID 19 que, particularmente en el Brasil, ha sido muy violenta en términos sanitarios como económicos y sociales. Paradójicamente, la ciudad de Maricá, en Estado de Río de Janeiro, no ha dejado de cuidar a su población. Por el contrario, han acentuado las políticas sociales y económicas que atienden a las personas más afectadas por la crisis.

Maricá tiene una larga trayectoria de izquierda. Ha sido gobernada por el Partido de los Trabajadores (PT) desde el año 2009, en el marco del segundo gobierno de Luiz Inácio “Lula” Da Silva. Su actual alcalde, Fabiano Horta, fue elegido en su segundo mandato con el 88% de los votos. Un claro ejemplo de que la gestión implementada es elegida por su población. 

“Si no fuese por el gobierno municipal y la asistencia social que estamos recibiendo, sería muy difícil para nosotros sobrellevar la pandemia” reflexiona una de las pobladoras, nacida y criada en Maricá, Gleiceane da Costa. Y sobre las políticas implementadas por el gobierno local nos dice “ha ayudado a mucha gente, si no fuese por este beneficio, el pueblo de Maricá tendría muchas dificultades”.

Se trata de una ciudad que evidencia, día a día, qué otra forma de democracia y gestión política es posible. Al enterarnos de su existencia comenzamos a dialogar con colegas de medios populares brasileros hasta dar con Luis Fernando, Periodista del Gobierno de Maricá. Trabajamos más de un mes intercambiando preguntas, audios, traducciones y fotos para la creación de esta nota. De forma que sin su amabilidad y compromiso con este proyecto político no hubiera sido posible. En ese marco, Marcha dialogó con Igor Sardinha, Secretario de Desarrollo Económico; Diego Zeidan, Teniente de Alcalde y ex-secretario de Economía Solidaria y Simone Costa, Ministra de Salud. 

Covid y Socialismo

Tras el conocimiento de yacimientos de petróleo en su costa, la ciudad de Maricá aprovechó sus regalías para mejorar la distribución de la renta a través de la implementación de una moneda propia que tiene por objetivo la reducción de la pobreza y la desigualdad. “En el año 2013 la Ciudad de Maricá empezó con el proceso de construcción de un programa municipal de Renta Básica con la popularidad de usar una moneda social local para el pago de los beneficios: La moneda Mumbuca” explica el Secretario de Desarrollo Económico, Igor Sardinha. Pero, cuál es el objetivo de circular una moneda propia y en qué se beneficia la ciudad: “Hacer estos pagos con una moneda local logra la circulación por la ciudad desde el primero hasta el último centavo de estos recursos, creando empleo y renta” afirma Sardinha. “Actualmente -relata- 42.501 personas, que sería el 26% de la población, reciben este beneficio por mes”. Este número se debe, en parte, a la actual situación atravesada por la Pandemia de COVID 19 donde gran parte de la población se vio afectada en lo laboral, sanitario y económico. Por ese motivo, explica el secretario “con el comienzo de la pandemia hicimos un reajuste de emergencia haciendo que los valores salten de 130 a 300 mumbucas (equivalente con el real)”. 

Pero este incentivo no sólo actúa sobre la población beneficiaría sino que, a su vez, “más de 9000 comerciantes y proveedores de servicios de la ciudad están aptos para recibir por los productos y servicios su pago en moneda mumbuca” sostiene Sardinha. Cabe aclarar, que todo el proceso de uso de esta moneda se realiza de forma electrónica tal como lo explica el Secretario de Desarrollo Económico “a través de aplicaciones de teléfonos celulares o en a través de los equipos de tarjeta tradicionales. Es un programa que promueve el desarrollo económico local a través de los millones de reales inyectados mensualmente en la economía”. 

Actualmente en Maricá vive un aproximado de 160 mil personas y no existen personas que cuestionen o se quejen de la situación económica de su ciudad. A través de las regalías por petróleo a unos 150 millones de reales al año se reinvierte en atención médica, educación, programas sociales, entre otros. Pero no sólo eso, también ahorran parte de ese dinero en un fondo especial que podría ser utilizado una vez que las reservas se agoten o mismo si el precio del petróleo baja. Al momento, la ciudad ha ahorrado casi 500 millones de reales (89 millones de dólares) en su fondo de emergencia.

“La primera preocupación fue con las y los más pobres, y exactamente por eso el primer paso fue duplicar los valores de la Renta Básica” responde el Secretario de Desarrollo Económico ante la pregunta de las acciones implementadas por su gobierno en el marco de la pandemia. A continuación, explica que crearon el Programa de Apoyo al Empleo (PAE), con el objetivo de proteger a la gran parte de “trabajadores y trabajadoras informales que, exactamente por eso, no tienen ningún tipo de protección. Acá en Maricá hay 20.532 trabajadores/as informales registrados en el programa y recibiendo un sueldo mínimo mensual en moneda mumbuca. También, consciente de la necesidad de proteger los trabajos formales existentes en la ciudad, creemos que fue bueno crear el Programa de Apoyo al Empleo (PAE), que autoriza al gobierno de la ciudad a subvenciona la nómina de sueldos de las empresas radicadas en la ciudad pagando un sueldo mínimo por trabajador/a de la empresa inscrita en el programa con el mismo compromiso de no despedir” responde Sardinha. Su aclaración es notoria, eligen proteger a las y los trabajadores en el marco de la pandemia pero no sólo eso, lo hacen dentro de una estructura nacional que en la actualidad permite la reducción de salarios hasta el 70%.

“Finalmente -agrega el Secretario- empezamos el programa “Fomenta Maricá” que brinda líneas de crédito para emergencias para el sector productivo de la ciudad. Créditos de hasta 40 mil reales, con cero intereses, un año de gracia y 36 meses de amortización”. Este conjunto de medidas le permite a la ciudad de Maricá obtener cifras muy positivas en la economía incluso en este momento tan convulso, y en ese contexto aclara “tuvimos más empresas abiertas durante el año 2020 que en 2019 y menos empresas cerraron en el mismo período”.

En lo que corresponde a la gestión de la pandemia, Maricá también implementó acciones para destacarse. Recientemente, su alcalde se organizó junto a otras ciudades para comprar por su cuenta unas 500.000 dosis de la vacuna Sputnik V de doble dosis de Rusia, ya que Bolsonaro se opuso a su compra. Esta cantidad es suficiente para inocular a las 162 mil personas que viven en Maricá y también a los pueblos vecinos. 

Por su parte, la Ministra de Salud, Simone Costa, nos cuenta que la ciudad de Maricá “estableció alianzas entre las secretarías de la Seguridad, Comunicación, Educación, Desarrollo, etc, para realizar un plan de acción conjunto para combatir la pandemia, decretando el Estado de Calamidad y algunos otros decretos, como suspensión de clases, de protección social y distanciamiento social, el uso de una mascarilla y la necesidad de limpieza de las manos para prevenir la propagación del virus”. Desde el minuto uno de la pandemia, a pesar de los dichos de su presidente, la primera acción de la Secretaría de Salud de la ciudad fue “evitar el cruce de personas que tenían otra patología, las sospechas de Covid, y los realmente contagiados/as por el virus” afirma su ministra. 

En lo que corresponde a la intervención específica de salud, comenta que “en lugar de que personas sospechosas fueran a las unidades, creamos carpas en los cuatro distritos (evitando también los viajes largos), para que fueran diagnosticadas y medicadas, lo que requiere aislamiento en casa para aquellos/as que estuviesen con síntomas leves. Aquellos/as que necesitaban hospitalización ya eran enviados/as directamente a una unidad en una sala específica de Covid, o al Hospital Municipal Ernesto Che Guevara, nuestra segunda gran acción en el año pasado”. 

