Ética em crise: o desgaste na atualidade

José Saramago, Prêmio Nobel 1998

Hildênia Marques  Psicóloga, MSc.

“… Acho que na sociedade atual falta a filosofia. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar e parece-me que sem idéias não vamos a parte nenhuma…”(Saramago).

Concordo com Saramago quando fala da dificuldade que o homem contemporâneo vem apresentando para pensar, refletir sobre sua própria vida.

Venho percebendo como a palavra ética anda desgastada na atualidade, aparecendo sempre na mídia acompanhada de mensagens curtas, na maioria das vezes com significados reduzidos a algum código de conduta, ou a situações críticas e inimagináveis, sugerindo apenas uma dúvida sobre como devemos agir em determinada situação.

Isso me faz retornar ao significado da palavra “ética”. Ética vem de ethos, que quer dizer morada do ser. É a casa, o lar, é onde nos sentimos seguros, acolhidos.  É dessa maneira que nos percebemos enquanto “pessoa” na sociedade.

Na realidade, sabemos que as questões éticas são amplas e vão muito além dessa forma corriqueira e às vezes até banalizada, como vem sendo tratadas nos dias atuais.           

O genial filósofo alemão Immanuel Kant deixou-nos sua eterna contribuição sobre ética quando afirma: “Age de modo que a máxima de tua ação possa sempre valer também como princípio universal de conduta. Age de modo a tratar a humanidade, seja na tua pessoa ou na do outro, como fim e nunca como meio.”

Na modernidade, ethos e indivíduo parecem estar separados. A ética está vivendo um momento de crise, abalada pelo descaso do homem por ele mesmo, imerso num individualismo exacerbado. Viramos objeto único do nosso amor e nesse surto narcísico não há espaço para o outro. 

Cenas de agressões gratuitas, dificuldade na aceitação das diferenças, bullying, brigas em locais coletivos, estão cada vez mais freqüentes, o que nos aponta para uma situação de crise do convívio social.

Antigamente, sabíamos as notícias das guerras e dos massacres pelo rádio, pelos jornais e depois pela televisão. As informações chegadas a nós sobre a Primeira Grande Guerra, chamada por muitos autores de “ferida da humanidade,” nos incomodam até hoje e foram tão chocantes, que sempre me pergunto como foi possível chegar àquele nível de intolerância.

Mais difícil ainda é entender como o que causou tanto mal-estar no passado está sempre voltando, com outras roupagens, em versões mais modernas, mas cada vez mais bárbaras e cruéis. Atualmente, assistimos outro tipo de guerra cujo inimigo é silencioso e invisível! Devastador, disseminou-se mundo afora com rapidez e eficiência letais. A ciência, em tempo recorde, vem buscando exaustivamente por remédios, tratamentos e já nos oferece as vacinas. Entretanto, sabemos que essa corrida pela contenção do vírus vai depender da nossa postura e conduta como seres humanos! 

A pandemia do Covid-19 deveria nos levar a uma reflexão profunda de como atitudes em prol da coletividade poderiam ser decisivas nesse momento, onde os tão falados cuidados básicos (lavar as mãos, máscaras, distanciamento etc.) sejam somente o começo, ou seja, fundamentos para reflexões muito mais profundas. Pensar na alteridade tornou-se uma questão de vida ou morte. Faz-se urgente repensar a vida a partir do coletivo.  Diante disso, entre outros motivos, surge a dificuldade de criar-se uma ética que seja universal, para todos, quando se pensa cada vez menos no “outro”. Estamos sobrevivendo num momento de caos, aos trancos e barrancos, em meio a situações paradoxais, onde a máxima atual tornou-se: “Salve-se quem puder, custe o que custar.”

 Termino também com Saramago que diz: “Para mim a prioridade é o homem, não há outra.”

                                                                             Contatos: hildmarques@gmail.com

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Governo bolsonaro é réu confesso

O governo bolsonaro, por intermédio do general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Casa Civil, denuncia o governo bolsonaro e divulga relação de seus crimes durante a pandemia.

As afirmações divulgadas pelo próprio governo são:

  1. O governo foi negligente com processo de aquisição e desacreditou a eficácia da CoronaVac (que atualmente se encontra no PNI [Programa Nacional de Imunização];
  2. O governo minimizou a gravidade da pandemia (negacionismo);
  3. O governo não incentivou a adoção de medidas restritivas;
  4. O governo promoveu tratamento precoce sem evidências científicas comprovadas;
  5. O governo retardou e negligenciou o enfrentamento à crise no Amazonas;
  6. O governo não promoveu campanhas de prevenção à covid;
  7. O governo não coordenou o enfrentamento à pandemia em âmbito nacional;
  8. O governo entregou a gestão do Ministério da Saúde, durante a crise, a gestores não especializados (militarização do MS);
  9. O governo demorou a pagar o auxílio-emergencial;
  10. Ineficácia do Pronampe [programa de crédito];
  11. O governo politizou a pandemia;
  12. O governo falhou na implementação da testagem (deixou vencer os testes);
  13. Falta de insumos diversos (kit intubação);
  14. Atraso no repasse de recursos para os Estados destinados à habilitação de leitos de UTI;
  15. Genocídio de indígenas;
  16. O governo atrasou na instalação do Comitê de Combate à Covid;
  17. O governo não foi transparente e nem elaborou um plano de comunicação de enfrentamento à covid;
  18. O governo não cumpriu as auditorias do TCU durante a pandemia;
  19. Brasil se tornou o epicentro da pandemia e “covidário” de novas cepas pela inação do governo;
  20. General Pazuello, general Braga Netto e diversos militares não apresentaram diretrizes estratégicas para o combate à covid;
  21. O presidente Bolsonaro pressionou [os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique] Mandetta e [Nelson] Teich para obrigá-los a defender o uso da hidroxicloroquina;
  22. O governo federal recusou 70 milhões de doses da vacina da Pfizer;
  23. O governo federal fabricou e disseminou fake news sobre a pandemia por intermédio do seu gabinete do ódio.

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A farsa do golpe baixo

Véspera de mais um aniversário do golpe militar de 1º de abril de 1964, eis que o capitão volta a ameaçar os brasileiros – vivos e mortos – com um golpe. Para tanto, aproveitou a retirada do obtuso Ernesto Araújo das Relações Exteriores para uma troca de cadeiras em outros cargos. 