El 1º de mayo de 2020 se inauguró el Hospital Municipal Ernesto Che Guevara que, inicialmente sería un hospital general. Sin embargo, con la llegada de la pandemia, se remodeló para atender específicamente pacientes con Covid. Explica Costa que el hospital abrió con 50 camas, y hoy ya cuenta con 118 en los Centro de Cuidados Intensivos y Semi-intensivos y recibiendo pacientes de manera regulada provenientes de tres unidades de la Red de Urgencias y Emergencias de la ciudad con atención las 24 horas. “Fuimos la única ciudad del Estado que en tan poco tiempo montó una estructura enorme, con cerca de mil empleados/as y que sigue siendo un legado para la población” sostiene la Secretaria. A su vez, Maricá, a través de la Secretaría de Salud, inauguró el Laboratorio Central Dr. Francisco Rimolo Neto, en el centro de la ciudad para realizar hisopados gratuitos (PCR), cuyos resultados son más precisos para la atención de Covid-19, diagnóstico reenviado de las unidades municipales de salud. Al respecto sostiene la Secretaria: “Con mayor número de pruebas, mayor seguimiento de los contagiados/as y, por tanto, mejores tomas de decisiones respecto a los decretos que inciden en la vida cotidiana de la población del municipio, además del menor número de contagiados/as por el aislamiento de las y los infectados”. 

Se invierte también en capacitaciones para que las y los profesionales estén mejor preparados en la atención y procedimientos de esta enfermedad tan nueva y fatal “además de invertir en equipos de protección personal, detección e investigación epidemiológica y en investigaciones, como el casco de ventilación no invasiva que se está probando con los pacientes hospitalizados/as  internados con Covid en el Hospital Che Guevara”. “También -agrega Costa- dejamos la red más integrada entre Atención Primaria y Urgencia y Emergencia, para que los y las pacientes dados de alta pudiesen tener seguimiento fuera del hospital, con profesionales especializados a través del Servicio de Atención Domiciliaria y las dos Unidades de Salud de la Familia”. 

Maricá: Salir del closet neoliberal

¿Cómo se toman estas decisiones? Si bien se intenta incentivar a la población en la participación, remarcan que se trata de las tareas más complejas de la gestión. Sin embargo, se mantiene a través de la creación de una agenda conjunta con el gobierno, como explica el Teniente de Alcalde, Diego Zeidan. “Tenemos una casa de consejos, a través de los ayuntamientos hemos reforzado mucho las políticas. Trabajamos mucho con las asociaciones  de vecinos/as y grupos de vecinos/as para que podamos tener un trabajo más popular, que involucra a las personas en la gestión pública” afirma. “Nuestras políticas públicas, como la moneda Mumbuca, el rojo -autobús libre de color rojo conocido cariñosamente “Vermelhinho”- y el Passaporte Universitario, son dirigidas a las personas, son instrumentos que se utilizan para atender la demanda de la población para hacer valer sus derechos básicos que son derechos constitucionales en Brasil”.

“Para que podamos ser un gobierno popular y reafirmar derechos, necesitamos estar con la gente de nuestro lado” sostiene el Zeidan, sin embargo, se trata también de un desafío “es difícil lograr que la gente participe, esté interesada en la política, interesada en participar en la vida de la ciudad, en la vida cotidiana, en la toma de decisiones. Pero es algo en lo que estamos trabajando y tratando de que más personas estén con nosotros”. Y afirma: “Es necesario traer a la población a los espacios de decisión y consultas populares”.

Al conocer su experiencia y, desde el comienzo de la entrevista, sostuve que es posible construir nuevas formas de poder y democracia, como lo hizo Maricá dentro del Brasil de Bolsonaro, en medio de una pandemia y en pleno Siglo XXI. Ante esta afirmación me responde el Teniente de Alcalde, Diego Zeidan:  “Lo que estamos tratando de hacer aquí en Maricá, además de la discusión de izquierda y derecha, es de hecho construir un nuevo modelo de la sociedad que se preocupe por las personas, para atender las demandas de la mayoría de la población”. “Somos de izquierda -remarca- nos identificamos como un partido y gobierno de izquierda, y defendemos que el Estado necesita garantizar lo mínimo para que la gente viva con dignidad. No podemos tomar como ejemplo el Estado capitalista neoliberal, que está ausente de la vida de las personas y que cree que el mercado regulará y satisfará todas las demandas”.

Para Zeidan, “el mercado tiene fallas en algunas situaciones, tiende al monopolio, la concentración del ingreso y la concentración del capital, y el Estado necesita existir para crear mecanismos que garantizan una vida digna para todos, una vida que no tenga explotación laboral, donde las personas tengan comida en la mesa, acceso a la salud, la educación, la seguridad y cultura general como una forma de ocio, como forma de deporte”. En ese sentido, desde el gobierno de Maricá sostienen que el Estado debe garantizar derechos e igualdad, “ya que el capitalismo tiene fallas y el mercado no puede satisfacer la demanda de gran parte de la población. Entonces, queremos mostrar que es posible un nuevo modelo de Estado, un modelo que en realidad no es nuevo, que ya se usa en China, en Cuba, en algunos países nórdicos, que ni siquiera son socialistas incluso existe un modelo de Estado que promueve el bienestar social” remarca el Teninete de Alcalde.

Finalmente, concluye “debemos asegurarnos de que todos y todas tengan acceso a la salud, la educación, la seguridad, y el derecho a la dignidad. Aquí, en Maricá, demostramos en la práctica que trae beneficios no sólo sociales, sino también económicos”. Después de todo, no es de extrañar que Maricá sea la ciudad con el mayor número de empleos durante la pandemia y asegura: “Así trabajamos en Maricá, demostrando que el Estado tiene que servir a las personas y no a los intereses de los bancos y grandes empresas, sino de los que más lo necesitan, los que están en más dificultades”.

(fonte: marcha.org.ar)

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A receita de um golpe em curso

Desmascarado pela genial Laerte

Não, ele já não está enganando ninguém. Bolsonaro quer e vai tentar um golpe. Golpista o é desde sempre. Militar, projetou colocar bombas em quartéis e estourar a adutora do Guandu. Deputado, defendeu a pena de morte e a ditadura militar. Um de seus discursos na  Câmara em 1999: “Só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil! Começando com FHC! Não deixa ele de fora não.” Em 27 anos como deputado, só teve dois projetos aprovados. Um que isenta do IPI os bens de informática e outro que autoriza o uso no Brasil da chamada “pílula do câncer”, um remédio que jamais foi aprovado pela ciência. Durante todo o período destilou ódio em suas declarações golpistas, racistas e homofóbicas.

Candidato a presidente, se apresentou como o arauto da antipolítica. Em entrevista ao Jornal Nacional, declarou: “vou acabar com a reeleição para presidente e diminuir a quantidade de parlamentares em 15, 20%”. Defendeu o excludente de ilicitude: “invadiu propriedade urbana ou rural, você armado, fogo neles sem nenhum problema jurídico”. Defendeu armar a população com alterações no Estatuto do Desarmamento. Atacou a adoção de crianças por casais homossexuais e prometeu cortar financiamentos para organizações de direitos humanos. Entre absurdos, criticou as reservas indígenas e afirmou: “vou titularizar as terras indígenas e permitir que índios as explorem e até as vendam”. E, claro, para as elites, prometeu um amplo plano de privatizações, criticou as relações com a China e prometeu abrir o comércio do Brasil com os países “civilizados”, como Israel e EUA. Assim, dizendo que jamais iria negociar com políticos, Bolsonaro foi eleito.

Presidente, cercou-se de generais e formou um governo à sua imagem e semelhança. De sua posse até hoje, não passou uma semana sem uma ameaça direta ao povo brasileiro. Participou de atividades antidemocráticas, com passeatas, discursos e sobrevoo. Montado a cavalo, como fazia o ditador Benito Mussolini, circulou entre aqueles que pediam a volta dos militares. Acompanhado de ministros, inclusive generais da ativa, participou de atos contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. E tudo impunemente. A seus apoiadores, no chiqueirinho do palácio, bate no peito para chamar de seu o exército brasileiro. Jornalistas apontam o paradoxo de um presidente fraco que consegue ser mais forte do que o exército.

A pandemia caiu no colo do Bolsonaro. Era o que ele precisava para mostrar a que veio. Agora sim, o discurso de ódio poderia ser exercitado em plenitude. Pelos seus cálculos, a nação está frágil e pode se render a um homem forte, cercado de militares e populista. Um caldo terrível, cujos resultados assistimos, no século passado, na Espanha de Franco, na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini.

Se não surgisse o terrível vírus, talvez o Bolsonaro não conseguiria passar de uma nota ao pé de página ou uma menção no anedotário político. Sua total incompetência administrativa, sua mente esquizofrênica e seu despreparo intelectual fariam dele apenas um macaco em loja de louça. O governo cairia como um castelo de areia.

Mas a pandemia chegou e Bolsonaro aproveitou para instalar a sua necropolítica. Quanto mais mortes, quanto mais sofrimento, mais ameaça. Mesmo tendo o vírus como aliado, Bolsonaro o desdenha para mostrar ser ainda mais poderoso e letal. Em meio a quase meio milhão de mortos, ele aposta no caos. Lança aos ventos provocações e aguarda um pretexto para intervir. Seu objetivo, já não mais camuflado, é se aproveitar de uma possível comoção nacional e surgir como defensor da pátria.

Em uma única semana, ele ameaçou contestar o resultado se a próxima eleição não for com voto impresso, negou a eficácia das vacinas contra a Covid-19, criticou o uso das máscaras e ridicularizou o distanciamento social. Golpista e genocida. Em sua estética fascista, promove desfiles de motos com seus apoiadores e alguns tantos de sua patota de milicianos. Em atitude totalmente ilegal, entra, sem ser passageiro, em um avião comercial para gerar factoide eleitoral. Se rejeitado, parte para a ofensa pessoal e racista.

O mundo já despertou para o caráter sanguinário e perigoso do que está em curso em nosso país. Em recentes editorais, dois jornais britânicos, Financial Times e The Guardian, denunciaram o risco de um golpe pelo presidente brasileiro e foram unânimes: “Bolsonaro é um perigo para o Brasil e para o mundo.”

E nós? Até quando? Mesmo que ainda tímida, a chamada grande imprensa parece ter, finalmente, “descoberto” o perigo que sopra de seu antigo aliado do planalto. As manifestações começam a ganhar fôlego com o mote: quando o povo vai às ruas em uma pandemia, é porque seu governo é pior e mais perigoso que o vírus. A elite brasileira permanece alheia, tal como foi durante a ditadura militar de 1964. O UOL perguntou a dirigentes de 60 mega empresas brasileiras se haveria algum risco de o presidente Bolsonaro tentar dar um golpe militar. Apenas dois dirigentes responderam. Para o Bradesco, a democracia no Brasil é consolidada e a Alpargatas acredita ser fundamental o respeito à democracia e ao Estado de Direito. Os outros 58 ficaram calados. Medo ou conivência?

O golpe pode estar em curso. Manter o Brasil e os brasileiros sob as botas rotas de um tipo como Bolsonaro são outros quinhentos.

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Ética em crise: o desgaste na atualidade

José Saramago, Prêmio Nobel 1998

Hildênia Marques  Psicóloga, MSc.

“… Acho que na sociedade atual falta a filosofia. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar e parece-me que sem idéias não vamos a parte nenhuma…”(Saramago).

Concordo com Saramago quando fala da dificuldade que o homem contemporâneo vem apresentando para pensar, refletir sobre sua própria vida.

Venho percebendo como a palavra ética anda desgastada na atualidade, aparecendo sempre na mídia acompanhada de mensagens curtas, na maioria das vezes com significados reduzidos a algum código de conduta, ou a situações críticas e inimagináveis, sugerindo apenas uma dúvida sobre como devemos agir em determinada situação.

Isso me faz retornar ao significado da palavra “ética”. Ética vem de ethos, que quer dizer morada do ser. É a casa, o lar, é onde nos sentimos seguros, acolhidos.  É dessa maneira que nos percebemos enquanto “pessoa” na sociedade.

Na realidade, sabemos que as questões éticas são amplas e vão muito além dessa forma corriqueira e às vezes até banalizada, como vem sendo tratadas nos dias atuais.           

O genial filósofo alemão Immanuel Kant deixou-nos sua eterna contribuição sobre ética quando afirma: “Age de modo que a máxima de tua ação possa sempre valer também como princípio universal de conduta. Age de modo a tratar a humanidade, seja na tua pessoa ou na do outro, como fim e nunca como meio.”

Na modernidade, ethos e indivíduo parecem estar separados. A ética está vivendo um momento de crise, abalada pelo descaso do homem por ele mesmo, imerso num individualismo exacerbado. Viramos objeto único do nosso amor e nesse surto narcísico não há espaço para o outro. 

Cenas de agressões gratuitas, dificuldade na aceitação das diferenças, bullying, brigas em locais coletivos, estão cada vez mais freqüentes, o que nos aponta para uma situação de crise do convívio social.

Antigamente, sabíamos as notícias das guerras e dos massacres pelo rádio, pelos jornais e depois pela televisão. As informações chegadas a nós sobre a Primeira Grande Guerra, chamada por muitos autores de “ferida da humanidade,” nos incomodam até hoje e foram tão chocantes, que sempre me pergunto como foi possível chegar àquele nível de intolerância.

Mais difícil ainda é entender como o que causou tanto mal-estar no passado está sempre voltando, com outras roupagens, em versões mais modernas, mas cada vez mais bárbaras e cruéis. Atualmente, assistimos outro tipo de guerra cujo inimigo é silencioso e invisível! Devastador, disseminou-se mundo afora com rapidez e eficiência letais. A ciência, em tempo recorde, vem buscando exaustivamente por remédios, tratamentos e já nos oferece as vacinas. Entretanto, sabemos que essa corrida pela contenção do vírus vai depender da nossa postura e conduta como seres humanos! 

A pandemia do Covid-19 deveria nos levar a uma reflexão profunda de como atitudes em prol da coletividade poderiam ser decisivas nesse momento, onde os tão falados cuidados básicos (lavar as mãos, máscaras, distanciamento etc.) sejam somente o começo, ou seja, fundamentos para reflexões muito mais profundas. Pensar na alteridade tornou-se uma questão de vida ou morte. Faz-se urgente repensar a vida a partir do coletivo.  Diante disso, entre outros motivos, surge a dificuldade de criar-se uma ética que seja universal, para todos, quando se pensa cada vez menos no “outro”. Estamos sobrevivendo num momento de caos, aos trancos e barrancos, em meio a situações paradoxais, onde a máxima atual tornou-se: “Salve-se quem puder, custe o que custar.”

 Termino também com Saramago que diz: “Para mim a prioridade é o homem, não há outra.”

                                                                             Contatos: hildmarques@gmail.com

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Governo bolsonaro é réu confesso

O governo bolsonaro, por intermédio do general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Casa Civil, denuncia o governo bolsonaro e divulga relação de seus crimes durante a pandemia.

As afirmações divulgadas pelo próprio governo são:

  1. O governo foi negligente com processo de aquisição e desacreditou a eficácia da CoronaVac (que atualmente se encontra no PNI [Programa Nacional de Imunização];
  2. O governo minimizou a gravidade da pandemia (negacionismo);
  3. O governo não incentivou a adoção de medidas restritivas;
  4. O governo promoveu tratamento precoce sem evidências científicas comprovadas;
  5. O governo retardou e negligenciou o enfrentamento à crise no Amazonas;
  6. O governo não promoveu campanhas de prevenção à covid;
  7. O governo não coordenou o enfrentamento à pandemia em âmbito nacional;
  8. O governo entregou a gestão do Ministério da Saúde, durante a crise, a gestores não especializados (militarização do MS);
  9. O governo demorou a pagar o auxílio-emergencial;
  10. Ineficácia do Pronampe [programa de crédito];
  11. O governo politizou a pandemia;
  12. O governo falhou na implementação da testagem (deixou vencer os testes);
  13. Falta de insumos diversos (kit intubação);
  14. Atraso no repasse de recursos para os Estados destinados à habilitação de leitos de UTI;
  15. Genocídio de indígenas;
  16. O governo atrasou na instalação do Comitê de Combate à Covid;
  17. O governo não foi transparente e nem elaborou um plano de comunicação de enfrentamento à covid;
  18. O governo não cumpriu as auditorias do TCU durante a pandemia;
  19. Brasil se tornou o epicentro da pandemia e “covidário” de novas cepas pela inação do governo;
  20. General Pazuello, general Braga Netto e diversos militares não apresentaram diretrizes estratégicas para o combate à covid;
  21. O presidente Bolsonaro pressionou [os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique] Mandetta e [Nelson] Teich para obrigá-los a defender o uso da hidroxicloroquina;
  22. O governo federal recusou 70 milhões de doses da vacina da Pfizer;
  23. O governo federal fabricou e disseminou fake news sobre a pandemia por intermédio do seu gabinete do ódio.