Para mostrar seu poder de fogo, o capitão demitiu um general que não acatou sua ordem de afastar, dos comandos militares, um general, um brigadeiro e um almirante. Foi o que bastou para muita gente acreditar que haveria um golpe. Durante a semana, a trupe palaciana já avisara que a corda estava esticando. 

Na esperança de ser o primeiro violino da charanga, o deputado bolsonarista Vitor Hugo queria votação em plenário de um projeto para dar ao capitão o poder de acionar o dispositivo constitucional de “mobilização nacional”. Com ele, o capitão teria absoluta concentração de poderes, inclusive sobre as polícias militares dos governos estaduais. Apesar do nome, o deputado é fraco de leitura e não sabia que, pela Constituição, o dispositivo só pode ser utilizado em caso de agressão estrangeira.

Ontem, autoridades civis e militares, incluindo o presidente do Senado e o vice-presidente, general Mourão, declararam que não haverá golpe.

É muito estranho quando, vira e mexe, a nação tenha de ouvir que não haverá golpe. Assim como não passa um mês sem que o capitão-presidente não faça uma ameaça, às vezes explícita. 

Vale lembrar que, naquela manifestação contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (3 de maio de 2020), o capitão declarou que as Forças Armadas estavam ao lado de seu governo. A fala provocou uma nota de seis ex-ministros da Defesa, reafirmando o compromisso dos militares com a democracia e que as Forças Armadas são instituições de Estado. Outros oficiais-generais avaliaram, pela imprensa, que o presidente tentou fazer política do capital da instituição.

É claro que temos no Brasil militares golpistas, aliados do capitão e saudosos da ditadura. No entanto, o Brasil de hoje é muito diferente daquele que vivemos na década de 1960.

Ontem, ao tomar posse como novo da Defesa, o general Braga Netto declarou que o “movimento de 1964 é parte da trajetória histórica do Brasil”. É verdade. Não podemos nunca esquecer as mais tristes páginas de nossa história recente, com seus mortos, suas torturas e seus governos militares antidemocráticos. 

Lembrar sempre: ditadura nunca mais.

No mesmo dia, o Brasil bateu, mais uma vez, o recorde de mortes pela Covid-19. Foram 3.780 brasileiras e brasileiros mortos em apenas 24 horas. 

Enquanto a nação enterra seus filhos, um canalha ameaça com um golpe. Sujo e baixo, como ele próprio.

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how to get away with mass murder

beto vianna

digamos que há um vírus potencialmente letal circulando na população, e você quer ajudar a infectar o maior número de pessoas. talvez matando uma boa parte no processo. como fazer isso? vai aqui o passo-a-passo:

a) arrume um forte canal de comunicação com o público-alvo. pode ser viral, como o zap, ou massivo, como a mídia oficial e espontânea da presidência da república.

b) dissemine o medo de se proteger do vírus. fome, desemprego, e febre-da-cabana são boas imagens.

c) manobre para diminuir o alcance ou a magnitude de quaisquer medidas socioeconômicas compensatórias, fortalecendo a estratégia b).

d) compare políticas públicas emergenciais (restrições de circulação, uso de máscaras, vacinação) com medidas ditatoriais de exceção, gerando indignação e desobediência civil.

e) ligue a adoção de tais políticas ao aumento das mazelas propostas em b), reforçando o medo e a desobediência civil.

f) crie confusão sobre os procedimentos da ciência, relativizando e intercambiando o uso de termos como comprovação científica, autoridade, eficácia de substâncias, estudos e testes clínicos etc. essa estratégia é crucial para o sucesso das estratégias g), h), i) e j), a seguir.

g) sobreponha o medo do vírus ao das outras ameaças (fome, desemprego etc), motivando o uso individual, preventivo ou curativa, de remédios e outras substâncias, independente de sua recomendação pela comunidade científica (ver f). lembre-se que o uso em massa dessas substâncias desperta a sensação de proteção e o comportamento favorável à contaminação. 

h) incentive o uso das substâncias citadas em g), que podem ser adquiridas e administradas individualmente, em detrimento de intervenções preventivas coletivas (como a restrição de circulação, o uso de máscaras ou a vacinação). 

i) lance dúvidas sobre os efeitos, eficácia, comprovação científica (ver f) e até a motivação (política, ideológica, econômica) da adoção de medidas preventivas como política pública, como a restrição de circulação, o uso de máscaras ou a vacinação. 

j) use a mesma estratégia, com sinais trocados, na apreciação de drogas administradas individualmente e dos compostos vacinais. apesar de logicamente falha, ao lado das estratégias anteriores (principalmente d e f), os resultados (em termos de comportamento de rebanho) são promissores. 

k) reforce as estratégias em h), i) e j) ligando as medidas sancionadas por políticas públicas a inimigos reais ou imaginários do povo, como grupos econômicos, midiáticos e político-ideológicos. recomendamos o uso da xenofobia e do anticomunismo, que têm eficácia atestada em outros contextos. 

l) não tenha vergonha de mentir sobre qualquer coisa, e desmentir o que disse a qualquer momento. é crucial entender que a disseminação constante da confusão é a maior garantia de um comportamento irresponsável do público alvo.

a adoção desse conjunto de medidas pode, com um vírus como o sars-cov-2, contaminar cerca de 6% da população em um ano, e, num país como o brasil, matar algumas centenas de milhares de pessoas. 

procure se informar como não ser preso por assassinato em massa.

aracaju, 28 de março de 2021

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Boca de militar é pra ficar calada

Sempre o nosso querido Henriquinho

Na semana passada, o presidente Bolsonaro voltou a ameaçar os brasileiros com um golpe militar: “As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso”, afirmou Bolsonaro. “Essa crítica de esculhambar, nós vivemos o momento de 1964 e 1985, você decida aí, pense o que você achou sobre aquele período”, sugeriu o presidente.

A fala do Bolsonaro, no momento em que o Brasil chega a quase 3 mil mortes em apenas 24 horas (16/03), merece uma resposta em pelo menos dois atos da farsa que estamos vivendo.