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A farsa do golpe baixo

Véspera de mais um aniversário do golpe militar de 1º de abril de 1964, eis que o capitão volta a ameaçar os brasileiros – vivos e mortos – com um golpe. Para tanto, aproveitou a retirada do obtuso Ernesto Araújo das Relações Exteriores para uma troca de cadeiras em outros cargos. 

Para mostrar seu poder de fogo, o capitão demitiu um general que não acatou sua ordem de afastar, dos comandos militares, um general, um brigadeiro e um almirante. Foi o que bastou para muita gente acreditar que haveria um golpe. Durante a semana, a trupe palaciana já avisara que a corda estava esticando. 

Na esperança de ser o primeiro violino da charanga, o deputado bolsonarista Vitor Hugo queria votação em plenário de um projeto para dar ao capitão o poder de acionar o dispositivo constitucional de “mobilização nacional”. Com ele, o capitão teria absoluta concentração de poderes, inclusive sobre as polícias militares dos governos estaduais. Apesar do nome, o deputado é fraco de leitura e não sabia que, pela Constituição, o dispositivo só pode ser utilizado em caso de agressão estrangeira.

Ontem, autoridades civis e militares, incluindo o presidente do Senado e o vice-presidente, general Mourão, declararam que não haverá golpe.

É muito estranho quando, vira e mexe, a nação tenha de ouvir que não haverá golpe. Assim como não passa um mês sem que o capitão-presidente não faça uma ameaça, às vezes explícita. 

Vale lembrar que, naquela manifestação contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (3 de maio de 2020), o capitão declarou que as Forças Armadas estavam ao lado de seu governo. A fala provocou uma nota de seis ex-ministros da Defesa, reafirmando o compromisso dos militares com a democracia e que as Forças Armadas são instituições de Estado. Outros oficiais-generais avaliaram, pela imprensa, que o presidente tentou fazer política do capital da instituição.

É claro que temos no Brasil militares golpistas, aliados do capitão e saudosos da ditadura. No entanto, o Brasil de hoje é muito diferente daquele que vivemos na década de 1960.

Ontem, ao tomar posse como novo da Defesa, o general Braga Netto declarou que o “movimento de 1964 é parte da trajetória histórica do Brasil”. É verdade. Não podemos nunca esquecer as mais tristes páginas de nossa história recente, com seus mortos, suas torturas e seus governos militares antidemocráticos. 

Lembrar sempre: ditadura nunca mais.

No mesmo dia, o Brasil bateu, mais uma vez, o recorde de mortes pela Covid-19. Foram 3.780 brasileiras e brasileiros mortos em apenas 24 horas. 

Enquanto a nação enterra seus filhos, um canalha ameaça com um golpe. Sujo e baixo, como ele próprio.

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how to get away with mass murder

beto vianna

digamos que há um vírus potencialmente letal circulando na população, e você quer ajudar a infectar o maior número de pessoas. talvez matando uma boa parte no processo. como fazer isso? vai aqui o passo-a-passo:

a) arrume um forte canal de comunicação com o público-alvo. pode ser viral, como o zap, ou massivo, como a mídia oficial e espontânea da presidência da república.

b) dissemine o medo de se proteger do vírus. fome, desemprego, e febre-da-cabana são boas imagens.

c) manobre para diminuir o alcance ou a magnitude de quaisquer medidas socioeconômicas compensatórias, fortalecendo a estratégia b).

d) compare políticas públicas emergenciais (restrições de circulação, uso de máscaras, vacinação) com medidas ditatoriais de exceção, gerando indignação e desobediência civil.

e) ligue a adoção de tais políticas ao aumento das mazelas propostas em b), reforçando o medo e a desobediência civil.

f) crie confusão sobre os procedimentos da ciência, relativizando e intercambiando o uso de termos como comprovação científica, autoridade, eficácia de substâncias, estudos e testes clínicos etc. essa estratégia é crucial para o sucesso das estratégias g), h), i) e j), a seguir.

g) sobreponha o medo do vírus ao das outras ameaças (fome, desemprego etc), motivando o uso individual, preventivo ou curativa, de remédios e outras substâncias, independente de sua recomendação pela comunidade científica (ver f). lembre-se que o uso em massa dessas substâncias desperta a sensação de proteção e o comportamento favorável à contaminação. 

h) incentive o uso das substâncias citadas em g), que podem ser adquiridas e administradas individualmente, em detrimento de intervenções preventivas coletivas (como a restrição de circulação, o uso de máscaras ou a vacinação). 

i) lance dúvidas sobre os efeitos, eficácia, comprovação científica (ver f) e até a motivação (política, ideológica, econômica) da adoção de medidas preventivas como política pública, como a restrição de circulação, o uso de máscaras ou a vacinação. 

j) use a mesma estratégia, com sinais trocados, na apreciação de drogas administradas individualmente e dos compostos vacinais. apesar de logicamente falha, ao lado das estratégias anteriores (principalmente d e f), os resultados (em termos de comportamento de rebanho) são promissores. 

k) reforce as estratégias em h), i) e j) ligando as medidas sancionadas por políticas públicas a inimigos reais ou imaginários do povo, como grupos econômicos, midiáticos e político-ideológicos. recomendamos o uso da xenofobia e do anticomunismo, que têm eficácia atestada em outros contextos. 

l) não tenha vergonha de mentir sobre qualquer coisa, e desmentir o que disse a qualquer momento. é crucial entender que a disseminação constante da confusão é a maior garantia de um comportamento irresponsável do público alvo.

a adoção desse conjunto de medidas pode, com um vírus como o sars-cov-2, contaminar cerca de 6% da população em um ano, e, num país como o brasil, matar algumas centenas de milhares de pessoas. 

procure se informar como não ser preso por assassinato em massa.

aracaju, 28 de março de 2021

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Boca de militar é pra ficar calada

Sempre o nosso querido Henriquinho

Na semana passada, o presidente Bolsonaro voltou a ameaçar os brasileiros com um golpe militar: “As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso”, afirmou Bolsonaro. “Essa crítica de esculhambar, nós vivemos o momento de 1964 e 1985, você decida aí, pense o que você achou sobre aquele período”, sugeriu o presidente.

A fala do Bolsonaro, no momento em que o Brasil chega a quase 3 mil mortes em apenas 24 horas (16/03), merece uma resposta em pelo menos dois atos da farsa que estamos vivendo.

A primeira dela, resgate de um editorial publicado no dia 25 de fevereiro de 1988 na publicação “Noticiário do Exército”. Com o título “A verdade: um símbolo da honra militar”, o veículo oficial produzido pelo Quartel General do Exército em Brasília faz severas críticas ao capitão Bolsonaro: “desmerece a honra militar’, ‘faltou com a verdade e maculou a dignidade militar”. E mais: “Tornaram-se [Bolsonaro e seu colega], assim, estranhos ao meio em que vivem e sujeitos tanto à rejeição de seus pares como a serem considerados indignos para a carreira das armas”.

O editorial tratava da prisão e processo contra Bolsonaro e seu colega Fábio Passos, acusados de planejar a colocação de bombas em unidades do Exército e até na adutora do Guandu (sistema de distribuição de água do Rio de Janeiro). No final, ele foi considerado culpado por uma junta de coronéis, mas absolvido em um recurso ao Superior Tribunal Militar por 8 votos e 4. 

Em entrevista realizada em 1993, o general Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura militar brasileira, ao comentar a participação de militares na política, afirmou: “Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”. 

Difícil é explicar como um oficial tão mal avaliado pelos seus colegas de farda consegue o apoio de importante (?) parcela de militares. Hoje, mais de 3 mil militares estão nas tetas do governo, incluindo vários generais da ativa e da reserva como ministros.

A melhor resposta ao mau militar e ainda pior presidente, vem da França. Recebi do Frei Betto um oportuno artigo assinado pela jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon. O título, em francês, é Taisez-Vous (Cale-se). Em português, a melhor tradução seria: boca de militar é pra ficar calada.

Vamos ao artigo:

TAISEZ-VOUS

Recém-eleito, Macron respondeu ao general de Villiers, que emitira uma opinião em público. O presidente lembrou ao general que militares têm que obedecer ao “devoir de réserve” (dever de reserva). Militar francês não dá opinião nem mesmo sobre o orçamento da Defesa, como foi o caso de de Villiers, então chefe do Estado-Maior. Villiers se demitiu imediatamente e, um ano depois, escreveu um livro sobre o incidente. Não foi best-seller.

Aqui na França generais não são entrevistados nunca. Nem mesmo para falar do métier deles, a guerra, pois as ações que eles executam na África e no Oriente Médio são todas secretas. Assim sendo, não são vistos nem ouvidos pelos cidadãos, pois o que pensam sobre política não interessa a ninguém. E, pra começar, não podem falar de política por uma norma chamada « devoir de réserve ».

No Brasil, os milicos são adulados por jornalistas que lhes dão o protagonismo na vida política, que é dos civis. Que eles se ocupem de defender nossas fronteiras e fazer hospitais de campanha para doentes do Covid, são tarefas nas quais eles podem ser úteis. 

É o que os militares têm feito em toda a Europa, hospitais de campanha. E calados.  Eles executam o que os governos civis (eleitos pelo povo) decidem.

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Autora, entre outros, de “A tortura como arma de guerra” e “Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar”.

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A mulher

(quase um conto em homenagem ao Dia Internacional da Mulher)

Arthur Vianna

Um telefonema do neto para sua vó.

– Vó, a situação tá preta aqui em casa. Tudo indica que a mamãe vai separar do papai.

– Mas o que aconteceu, meu Deus? Eles nunca brigaram, pelo menos que eu saiba. Você sabe o motivo?

– Eles não falaram nada comigo, mas parece que o papai andou aprontando. Só pode ser.

– Amanhã eu vou aí com o seu avô. Vamos conversar com a sua mãe. 

No dia seguinte, logo após a saída do marido para o trabalho, os avós chegaram. O filho já tinha ido pra aula.

– Oi, minha filha. Eu e seu pai resolvemos dar um pulinho pra conversar com você.

– Já sei, o júnior ligou.

– É, minha filha, ele ligou e temos de dar um jeito em seu casamento. Vocês têm mais de 15 anos de casados, sempre viveram bem, sem problema. Casamento é coisa séria, não pode acabar assim de repente. Tudo tem jeito. Fala pra ela, querido. Nós também já passamos por momentos parecidos.

– Eu nunca falei procê, mas eu e sua mãe quase separamos uma vez. Uma bobagem. Nem gosto de lembrar. Um dia, ao sair do escritório, acompanhei os colegas e fomos para uma boate. Foi a turma toda e eu acabei ficando com a Terezinha, que era da contabilidade. Só apareci em casa no dia seguinte, morrendo de vergonha.

– E tinha de estar envergonhado mesmo. Mas eu compreendi e aceitei as desculpas. Sei como são os homens quando resolvem sair com os colegas.

– Olha, querida, tenho a certeza que o Pedro vai reconsiderar e tudo vai acabar bem. Como aconteceu comigo em relação a sua mãe. Mesmo quando, às vezes, eu saia para um chopinho com os amigos nunca mais passei uma só noite fora de casa.

– É, seu pai, como todos os homens, tem lá suas falhas. Não é perfeito, mas nunca colocou o nosso casamento em risco. Nunca deixou de me amar. O seu Pedro pode ter cometido um erro. Acontece. Mas ele vai arrepender e não vai correr atrás de rabo de saia. Mas cabe a você reconquistar o amor de seu marido. É seu dever como esposa.

– Faça como fez a sua mãe. Tenha uma conversa séria com ele, diga que você o ama mais do que qualquer outra mulher. Não deixe as coisas saírem do controle. O Pedro é homem e muitas são as tentações, você sabe. Principalmente entre colegas de trabalho. Mas nada que pode colocar o seu casamento em risco.

– Então, minha filha, você vai conseguir superar e segurar a barra? Ela é, sempre é, apenas fogo de palha.

A filha beijou sua mãe, fez um carinho no pai e disse:

– Não, queridos, vocês não entenderam. Eu é que vou me separar do Pedro. Amo outra pessoa e vou viver com ele.

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bora armar a população?

Cena de “O incrível exército de Brancaleone” (1966, direção de Mario Monicelli)

beto vianna

é, presidente, tem mesmo de armar a população. com a nobre finalidade de, como defendem os libertários, defender o povo de qualquer tirania. digamos, 175 milhões de doses, perdão, fuzis, de longo alcance e mira telescópica, pra furar tudo, menos o isolamento social. e, claro, munição que dure, ao menos, um mandato presidencial. e porte perene, pessoal e transferível (nosso povo é generoso, adora compartilhar bens e serviços). pra não impactar o orçamento da união, distribuir paulatinamente os trabucos ao longo de 2021, segundo uma escala de grupos prioritários: 

1) 1 milhão de paus-de-fogo pros povos originários, vulgo indígenas (já estão há 500 anos na fila); 

2) 250 mil fuzis pros moradores de rua (leva de brinde uma marreta, útil em situações emergenciais de moradia); 

3) 35 milhões pra população preta, proporcionando segurança, tratamento digno das autoridades e tranquilidade na rua, em casa e – principalmente – no trabalho; 

4) 1 milhão de fuzis pra população trans, no mínimo dobrando a atual expectativa de vida – de 35 anos – nesse grupo; 

5) 15 milhões pros miseráveis, que vão enfim poder matar – não só morrer – de susto, de bala ou vício. 

6) 20 milhões de fuzis pra população idosa trabalhadora (ou seja, que foi ou é trabalhadora), que finalmente poderá acertar as contas com o setor produtivo e com a legislação previdenciária.

mulheres, crianças e homens (nessa ordem), das classes D e C (nessa ordem), mediante declaração de idade, sexo e renda da boca pra fora (vai lá saber se trabalha fichado, ou se é escravo, entre outras realidades possíveis) podem receber, gratuita e individualmente, os cerca de 100 milhões de fuzis restantes, de longo alcance, ao longo do ano.

brasileiros (ou imigrantes e refugiados de países em desenvolvimento) que se encaixem em mais de uma categoria, recebem, logicamente, mais de um berro, até o limite de 6 (seis). o número é arbitrário, só pra dar um toque bolsonarista na lei.

aos professores será vedado receber o benefício, para evitar que o utilizem como instrumento pedagógico, ou nas reuniões de departamento.

nós, da classe B, podemos continuar (se quisermos) a comprar nossa arminha no e-bay (e não há dúvida que vamos precisar!). e na classe A, não haverá distribuição por conflito comercial de interesses (são eles, afinal, que fabricam e fornecem – pra ser mais claro, lucram com – os insumos comprados pelo governo).

decerto que passa no congresso.

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O evangelho segundo Maria Madalena

“Unamos o masculino e o feminino dentro de nós e saiamos a anunciar o Evangelho segundo Maria Madalena” – Papyrus Berolinensis, século V

Arthur Vianna

Na manhã do dia 16 de abril, o grupo contratado pelo doutor Evilásio, advogado dos fazendeiros da região do Sul Amazonense, reuniu-se no Sindicato Rural. O salão parecia pequeno e intimidado com a quantidade de pistoleiros. Havia gente de todos os cantos do Estado. E entre eles, havia de tudo. A promessa do dinheiro despertou desde o motorista de toras a serviço dos madeireiros até engravatados assassinos. À frente, a grande mesa da diretoria contrastava com o ambiente carregado, pois, como se em dia de festa, estava coberta com uma ingênua toalha branca de linho. No centro, apenas duas pessoas: o advogado e o tenente Cardoso, comandante de toda a operação. Mesmo sem qualquer patente, o Cardosão, como também era conhecido, era tratado como ele próprio se intitulava.

Com um gesto, o advogado pediu silêncio e mandou fechar as portas, passando a palavra. O tenente dispensou o microfone, levantou-se e, com dedo em riste e voz mansa, deu sua primeira tarefa:

– É preciso encontrá-la, morta ou viva. Se estiver viva, azar dela. Ela vai aprender com quantos paus se faz uma canoa. E olha que pau é o que não falta entre nós.

Um início de riso foi imediatamente abafado com o barulho das batidas violentas do tenente no microfone. E ele continuou:

– Depois cuidaremos dos outros. Mas a primeira bala tem de ser para a Maria Madalena, a Madá. 