A primeira dela, resgate de um editorial publicado no dia 25 de fevereiro de 1988 na publicação “Noticiário do Exército”. Com o título “A verdade: um símbolo da honra militar”, o veículo oficial produzido pelo Quartel General do Exército em Brasília faz severas críticas ao capitão Bolsonaro: “desmerece a honra militar’, ‘faltou com a verdade e maculou a dignidade militar”. E mais: “Tornaram-se [Bolsonaro e seu colega], assim, estranhos ao meio em que vivem e sujeitos tanto à rejeição de seus pares como a serem considerados indignos para a carreira das armas”.

O editorial tratava da prisão e processo contra Bolsonaro e seu colega Fábio Passos, acusados de planejar a colocação de bombas em unidades do Exército e até na adutora do Guandu (sistema de distribuição de água do Rio de Janeiro). No final, ele foi considerado culpado por uma junta de coronéis, mas absolvido em um recurso ao Superior Tribunal Militar por 8 votos e 4. 

Em entrevista realizada em 1993, o general Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura militar brasileira, ao comentar a participação de militares na política, afirmou: “Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”. 

Difícil é explicar como um oficial tão mal avaliado pelos seus colegas de farda consegue o apoio de importante (?) parcela de militares. Hoje, mais de 3 mil militares estão nas tetas do governo, incluindo vários generais da ativa e da reserva como ministros.

A melhor resposta ao mau militar e ainda pior presidente, vem da França. Recebi do Frei Betto um oportuno artigo assinado pela jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon. O título, em francês, é Taisez-Vous (Cale-se). Em português, a melhor tradução seria: boca de militar é pra ficar calada.

Vamos ao artigo:

TAISEZ-VOUS

Recém-eleito, Macron respondeu ao general de Villiers, que emitira uma opinião em público. O presidente lembrou ao general que militares têm que obedecer ao “devoir de réserve” (dever de reserva). Militar francês não dá opinião nem mesmo sobre o orçamento da Defesa, como foi o caso de de Villiers, então chefe do Estado-Maior. Villiers se demitiu imediatamente e, um ano depois, escreveu um livro sobre o incidente. Não foi best-seller.

Aqui na França generais não são entrevistados nunca. Nem mesmo para falar do métier deles, a guerra, pois as ações que eles executam na África e no Oriente Médio são todas secretas. Assim sendo, não são vistos nem ouvidos pelos cidadãos, pois o que pensam sobre política não interessa a ninguém. E, pra começar, não podem falar de política por uma norma chamada « devoir de réserve ».

No Brasil, os milicos são adulados por jornalistas que lhes dão o protagonismo na vida política, que é dos civis. Que eles se ocupem de defender nossas fronteiras e fazer hospitais de campanha para doentes do Covid, são tarefas nas quais eles podem ser úteis. 

É o que os militares têm feito em toda a Europa, hospitais de campanha. E calados.  Eles executam o que os governos civis (eleitos pelo povo) decidem.

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Autora, entre outros, de “A tortura como arma de guerra” e “Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar”.

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A mulher

(quase um conto em homenagem ao Dia Internacional da Mulher)

Arthur Vianna

Um telefonema do neto para sua vó.

– Vó, a situação tá preta aqui em casa. Tudo indica que a mamãe vai separar do papai.

– Mas o que aconteceu, meu Deus? Eles nunca brigaram, pelo menos que eu saiba. Você sabe o motivo?

– Eles não falaram nada comigo, mas parece que o papai andou aprontando. Só pode ser.

– Amanhã eu vou aí com o seu avô. Vamos conversar com a sua mãe. 

No dia seguinte, logo após a saída do marido para o trabalho, os avós chegaram. O filho já tinha ido pra aula.

– Oi, minha filha. Eu e seu pai resolvemos dar um pulinho pra conversar com você.

– Já sei, o júnior ligou.

– É, minha filha, ele ligou e temos de dar um jeito em seu casamento. Vocês têm mais de 15 anos de casados, sempre viveram bem, sem problema. Casamento é coisa séria, não pode acabar assim de repente. Tudo tem jeito. Fala pra ela, querido. Nós também já passamos por momentos parecidos.

– Eu nunca falei procê, mas eu e sua mãe quase separamos uma vez. Uma bobagem. Nem gosto de lembrar. Um dia, ao sair do escritório, acompanhei os colegas e fomos para uma boate. Foi a turma toda e eu acabei ficando com a Terezinha, que era da contabilidade. Só apareci em casa no dia seguinte, morrendo de vergonha.

– E tinha de estar envergonhado mesmo. Mas eu compreendi e aceitei as desculpas. Sei como são os homens quando resolvem sair com os colegas.

– Olha, querida, tenho a certeza que o Pedro vai reconsiderar e tudo vai acabar bem. Como aconteceu comigo em relação a sua mãe. Mesmo quando, às vezes, eu saia para um chopinho com os amigos nunca mais passei uma só noite fora de casa.

– É, seu pai, como todos os homens, tem lá suas falhas. Não é perfeito, mas nunca colocou o nosso casamento em risco. Nunca deixou de me amar. O seu Pedro pode ter cometido um erro. Acontece. Mas ele vai arrepender e não vai correr atrás de rabo de saia. Mas cabe a você reconquistar o amor de seu marido. É seu dever como esposa.

– Faça como fez a sua mãe. Tenha uma conversa séria com ele, diga que você o ama mais do que qualquer outra mulher. Não deixe as coisas saírem do controle. O Pedro é homem e muitas são as tentações, você sabe. Principalmente entre colegas de trabalho. Mas nada que pode colocar o seu casamento em risco.

– Então, minha filha, você vai conseguir superar e segurar a barra? Ela é, sempre é, apenas fogo de palha.

A filha beijou sua mãe, fez um carinho no pai e disse:

– Não, queridos, vocês não entenderam. Eu é que vou me separar do Pedro. Amo outra pessoa e vou viver com ele.

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bora armar a população?