II

Conhecida como Fazenda do Onça, a área ocupada pelos trabalhadores sem terra mede pouco mais de 1.500 hectares. Sua posse é reclamada por um fazendeiro de nome Joaquim Toledo de Mendonça, conhecido como Quincas das Porteiras. O apelido, segundo consta, vem do expediente utilizado pelo ruralista de comprar uma terra e aumentá-la mudando o lugar das porteiras. Ele tentou por diversas vezes regularizar as terras em seu nome e depois em nome de um filho. Os pedidos foram negados, pois a área já está demarcada em um Projeto de Assentamento do INCRA.

Em janeiro de 2009, cerca de 350 famílias ocuparam as terras da Fazenda do Onça, que pertence a União, e desenvolveram o plantio de culturas de subsistência e de hortaliças. Em março, os trabalhadores rurais sem terra conseguiram um trator e começaram o preparo de uma área em torno de 25 hectares.

Ao saber das movimentações dos trabalhadores, o grileiro Quincas das Porteiras promoveu uma reunião com outros fazendeiros da região e mandou um grupo armado dar um aviso: parar imediatamente com o trator ou a expulsão sumária de todas as famílias.

III

Aos quinze anos, Maria Madalena perdeu a mãe. E antes de completar dezesseis, foi a vez do seu pai ser levado pela enchente. Filha mais velha, Madá ficou com os dois irmãozinhos para criar. Procurou ajuda na casa de uma tia, que não via desde criança. Ao chegar no barraco da parente, com um irmão no colo e outro segurando sua saia, ela chorou pela primeira vez. A miséria, que a tinha moldado em pedra, mostrou um quadro ainda mais cruel. 

De volta ao barraco onde nascera, Maria Madalena confiou o menor ao irmãozinho mais velho e decidiu ir em busca de trabalho. Sua casinha, com paredes e telhado de buçu e assoalho de paxiúba, foi construída sobre palanque junto ao rio. Deixou com os meninos um pouco de farinha-d’água, azeite de andiroba para a lâmpada e entrou na canoa prometendo que viria busca-los. 

O velho casco feito pelo pai levou Madá até um povoado próximo de Canutama. No mesmo dia, ela recebeu um convite de trabalho. Teria comida, roupa lavada e uma cama para dividir com quem depositasse um trocado na cômoda da patroa. Recusou e passou a noite numa maromba, uma espécie de curral, junto à igrejinha da vila. Pela manhã, foi encontrada e levada para uma casinha aos fundos do templo. Ao contar que havia deixado seus irmãozinhos e que precisava voltar para pegá-los, os religiosos conseguiram duas canoas e foram até o local indicado pela menina. Com os olhinhos assustados, as crianças pareciam sorrir ao ver a irmã. Do barraco, Madá pegou uns poucos trastes e um livrinho de orações de sua mãe, escrito pelo frei Betto. Ao abraçar seus irmãos, Maria Madalena chorou pela segunda e última vez.

IV

Para uma cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, a movimentação dos pistoleiros de aluguel chamou a atenção de todos. Nos primeiros dias, eles podiam ser facilmente identificados nos bares e praças. Os fazendeiros e madeireiros, preocupados com a igual movimentação da Comissão Pastoral da Terra, decidiram enviar os homens para a sede da fazenda, que continuava em poder do grileiro. O clima era tenso em toda a região. Afinal, já se havia assistido a outras matanças.

Três dias depois da reunião no Sindicato Rural, o MST decide convocar uma reunião de emergência na cidade. Foram convidados o juiz da Vara Agrária, um representante do INCRA, o ouvidor agrário, o advogado da Pastoral da Terra e o advogado do fazendeiro, Evilásio Santolho. A reunião terminou do tamanho que começou. Os representantes dos trabalhadores sem terra denunciaram e o advogado afirmou que não havia qualquer evidência de revide armado, apenas “a busca incessante pela justiça e pelo respeito ao direito da propriedade”. O objetivo dos fazendeiros ficou claro, era desmobilizar. No dia seguinte, os jornais, inclusive do sul, noticiaram que tudo caminhava para um acordo entre as partes.

Enquanto, na sede, o tenente Cardozo organizava seus homens e traçava um plano de invasão do acampamento, outra movimentação ocorria do lado dos trabalhadores sem terra. A batalha viria, sabiam todos, mas não deixariam por menos.

V

Aos 17 anos, Madá já mostrava sua capacidade de liderança. Sempre com o incentivo do frei Marcelo, muito ligado aos movimentos sociais da Igreja, ela descia e subia o rio Ituxi em sua pequena canoa para levar leitura e educação às crianças ribeirinhas. Às vezes, levava consigo seus irmãozinhos. Para eles, agora sendo educados pelas freiras dominicanas, era uma festa. Longe de ser uma missionária acomodada, Madá pregava um evangelho diferente. Na algibeira, o “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, além do “Oração na Ação”, que herdou de sua mãe.

Do frei Marcelo, ela recebia não apenas a orientação religiosa baseada na teologia da libertação como também as notícias sobre o trabalho desenvolvido pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra, o MST. Os textos do MST, que chegavam tanto pelos barcos de linha como pelos muitos religiosos que passavam pela região, eram lidos e discutidos entre os membros daquela pequena comunidade rural. Os problemas eram os mesmos, de norte ao sul do Brasil.

Em pouco tempo, Madá passou a ser a referência entre a direção do Movimento e os trabalhadores sem terra da região. Para ela, no entanto, faltava um maior reconhecimento do papel da mulher no MST. O tema já era discutido pelos militantes e vários textos foram produzidos, mas a mulher era sempre referida como membro da família e destacada a sua importância na fixação do homem no campo. Ela passou a viver em um dos acampamentos próximos a Canutama, mas continuou em seu apostolado com as populações pobres ribeirinhas, em especial junto às crianças.

Um dia, ao voltar de suas andanças, frei Marcelo entrega-lhe um envelope. Dentro, um convite para Madá participar do I Encontro Nacional das Mulheres Militantes do MST, a ser realizado em Cajamar, perto de São Paulo, de 19 a 24 de outubro.

VI

A chamada CPI da Grilagem no Amazonas, de 2001, revelou que um terço de todo o Estado era de terras griladas, nada menos do que 55 milhões de hectares. E que os cartórios de Humaitá, Manicoré e Canutama foram identificados como “contumazes na prática de ilícitos registrais”.

Em 2007, por exemplo, o INCRA denunciou o Tribunal de Justiça do Amazonas por beneficiar grileiros condenados pela Justiça Federal. Um dos casos foi o do Seringal São Pedro, em Lábrea (a 700 quilômetros de Manaus), uma posse ilegal de área com 485 mil hectares. Ou seja, quase 500 mil campos de futebol.

Agora, dois anos depois, lá estavam os mesmos grileiros de sempre. Com seus pistoleiros contratados, sob o comando do tenente Cardoso, o grileiro Joaquim Toledo de Mendonça dava sinal verde para o que ele mesmo considerava “a guerra final contra os posseiros comunistas apaniguados pela Igreja”.

No momento em que o grileiro seguia de avião para o conforto e proteção de sua residência em São Paulo, o tenente ditava as ordens finais do ataque.

– Vamos entrar nas terras do patrão pela noitinha. E só vamos sair de lá quando tudo acabar. Prestem atenção: acabar para mim e para o doutor é não ficar nem um maluvido pra contar história. Se calhar de alguém fugir, vão atrás. Se um de vocês agachar ou se borrar, vai ficar estirado também. Vamos começar com os graúdos, pelo tal coordenador da invasão, o Zé Dias. E a tal da Maria Madalena, que é sustentada pelos padrecos. Vocês viram as fotos e sabem quem é quem. Então, hoje pelas seis horas da tarde todos aqui na frente da sede. Vocês vão receber o dinheiro do doutor advogado antes, e depois não quero ver nenhum de vocês pela redondeza. É escafeder-se mato adentro.

VII

Na madrugada do dia 18 de outubro de 1995, Madá pegou o barco de linha até Lábrea e de lá foi pra Manaus. No aeroporto, recebeu as passagens, um dinheirinho pras despesas e ainda encontrou outras companheiras. Era tanta coisa para conversar que ela nem tomou consciência que era a sua primeira viagem de avião. Em São Paulo, o ônibus ainda aguardou outros voos com mais participantes do Encontro. Com seus 19 anos, Madá era a mais nova da turma. Mas, por outro lado, parecia a mais cheia de ideias.