Cena de “O incrível exército de Brancaleone” (1966, direção de Mario Monicelli)

beto vianna

é, presidente, tem mesmo de armar a população. com a nobre finalidade de, como defendem os libertários, defender o povo de qualquer tirania. digamos, 175 milhões de doses, perdão, fuzis, de longo alcance e mira telescópica, pra furar tudo, menos o isolamento social. e, claro, munição que dure, ao menos, um mandato presidencial. e porte perene, pessoal e transferível (nosso povo é generoso, adora compartilhar bens e serviços). pra não impactar o orçamento da união, distribuir paulatinamente os trabucos ao longo de 2021, segundo uma escala de grupos prioritários: 

1) 1 milhão de paus-de-fogo pros povos originários, vulgo indígenas (já estão há 500 anos na fila); 

2) 250 mil fuzis pros moradores de rua (leva de brinde uma marreta, útil em situações emergenciais de moradia); 

3) 35 milhões pra população preta, proporcionando segurança, tratamento digno das autoridades e tranquilidade na rua, em casa e – principalmente – no trabalho; 

4) 1 milhão de fuzis pra população trans, no mínimo dobrando a atual expectativa de vida – de 35 anos – nesse grupo; 

5) 15 milhões pros miseráveis, que vão enfim poder matar – não só morrer – de susto, de bala ou vício. 

6) 20 milhões de fuzis pra população idosa trabalhadora (ou seja, que foi ou é trabalhadora), que finalmente poderá acertar as contas com o setor produtivo e com a legislação previdenciária.

mulheres, crianças e homens (nessa ordem), das classes D e C (nessa ordem), mediante declaração de idade, sexo e renda da boca pra fora (vai lá saber se trabalha fichado, ou se é escravo, entre outras realidades possíveis) podem receber, gratuita e individualmente, os cerca de 100 milhões de fuzis restantes, de longo alcance, ao longo do ano.

brasileiros (ou imigrantes e refugiados de países em desenvolvimento) que se encaixem em mais de uma categoria, recebem, logicamente, mais de um berro, até o limite de 6 (seis). o número é arbitrário, só pra dar um toque bolsonarista na lei.

aos professores será vedado receber o benefício, para evitar que o utilizem como instrumento pedagógico, ou nas reuniões de departamento.

nós, da classe B, podemos continuar (se quisermos) a comprar nossa arminha no e-bay (e não há dúvida que vamos precisar!). e na classe A, não haverá distribuição por conflito comercial de interesses (são eles, afinal, que fabricam e fornecem – pra ser mais claro, lucram com – os insumos comprados pelo governo).

decerto que passa no congresso.

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O evangelho segundo Maria Madalena

“Unamos o masculino e o feminino dentro de nós e saiamos a anunciar o Evangelho segundo Maria Madalena” – Papyrus Berolinensis, século V

Arthur Vianna

Na manhã do dia 16 de abril, o grupo contratado pelo doutor Evilásio, advogado dos fazendeiros da região do Sul Amazonense, reuniu-se no Sindicato Rural. O salão parecia pequeno e intimidado com a quantidade de pistoleiros. Havia gente de todos os cantos do Estado. E entre eles, havia de tudo. A promessa do dinheiro despertou desde o motorista de toras a serviço dos madeireiros até engravatados assassinos. À frente, a grande mesa da diretoria contrastava com o ambiente carregado, pois, como se em dia de festa, estava coberta com uma ingênua toalha branca de linho. No centro, apenas duas pessoas: o advogado e o tenente Cardoso, comandante de toda a operação. Mesmo sem qualquer patente, o Cardosão, como também era conhecido, era tratado como ele próprio se intitulava.

Com um gesto, o advogado pediu silêncio e mandou fechar as portas, passando a palavra. O tenente dispensou o microfone, levantou-se e, com dedo em riste e voz mansa, deu sua primeira tarefa:

– É preciso encontrá-la, morta ou viva. Se estiver viva, azar dela. Ela vai aprender com quantos paus se faz uma canoa. E olha que pau é o que não falta entre nós.

Um início de riso foi imediatamente abafado com o barulho das batidas violentas do tenente no microfone. E ele continuou:

– Depois cuidaremos dos outros. Mas a primeira bala tem de ser para a Maria Madalena, a Madá. 

II

Conhecida como Fazenda do Onça, a área ocupada pelos trabalhadores sem terra mede pouco mais de 1.500 hectares. Sua posse é reclamada por um fazendeiro de nome Joaquim Toledo de Mendonça, conhecido como Quincas das Porteiras. O apelido, segundo consta, vem do expediente utilizado pelo ruralista de comprar uma terra e aumentá-la mudando o lugar das porteiras. Ele tentou por diversas vezes regularizar as terras em seu nome e depois em nome de um filho. Os pedidos foram negados, pois a área já está demarcada em um Projeto de Assentamento do INCRA.

Em janeiro de 2009, cerca de 350 famílias ocuparam as terras da Fazenda do Onça, que pertence a União, e desenvolveram o plantio de culturas de subsistência e de hortaliças. Em março, os trabalhadores rurais sem terra conseguiram um trator e começaram o preparo de uma área em torno de 25 hectares.

Ao saber das movimentações dos trabalhadores, o grileiro Quincas das Porteiras promoveu uma reunião com outros fazendeiros da região e mandou um grupo armado dar um aviso: parar imediatamente com o trator ou a expulsão sumária de todas as famílias.

III

Aos quinze anos, Maria Madalena perdeu a mãe. E antes de completar dezesseis, foi a vez do seu pai ser levado pela enchente. Filha mais velha, Madá ficou com os dois irmãozinhos para criar. Procurou ajuda na casa de uma tia, que não via desde criança. Ao chegar no barraco da parente, com um irmão no colo e outro segurando sua saia, ela chorou pela primeira vez. A miséria, que a tinha moldado em pedra, mostrou um quadro ainda mais cruel. 

De volta ao barraco onde nascera, Maria Madalena confiou o menor ao irmãozinho mais velho e decidiu ir em busca de trabalho. Sua casinha, com paredes e telhado de buçu e assoalho de paxiúba, foi construída sobre palanque junto ao rio. Deixou com os meninos um pouco de farinha-d’água, azeite de andiroba para a lâmpada e entrou na canoa prometendo que viria busca-los. 

O velho casco feito pelo pai levou Madá até um povoado próximo de Canutama. No mesmo dia, ela recebeu um convite de trabalho. Teria comida, roupa lavada e uma cama para dividir com quem depositasse um trocado na cômoda da patroa. Recusou e passou a noite numa maromba, uma espécie de curral, junto à igrejinha da vila. Pela manhã, foi encontrada e levada para uma casinha aos fundos do templo. Ao contar que havia deixado seus irmãozinhos e que precisava voltar para pegá-los, os religiosos conseguiram duas canoas e foram até o local indicado pela menina. Com os olhinhos assustados, as crianças pareciam sorrir ao ver a irmã. Do barraco, Madá pegou uns poucos trastes e um livrinho de orações de sua mãe, escrito pelo frei Betto. Ao abraçar seus irmãos, Maria Madalena chorou pela segunda e última vez.