Desde o recebimento do convite, ela colocou no papel tudo aquilo que gostaria de falar e propor. E não era pouca coisa. O assunto da participação das mulheres no MST precisava mesmo ser muito discutido. Madáaté recortara uma entrevista publicada no jornal Sem Terra de março, com uma garota quase da sua idade, Ivanete Tonin, a Nina. Ela havia participado da primeira ocupação de terra aos 19 anos, ajudou a fundar o movimento no Mato Grosso do Sul, ficou presa por 6 meses e, aos 25, já era uma destacada liderança do MST do Rio Grande do Sul. Com o título “O MST deve lutar também contra o machismo”, Nina dizia que “não queremos ser mais que os homens, queremos ser entendidas enquanto seres diferentes, mas politicamente iguais”. 

E assim também pensava a nossa Madá. Para o encontro, ela preparou um texto consistente, abordando a questão do gênero em uma nova relação dentro do Movimento. Para ela, sem o componente de gênero a luta do MST ficava pela metade.

O Encontro Nacional de Trabalhadoras Rurais reuniu, em Cajamar, militantes do MST de 17 estados do Brasil. Madá foi das mais atuantes. Suas propostas eram lidas e aprovadas pelas companheiras. Entre elas, a realização de grandes mobilizações para assegurar os direitos adquiridos, então ameaçados pela proposta do governo de reformular a Previdência. Madá ainda propôs uma ampla campanha pela documentação de todas as camponesas para que pudessem ser reconhecidas enquanto trabalhadoras.

Ao final dos debates, Madá participou da redação do documento final do encontro, que serviu de base para uma ampla discussão e modificação nas relações dentro e fora do Movimento. Assim surgiu a primeira cartilha organizada pelo Coletivo Nacional de Mulheres. Sob o título “A questão da mulher no MST”, foi apresentado um plano de trabalho para enfrentar a discriminação nos acampamentos e assentamentos e a necessidade de uma estrutura que possibilite sua participação. Foi com o vasto material nascido naquele encontro que, finalmente, as mulheres do MST passaram de “acompanhante” à companheira de luta.

VIII

Na sua mansão da Rua Canadá, em São Paulo, Quincas das Porteiras se preparava para assistir, com sua mulher e filhos, a série Tudo Novo de Novo, transmitida pela Rede Globo com Júlia Lemmertz e Marco Ricca nos papeis principais. 

Naquela mesma sexta-feira, 17 de abril de 2009, distante 3.300 quilômetros da capital paulista, os pistoleiros de aluguel, comandados pelo tenente Cardozo entram na área ocupada pelas famílias de trabalhadores sem terra. A maioria já estava em casa com seus filhos. Sem televisão nem rádio, apenas as candeias de azeite puderam iluminar a tragédia. Nem as verduras foram poupadas.

Quando o sol raiou, a polícia chegou ao assentamento. Alguns, que conseguiram fugir pela mata, voltavam para acudir os feridos e chorar seus mortos. Com todos os barracos destruídos, foram assassinados 21 trabalhadores, sendo oito mulheres e quatro crianças. Entre eles, o coordenador Zé Dias.

De Madá ninguém deu notícia. Não estava entre aqueles que escaparam. Mas também não encontraram seu corpo. Naquele dia, ela completaria 33 anos. 

Maria Madalena continua, até hoje, jurada de morte.

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A dica do Tancredo aos negacionistas e os 30 anos de prisão para o boca-suja

Tem uma do Tancredo Neves que cabe muito bem no momento atual. Eleito governador de Minas, Tancredo foi procurado por um correligionário:

– Doutor Tancredo, todos os meus amigos estavam certos de que o senhor iria me chamar para secretário. Mas o senhor já divulgou a relação e o meu nome não consta. A situação está insustentável.

– Olha aqui, meu filho, faz o seguinte: pode falar para todo mundo que eu te convidei, mas que você não aceitou. Se precisar, eu confirmo.

Com o início da vacinação, os bolsonaristas não sabem o que fazer: ser ou não ser vacinado. Fica a dica do Tancredo: tome a vacina e diga que não tomou.

Para a PQP vá você, Bolsonaro

Este foi o título de uma matéria veiculada ontem pelo conservador jornal Estado de Minas. E o jornalista completou: “Para a puta que o pariu vá você, seu moleque de botequim, seu arruaceiro do baixo meretrício”. A destemperada (para dizer o mínimo) fala do Bolsonaro e a resposta uníssona dos profissionais da imprensa ao presidente boca-suja correu mundo. O presidente do Brasil, na última quarta-feira, disse o seguinte:

“Quando eu vejo a imprensa me atacar, dizendo que eu comprei 2,5 milhões de latas de leite condensado… Vai para a puta que pariu, porra! É pra enfiar no rabo de vocês, imprensa”. A seu lado, com aplauso e risada, o grotesco ministro das Relações Exteriores.

O boca-suja pode (ou deveria) pegar 30 anos de cadeia.

Dados copiados e remendados do texto de Reinaldo Azevedo sobre a petição de ex-procuradores acusando o Bolsonaro de incorrer no art. 267 do Código Penal e com uma pena de 30 anos de cadeia.

Se você – de esquerda, direita, livre-pensador ou tico-tico no fubá – fosse um procurador ou juiz honesto (ou seja, um juiz normal), você botaria em cana, no devido processo legal, um chefe de estado que, no meio duma baita crise sanitária com mais de 9 milhões de vítimas no país, 220 mil fatais (e subindo):

1 – discursasse reiteradamente contra a obrigatoriedade da vacinação e lançasse dúvidas sobre a sua eficácia e certezas sobre efeitos colaterais;

2 –  não adotasse as providências necessárias para a distribuição das vacinas pelo país;

3 – impusesse obstáculos à produção e aquisição de insumos, como agulhas e seringas;

4 –  deixasse de responder à oferta, em agosto, de uma empresa de vacinas (a pfizer), de aquisição de 70 milhões de doses do produto;

5 – declarasse reiteradamente, em suas redes sociais, que não iria adquirir a vacina fabricada pelo Butantan;

6 – desrespeitasse a recomendação da OMS, sobre necessidade de campanhas de esclarecimento da população a respeito da máxima  cobertura vacinal para controle da doença (nem vou falar aqui da negação da pandemia, e da incitação ao descumprimento do isolamento e do uso da máscara);

7 – fizesse apologia às drogas comprovadamente ineficazes ou prejudiciais aos pacientes de covid-19;

8 – promovesse a má utilização de recursos públicos na produção em larga escala dessas drogas, e pagando insumos com preços até três vezes superiores ao habitual;

9 – vetasse a lei de diretrizes orçamentárias de 2021, que impedia o  contingenciamento de despesas com a vacinação da população brasileira;

10 – prescrevesse, pessoalmente e oficialmente através do ministério da saúde. o “tratamento precoce” com as tais drogas ineficazes, mesmo diante da falta de oxigênio hospitalar no amazonas, e, como se não bastasse, tivesse aumentado o imposto sobre importação de cilindros dias antes do colapso no estado.

E ai? 

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CRÔNICA DE UM GENOCÍDIO ANUNCIADO

Frei Betto

       Tudo indica que o Brasil será o último país a ter a sua população imunizada contra a Covid-19 e, em breve, haverá de superar os EUA em número de mortos, devido ao descaso do governo Bolsonaro. Nesta terceira semana de janeiro, já temos mais de 213 mil vítimas fatais. A cada dia, mais de mil pessoas morrem contaminadas pelo coronavírus. 

       Bolsonaro sofre de tanatomania, tendência patológica de satisfação com a morte alheia. Agora a situação se agrava com a falta de oxigênio e leitos nos hospitais. Terrível paradoxo: falta oxigênio aos pacientes dos estados do Amazonas e do Pará, ambos na Amazônia, tida como pulmão do planeta. Muitos morrem por asfixia. E ironia do destino: Maduro, execrado pelo governo, reabastece o Amazonas de oxigênio.

       Todo esse quadro necrófilo resulta da inoperância de um presidente e de um governo genocidas. O Brasil tem Ministério da Saúde, mas não tem ministro. Desde a posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019, os dois médicos que ocuparam o cargo não permaneceram por não concordarem com a indiferença do presidente diante da pandemia e por ele recomendar recursos preventivos sem comprovação científica, como a cloroquina. O atual ministro, general Pazuello, não é médico, e pouco depois de ser empossado admitiu que, até então, desconhecia o SUS, Sistema Único de Saúde, que atende gratuitamente a população e é considerado exemplar. Agora, porém, o SUS está de mãos atadas por falta de vacinas e profissionais de saúde.