IV

Para uma cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, a movimentação dos pistoleiros de aluguel chamou a atenção de todos. Nos primeiros dias, eles podiam ser facilmente identificados nos bares e praças. Os fazendeiros e madeireiros, preocupados com a igual movimentação da Comissão Pastoral da Terra, decidiram enviar os homens para a sede da fazenda, que continuava em poder do grileiro. O clima era tenso em toda a região. Afinal, já se havia assistido a outras matanças.

Três dias depois da reunião no Sindicato Rural, o MST decide convocar uma reunião de emergência na cidade. Foram convidados o juiz da Vara Agrária, um representante do INCRA, o ouvidor agrário, o advogado da Pastoral da Terra e o advogado do fazendeiro, Evilásio Santolho. A reunião terminou do tamanho que começou. Os representantes dos trabalhadores sem terra denunciaram e o advogado afirmou que não havia qualquer evidência de revide armado, apenas “a busca incessante pela justiça e pelo respeito ao direito da propriedade”. O objetivo dos fazendeiros ficou claro, era desmobilizar. No dia seguinte, os jornais, inclusive do sul, noticiaram que tudo caminhava para um acordo entre as partes.

Enquanto, na sede, o tenente Cardozo organizava seus homens e traçava um plano de invasão do acampamento, outra movimentação ocorria do lado dos trabalhadores sem terra. A batalha viria, sabiam todos, mas não deixariam por menos.

V

Aos 17 anos, Madá já mostrava sua capacidade de liderança. Sempre com o incentivo do frei Marcelo, muito ligado aos movimentos sociais da Igreja, ela descia e subia o rio Ituxi em sua pequena canoa para levar leitura e educação às crianças ribeirinhas. Às vezes, levava consigo seus irmãozinhos. Para eles, agora sendo educados pelas freiras dominicanas, era uma festa. Longe de ser uma missionária acomodada, Madá pregava um evangelho diferente. Na algibeira, o “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, além do “Oração na Ação”, que herdou de sua mãe.

Do frei Marcelo, ela recebia não apenas a orientação religiosa baseada na teologia da libertação como também as notícias sobre o trabalho desenvolvido pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra, o MST. Os textos do MST, que chegavam tanto pelos barcos de linha como pelos muitos religiosos que passavam pela região, eram lidos e discutidos entre os membros daquela pequena comunidade rural. Os problemas eram os mesmos, de norte ao sul do Brasil.

Em pouco tempo, Madá passou a ser a referência entre a direção do Movimento e os trabalhadores sem terra da região. Para ela, no entanto, faltava um maior reconhecimento do papel da mulher no MST. O tema já era discutido pelos militantes e vários textos foram produzidos, mas a mulher era sempre referida como membro da família e destacada a sua importância na fixação do homem no campo. Ela passou a viver em um dos acampamentos próximos a Canutama, mas continuou em seu apostolado com as populações pobres ribeirinhas, em especial junto às crianças.

Um dia, ao voltar de suas andanças, frei Marcelo entrega-lhe um envelope. Dentro, um convite para Madá participar do I Encontro Nacional das Mulheres Militantes do MST, a ser realizado em Cajamar, perto de São Paulo, de 19 a 24 de outubro.

VI

A chamada CPI da Grilagem no Amazonas, de 2001, revelou que um terço de todo o Estado era de terras griladas, nada menos do que 55 milhões de hectares. E que os cartórios de Humaitá, Manicoré e Canutama foram identificados como “contumazes na prática de ilícitos registrais”.

Em 2007, por exemplo, o INCRA denunciou o Tribunal de Justiça do Amazonas por beneficiar grileiros condenados pela Justiça Federal. Um dos casos foi o do Seringal São Pedro, em Lábrea (a 700 quilômetros de Manaus), uma posse ilegal de área com 485 mil hectares. Ou seja, quase 500 mil campos de futebol.

Agora, dois anos depois, lá estavam os mesmos grileiros de sempre. Com seus pistoleiros contratados, sob o comando do tenente Cardoso, o grileiro Joaquim Toledo de Mendonça dava sinal verde para o que ele mesmo considerava “a guerra final contra os posseiros comunistas apaniguados pela Igreja”.

No momento em que o grileiro seguia de avião para o conforto e proteção de sua residência em São Paulo, o tenente ditava as ordens finais do ataque.

– Vamos entrar nas terras do patrão pela noitinha. E só vamos sair de lá quando tudo acabar. Prestem atenção: acabar para mim e para o doutor é não ficar nem um maluvido pra contar história. Se calhar de alguém fugir, vão atrás. Se um de vocês agachar ou se borrar, vai ficar estirado também. Vamos começar com os graúdos, pelo tal coordenador da invasão, o Zé Dias. E a tal da Maria Madalena, que é sustentada pelos padrecos. Vocês viram as fotos e sabem quem é quem. Então, hoje pelas seis horas da tarde todos aqui na frente da sede. Vocês vão receber o dinheiro do doutor advogado antes, e depois não quero ver nenhum de vocês pela redondeza. É escafeder-se mato adentro.

VII

Na madrugada do dia 18 de outubro de 1995, Madá pegou o barco de linha até Lábrea e de lá foi pra Manaus. No aeroporto, recebeu as passagens, um dinheirinho pras despesas e ainda encontrou outras companheiras. Era tanta coisa para conversar que ela nem tomou consciência que era a sua primeira viagem de avião. Em São Paulo, o ônibus ainda aguardou outros voos com mais participantes do Encontro. Com seus 19 anos, Madá era a mais nova da turma. Mas, por outro lado, parecia a mais cheia de ideias.