        No início da pandemia, enquanto o mundo se alarmava, Bolsonaro declarava que se tratava de uma “gripezinha”. Recusou-se a coordenar a mobilização dos brasileiros para evitar a disseminação da doença. E incentivou, com seu exemplo, as aglomerações, criticou o uso de máscara (chegou a proibir a entrada no palácio de quem estivesse de máscara) e desaconselhou medidas preventivas, como o isolamento, a lavagem cuidadosa das mãos e sua higienização frequente com álcool em gel. Foi preciso a Suprema Corte facultar a governadores e prefeitos o direito de desempenhar essa coordenação. 

       Como Bolsonaro saboreia o macabro cheiro da morte, jamais se preocupou com a vacinação do povo brasileiro.  Deu a entender que a Covid-19 mata preferencialmente os pobres (o que economizaria recursos das políticas sociais), os portadores de comorbidades e os idosos (o que reduziria o déficit do SUS e os gastos com a Previdência Social). Contudo, devido à pressão popular, o governo se viu obrigado a correr atrás das vacinas.

       As vacinas até agora disponíveis são produzidas em dois países, Índia e China, há meses destratados pela família Bolsonaro. O chanceler Ernesto Araújo, adepto do terraplanismo, declarou que a China havia produzido intencionalmente o “comunavírus”. Aliado aos países ricos, o Brasil se recusou a apoiar a proposta da Índia na OMC para quebrar a patente das vacinas. Em outubro de 2020, Bolsonaro assegurou: “Alerto que não compraremos vacina da China”. Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, em novembro, acusou o governo chinês de utilizar a tecnologia 5G para espionar.  

       As poucas vacinas que chegaram ao nosso país, menos de 10 milhões de doses para a população de 212 milhões, vieram da China e foram compradas pelo Instituto Butantan, renomada instituição científica de São Paulo. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do Rio, tenta comprar da China o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) sem que haja, até agora, confirmação de possibilidade de entrega. 

       É preciso que todos saibam do genocídio promovido pelo governo Bolsonaro. Mais de 50 pedidos de impeachment do presidente estão parados nas gavetas do Congresso Nacional. Vivemos, hoje, num país que não tem governo, não tem política de saúde, não tem suficientes vacinas, cilindros de oxigênio e leitos nos hospitais, não tem leis favoráveis ao lockdown e contrárias às aglomerações. Precisamos todos nos mobilizar para salvar o Brasil e os brasileiros.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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BRASIL x PORTUGAL: A VERDADE DOS DADOS

Carlos Vianna 

Como sou primo e amigo do Conde Arthur Vianna Neto perguntei-lhe se podia publicar no seu bloque, cheio de bons artigos e leituras, um material que venho preparando sobre dados comparativos entre Brasil e Portugal, onde vivo há 32 anos. 

Em muitos debates na Casa do Brasil de Lisboa, notei que a pouca informação, para não dizer ignorância, de muita gente sobre os dois países é muita. Assim pretendo fazer, se a minha preguiça não prevalecer, um apanhado comparativo de estatísticas a serem comentadas, para que possamos falar com mais propriedades sobre os principais indicadores sociais e econômicos dos dois países, ditos “irmãos”. Se conseguir, vou estender esta comparação ao campo da política e da organização dos 3 Poderes do Estado. E mostrar porque certas coisas aqui funcionam melhor que no Brasil. Porque aqui a democracia está alguns pontos acima da “democracia de baixa intensidade” praticada no Brasil. 

Talvez estes assuntos sejam um pouco chatos para um blogue, demasiado didáticos. Peço desculpas antecipadamente. Mas talvez poderá ser útil aos leitores, embrenhados quotidianamente na tentativa de entender as causas ou consequências da atual tragédia brasileira. 

NOTA INICIAL SOBRE FATORES DE CORREÇÃO DE INDICADORES EM MOEDA 

Em primeiro lugar cabe indicar que as fontes dos dados são do IBGE, para o Brasil e do PORTALDATA, para Portugal. Outras fontes são expressamente citadas em notas de rodapé. 

A população de Portugal em final de 2019 era de 10,28 milhões e a do Brasil de 210,1 milhões. Como 210,1 dividido por 10,28 são aproximadamente 10,4, usaremos este fator de correção para corrigirmos ou comentarmos alguns indicadores. 

A taxa de câmbio real X euro usada foi a indicada pelo Banco Central do Brasil para o dia 31/12/2019 (um real = 0,2207262 €). Os valores em reais obtidos nas diversas fontes foram convertidos com base neste dado. A taxa de câmbio dólar X euro, mesma data e fonte, é de 0,889680966 euro/dolar. Esta foi a taxa usada para converter indicadores dados em dólares para euros 

COMENTÁRIOS INICIAIS 

Os dados acima são uma primeira aproximação aos indicadores macro- econômicos dos dois países. Exceto num caso, os demais dizem respeito a 2019. Em economia é fundamental conhecer também as tendências dos dados em determinados períodos de anos. Tentaremos abordar períodos relacionados a mudanças políticas ou crises econômicas para vermos os dados em perspectiva. Os dados macro-econômicos de quase todos os países do mundo sofrerão mudanças bruscas neste ano de 2020 em função da pandemia. As quedas dos PIBs poderão chegar aos quinze por cento em 2020. Vamos nos ater à situação pré-pandemia. 

Para comparar PIBs entre países é preciso relacioná-los à sua população. Assim dividi o PIB brasileiro por 10,4 (ratio populacional) para compará-lo ao português. Vê-se então que Portugal produz mais bens e serviços que o Brasil, na razão de 137 para 100. Vale dizer que a produtividade de Portugal é 37% superior à do Brasil. A mesma relação, obviamente, se aplica à renda per capita, usando-se os valores informados pelos organismos oficiais e convertido os reais em euros, à taxa indicada acima. 

Mas o Banco Mundial e outros organismos “produziram” uma outra perspectiva de se comparar os diferentes PIBs/capita, tendo em conta uma fator comparador mais realista que a aplicação das taxas de câmbio: a Paridade de Poder de Compra. Isto por que se sabe que um mesmo dólar compra mais ou menos produtos ou serviços conforme o país em que se está. A Paridade de Poder de Compra deu origem a uma moeda teórica chamada dólar internacional, que torna mais comparáveis os valores de PIB per capita dos diversos países. A lista de PIBs per capita com base no dólar internacional data de 2014. Na Internet vê-se 3 listas, do Banco Mundial, do 

FMI e, curiosamente da CIA. Há pequenas diferenças entre elas.
Na lista do Banco Mundial o PIB per capita de Portugal, medido em dólar internacional, é 81% superior ao brasileiro, o que mostra a maior imprecisão quando se usa a taxa de câmbio real de um determinado dia. Outro conjunto de indicadores macro-econômicos essencial na comparação de países diz respeito ao endividamento público, a instabilidade ou estabilidade da moeda, refletida na flutuação cambial, a capacidade de endividamento externo do país e a taxa de juro dos títulos públicos emitidos no mercado externo conseguida por cada país.
Portugal está numa situação privilegiada em relação ao Brasil devido à força do Euro, uma moeda mais estável e protegida pelo conjunto dos países da zona euro e pelo poderoso Banco Central Europeu, que garante a estabilidade do sistema bancário através da compra agressiva de dívida pública e dos bancos. Desde 2016 a colocação de títulos da dívida pública 

portuguesa no mercado europeu vem caindo fortemente e no fim de 2019 a taxa média para 2019 era de apenas 1,1% e a do Brasil quase 8 vezes maior. Apesar da dívida pública brasileira ser menor relativamente ao PIB, a confiança em Portugal é maior, tendo em conta o contexto europeu. 

A consequência do exposto acima reflete-se na classificação de risco emitida por 4 agências principais de notação de risco atuantes no mundo ocidental. Escolhi a canadense DBRS por ser mais imparcial que as norte- americanas, na minha avaliação subjetiva e de alguns jornalistas. 

Oeiras , 6 de novembro de 2020 (dia da derrota de Trump) 

A CONTINUAR – COMENTÁRIOS SÃO BEM-VINDOS (viannapereirach@gmail.com) 

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