Desde o recebimento do convite, ela colocou no papel tudo aquilo que gostaria de falar e propor. E não era pouca coisa. O assunto da participação das mulheres no MST precisava mesmo ser muito discutido. Madáaté recortara uma entrevista publicada no jornal Sem Terra de março, com uma garota quase da sua idade, Ivanete Tonin, a Nina. Ela havia participado da primeira ocupação de terra aos 19 anos, ajudou a fundar o movimento no Mato Grosso do Sul, ficou presa por 6 meses e, aos 25, já era uma destacada liderança do MST do Rio Grande do Sul. Com o título “O MST deve lutar também contra o machismo”, Nina dizia que “não queremos ser mais que os homens, queremos ser entendidas enquanto seres diferentes, mas politicamente iguais”. 

E assim também pensava a nossa Madá. Para o encontro, ela preparou um texto consistente, abordando a questão do gênero em uma nova relação dentro do Movimento. Para ela, sem o componente de gênero a luta do MST ficava pela metade.

O Encontro Nacional de Trabalhadoras Rurais reuniu, em Cajamar, militantes do MST de 17 estados do Brasil. Madá foi das mais atuantes. Suas propostas eram lidas e aprovadas pelas companheiras. Entre elas, a realização de grandes mobilizações para assegurar os direitos adquiridos, então ameaçados pela proposta do governo de reformular a Previdência. Madá ainda propôs uma ampla campanha pela documentação de todas as camponesas para que pudessem ser reconhecidas enquanto trabalhadoras.

Ao final dos debates, Madá participou da redação do documento final do encontro, que serviu de base para uma ampla discussão e modificação nas relações dentro e fora do Movimento. Assim surgiu a primeira cartilha organizada pelo Coletivo Nacional de Mulheres. Sob o título “A questão da mulher no MST”, foi apresentado um plano de trabalho para enfrentar a discriminação nos acampamentos e assentamentos e a necessidade de uma estrutura que possibilite sua participação. Foi com o vasto material nascido naquele encontro que, finalmente, as mulheres do MST passaram de “acompanhante” à companheira de luta.

VIII

Na sua mansão da Rua Canadá, em São Paulo, Quincas das Porteiras se preparava para assistir, com sua mulher e filhos, a série Tudo Novo de Novo, transmitida pela Rede Globo com Júlia Lemmertz e Marco Ricca nos papeis principais. 

Naquela mesma sexta-feira, 17 de abril de 2009, distante 3.300 quilômetros da capital paulista, os pistoleiros de aluguel, comandados pelo tenente Cardozo entram na área ocupada pelas famílias de trabalhadores sem terra. A maioria já estava em casa com seus filhos. Sem televisão nem rádio, apenas as candeias de azeite puderam iluminar a tragédia. Nem as verduras foram poupadas.

Quando o sol raiou, a polícia chegou ao assentamento. Alguns, que conseguiram fugir pela mata, voltavam para acudir os feridos e chorar seus mortos. Com todos os barracos destruídos, foram assassinados 21 trabalhadores, sendo oito mulheres e quatro crianças. Entre eles, o coordenador Zé Dias.

De Madá ninguém deu notícia. Não estava entre aqueles que escaparam. Mas também não encontraram seu corpo. Naquele dia, ela completaria 33 anos. 

Maria Madalena continua, até hoje, jurada de morte.

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A dica do Tancredo aos negacionistas e os 30 anos de prisão para o boca-suja

Tem uma do Tancredo Neves que cabe muito bem no momento atual. Eleito governador de Minas, Tancredo foi procurado por um correligionário:

– Doutor Tancredo, todos os meus amigos estavam certos de que o senhor iria me chamar para secretário. Mas o senhor já divulgou a relação e o meu nome não consta. A situação está insustentável.

– Olha aqui, meu filho, faz o seguinte: pode falar para todo mundo que eu te convidei, mas que você não aceitou. Se precisar, eu confirmo.

Com o início da vacinação, os bolsonaristas não sabem o que fazer: ser ou não ser vacinado. Fica a dica do Tancredo: tome a vacina e diga que não tomou.

Para a PQP vá você, Bolsonaro

Este foi o título de uma matéria veiculada ontem pelo conservador jornal Estado de Minas. E o jornalista completou: “Para a puta que o pariu vá você, seu moleque de botequim, seu arruaceiro do baixo meretrício”. A destemperada (para dizer o mínimo) fala do Bolsonaro e a resposta uníssona dos profissionais da imprensa ao presidente boca-suja correu mundo. O presidente do Brasil, na última quarta-feira, disse o seguinte:

“Quando eu vejo a imprensa me atacar, dizendo que eu comprei 2,5 milhões de latas de leite condensado… Vai para a puta que pariu, porra! É pra enfiar no rabo de vocês, imprensa”. A seu lado, com aplauso e risada, o grotesco ministro das Relações Exteriores.

O boca-suja pode (ou deveria) pegar 30 anos de cadeia.

Dados copiados e remendados do texto de Reinaldo Azevedo sobre a petição de ex-procuradores acusando o Bolsonaro de incorrer no art. 267 do Código Penal e com uma pena de 30 anos de cadeia.

Se você – de esquerda, direita, livre-pensador ou tico-tico no fubá – fosse um procurador ou juiz honesto (ou seja, um juiz normal), você botaria em cana, no devido processo legal, um chefe de estado que, no meio duma baita crise sanitária com mais de 9 milhões de vítimas no país, 220 mil fatais (e subindo):

1 – discursasse reiteradamente contra a obrigatoriedade da vacinação e lançasse dúvidas sobre a sua eficácia e certezas sobre efeitos colaterais;

2 –  não adotasse as providências necessárias para a distribuição das vacinas pelo país;

3 – impusesse obstáculos à produção e aquisição de insumos, como agulhas e seringas;

4 –  deixasse de responder à oferta, em agosto, de uma empresa de vacinas (a pfizer), de aquisição de 70 milhões de doses do produto;

5 – declarasse reiteradamente, em suas redes sociais, que não iria adquirir a vacina fabricada pelo Butantan;

6 – desrespeitasse a recomendação da OMS, sobre necessidade de campanhas de esclarecimento da população a respeito da máxima  cobertura vacinal para controle da doença (nem vou falar aqui da negação da pandemia, e da incitação ao descumprimento do isolamento e do uso da máscara);

7 – fizesse apologia às drogas comprovadamente ineficazes ou prejudiciais aos pacientes de covid-19;

8 – promovesse a má utilização de recursos públicos na produção em larga escala dessas drogas, e pagando insumos com preços até três vezes superiores ao habitual;

9 – vetasse a lei de diretrizes orçamentárias de 2021, que impedia o  contingenciamento de despesas com a vacinação da população brasileira;

10 – prescrevesse, pessoalmente e oficialmente através do ministério da saúde. o “tratamento precoce” com as tais drogas ineficazes, mesmo diante da falta de oxigênio hospitalar no amazonas, e, como se não bastasse, tivesse aumentado o imposto sobre importação de cilindros dias antes do colapso no estado.

E ai? 

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CRÔNICA DE UM GENOCÍDIO ANUNCIADO

Frei Betto

       Tudo indica que o Brasil será o último país a ter a sua população imunizada contra a Covid-19 e, em breve, haverá de superar os EUA em número de mortos, devido ao descaso do governo Bolsonaro. Nesta terceira semana de janeiro, já temos mais de 213 mil vítimas fatais. A cada dia, mais de mil pessoas morrem contaminadas pelo coronavírus. 

       Bolsonaro sofre de tanatomania, tendência patológica de satisfação com a morte alheia. Agora a situação se agrava com a falta de oxigênio e leitos nos hospitais. Terrível paradoxo: falta oxigênio aos pacientes dos estados do Amazonas e do Pará, ambos na Amazônia, tida como pulmão do planeta. Muitos morrem por asfixia. E ironia do destino: Maduro, execrado pelo governo, reabastece o Amazonas de oxigênio.

       Todo esse quadro necrófilo resulta da inoperância de um presidente e de um governo genocidas. O Brasil tem Ministério da Saúde, mas não tem ministro. Desde a posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019, os dois médicos que ocuparam o cargo não permaneceram por não concordarem com a indiferença do presidente diante da pandemia e por ele recomendar recursos preventivos sem comprovação científica, como a cloroquina. O atual ministro, general Pazuello, não é médico, e pouco depois de ser empossado admitiu que, até então, desconhecia o SUS, Sistema Único de Saúde, que atende gratuitamente a população e é considerado exemplar. Agora, porém, o SUS está de mãos atadas por falta de vacinas e profissionais de saúde.

        No início da pandemia, enquanto o mundo se alarmava, Bolsonaro declarava que se tratava de uma “gripezinha”. Recusou-se a coordenar a mobilização dos brasileiros para evitar a disseminação da doença. E incentivou, com seu exemplo, as aglomerações, criticou o uso de máscara (chegou a proibir a entrada no palácio de quem estivesse de máscara) e desaconselhou medidas preventivas, como o isolamento, a lavagem cuidadosa das mãos e sua higienização frequente com álcool em gel. Foi preciso a Suprema Corte facultar a governadores e prefeitos o direito de desempenhar essa coordenação. 

       Como Bolsonaro saboreia o macabro cheiro da morte, jamais se preocupou com a vacinação do povo brasileiro.  Deu a entender que a Covid-19 mata preferencialmente os pobres (o que economizaria recursos das políticas sociais), os portadores de comorbidades e os idosos (o que reduziria o déficit do SUS e os gastos com a Previdência Social). Contudo, devido à pressão popular, o governo se viu obrigado a correr atrás das vacinas.

       As vacinas até agora disponíveis são produzidas em dois países, Índia e China, há meses destratados pela família Bolsonaro. O chanceler Ernesto Araújo, adepto do terraplanismo, declarou que a China havia produzido intencionalmente o “comunavírus”. Aliado aos países ricos, o Brasil se recusou a apoiar a proposta da Índia na OMC para quebrar a patente das vacinas. Em outubro de 2020, Bolsonaro assegurou: “Alerto que não compraremos vacina da China”. Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, em novembro, acusou o governo chinês de utilizar a tecnologia 5G para espionar.  

       As poucas vacinas que chegaram ao nosso país, menos de 10 milhões de doses para a população de 212 milhões, vieram da China e foram compradas pelo Instituto Butantan, renomada instituição científica de São Paulo. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do Rio, tenta comprar da China o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) sem que haja, até agora, confirmação de possibilidade de entrega. 

       É preciso que todos saibam do genocídio promovido pelo governo Bolsonaro. Mais de 50 pedidos de impeachment do presidente estão parados nas gavetas do Congresso Nacional. Vivemos, hoje, num país que não tem governo, não tem política de saúde, não tem suficientes vacinas, cilindros de oxigênio e leitos nos hospitais, não tem leis favoráveis ao lockdown e contrárias às aglomerações. Precisamos todos nos mobilizar para salvar o Brasil e os brasileiros.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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BRASIL x PORTUGAL: A VERDADE DOS DADOS

Carlos Vianna 

Como sou primo e amigo do Conde Arthur Vianna Neto perguntei-lhe se podia publicar no seu bloque, cheio de bons artigos e leituras, um material que venho preparando sobre dados comparativos entre Brasil e Portugal, onde vivo há 32 anos. 

Em muitos debates na Casa do Brasil de Lisboa, notei que a pouca informação, para não dizer ignorância, de muita gente sobre os dois países é muita. Assim pretendo fazer, se a minha preguiça não prevalecer, um apanhado comparativo de estatísticas a serem comentadas, para que possamos falar com mais propriedades sobre os principais indicadores sociais e econômicos dos dois países, ditos “irmãos”. Se conseguir, vou estender esta comparação ao campo da política e da organização dos 3 Poderes do Estado. E mostrar porque certas coisas aqui funcionam melhor que no Brasil. Porque aqui a democracia está alguns pontos acima da “democracia de baixa intensidade” praticada no Brasil. 

Talvez estes assuntos sejam um pouco chatos para um blogue, demasiado didáticos. Peço desculpas antecipadamente. Mas talvez poderá ser útil aos leitores, embrenhados quotidianamente na tentativa de entender as causas ou consequências da atual tragédia brasileira. 

NOTA INICIAL SOBRE FATORES DE CORREÇÃO DE INDICADORES EM MOEDA 

Em primeiro lugar cabe indicar que as fontes dos dados são do IBGE, para o Brasil e do PORTALDATA, para Portugal. Outras fontes são expressamente citadas em notas de rodapé. 

A população de Portugal em final de 2019 era de 10,28 milhões e a do Brasil de 210,1 milhões. Como 210,1 dividido por 10,28 são aproximadamente 10,4, usaremos este fator de correção para corrigirmos ou comentarmos alguns indicadores. 

A taxa de câmbio real X euro usada foi a indicada pelo Banco Central do Brasil para o dia 31/12/2019 (um real = 0,2207262 €). Os valores em reais obtidos nas diversas fontes foram convertidos com base neste dado. A taxa de câmbio dólar X euro, mesma data e fonte, é de 0,889680966 euro/dolar. Esta foi a taxa usada para converter indicadores dados em dólares para euros 

COMENTÁRIOS INICIAIS 

Os dados acima são uma primeira aproximação aos indicadores macro- econômicos dos dois países. Exceto num caso, os demais dizem respeito a 2019. Em economia é fundamental conhecer também as tendências dos dados em determinados períodos de anos. Tentaremos abordar períodos relacionados a mudanças políticas ou crises econômicas para vermos os dados em perspectiva. Os dados macro-econômicos de quase todos os países do mundo sofrerão mudanças bruscas neste ano de 2020 em função da pandemia. As quedas dos PIBs poderão chegar aos quinze por cento em 2020. Vamos nos ater à situação pré-pandemia. 

Para comparar PIBs entre países é preciso relacioná-los à sua população. Assim dividi o PIB brasileiro por 10,4 (ratio populacional) para compará-lo ao português. Vê-se então que Portugal produz mais bens e serviços que o Brasil, na razão de 137 para 100. Vale dizer que a produtividade de Portugal é 37% superior à do Brasil. A mesma relação, obviamente, se aplica à renda per capita, usando-se os valores informados pelos organismos oficiais e convertido os reais em euros, à taxa indicada acima. 

Mas o Banco Mundial e outros organismos “produziram” uma outra perspectiva de se comparar os diferentes PIBs/capita, tendo em conta uma fator comparador mais realista que a aplicação das taxas de câmbio: a Paridade de Poder de Compra. Isto por que se sabe que um mesmo dólar compra mais ou menos produtos ou serviços conforme o país em que se está. A Paridade de Poder de Compra deu origem a uma moeda teórica chamada dólar internacional, que torna mais comparáveis os valores de PIB per capita dos diversos países. A lista de PIBs per capita com base no dólar internacional data de 2014. Na Internet vê-se 3 listas, do Banco Mundial, do 

FMI e, curiosamente da CIA. Há pequenas diferenças entre elas.
Na lista do Banco Mundial o PIB per capita de Portugal, medido em dólar internacional, é 81% superior ao brasileiro, o que mostra a maior imprecisão quando se usa a taxa de câmbio real de um determinado dia. Outro conjunto de indicadores macro-econômicos essencial na comparação de países diz respeito ao endividamento público, a instabilidade ou estabilidade da moeda, refletida na flutuação cambial, a capacidade de endividamento externo do país e a taxa de juro dos títulos públicos emitidos no mercado externo conseguida por cada país.
Portugal está numa situação privilegiada em relação ao Brasil devido à força do Euro, uma moeda mais estável e protegida pelo conjunto dos países da zona euro e pelo poderoso Banco Central Europeu, que garante a estabilidade do sistema bancário através da compra agressiva de dívida pública e dos bancos. Desde 2016 a colocação de títulos da dívida pública 

portuguesa no mercado europeu vem caindo fortemente e no fim de 2019 a taxa média para 2019 era de apenas 1,1% e a do Brasil quase 8 vezes maior. Apesar da dívida pública brasileira ser menor relativamente ao PIB, a confiança em Portugal é maior, tendo em conta o contexto europeu. 

A consequência do exposto acima reflete-se na classificação de risco emitida por 4 agências principais de notação de risco atuantes no mundo ocidental. Escolhi a canadense DBRS por ser mais imparcial que as norte- americanas, na minha avaliação subjetiva e de alguns jornalistas. 

Oeiras , 6 de novembro de 2020 (dia da derrota de Trump) 

A CONTINUAR – COMENTÁRIOS SÃO BEM-VINDOS (viannapereirach@gmail.com) 

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A simplicidade dos invasores de corpos

Ilustração do filme “Invasores de corpos” (dir. Philip Kaufman, 1978)

                                          Nelson Vaz – Imunologista

Compartilho com todos a esperança de que as vacinas funcionem, mas não vejo essa solução com simplicidade. A atual pandemia foi prevista por vários cientistas que estudam vírus de animais silvestres que podem “transbordar” para os seres humanos, ocasionando as crises epidêmicas. Mas os vírus sempre estiveram em harmonia não só com animais silvestres, mas com tudo o que vive, incluindo as plantas, os animais domesticados e nós mesmos, seres humanos. A formação da placenta humana depende de genes de vírus que foram importados para o genoma humano. Os vírus são parte do viver de todos seres vivos, não são invasores inimigos. O novo coronavírus se tornou um perigo para nós e há perigos maiores no horizonte, mas essas são complicações que nós mesmos criamos. Pelo entendimento atual, as pandemias resultam da confluência de dois fatores gigantescamente complicados: a abundância de vírus na natureza e a explosão populacional humana.

Calcula-se que há entre 500 mil e 800 mil diferentes vírus em animais silvestres; não há como interferir nesse processo. Do nosso lado, a população humana, que levou 3 mil séculos para alcançar o primeiro bilhão de habitantes, ganhou no século seguinte mais 6 bilhões e meio, e vai chegar a 9 ou 12 bilhões até 2100. É importante descrever com (alguma) clareza esses problemas (quase) insolúveis para que o conhecimento científico não pareça cada vez mais reservado a uma elite que, afinal, não consegue resolver os problemas do povo e é cada vez mais desacreditada! Nesse caminho, acabaremos todos acreditando em soluções curtas, simples e erradas. Como a terra plana. Ou a especificidade da imunização.

Há um século e meio, acreditávamos que as doenças eram causadas por “miasmas”, coisas invisíveis, relacionadas a fedores e “maus ares” (“malárias”). Mas quando pensamos nas viroses como “invasões” de nosso corpo pensamos em algo muito parecido com “miasmas”. Em certo sentido, o vírus é isso mesmo: algo invisível que nos invade. Mas essa é uma daquelas soluções curtas, simples e erradas. Como surgiu essa virose? Como podemos nos proteger dela e de outras mais que — dizem os cientistas — poderão surgir e serem piores que essa? Queremos explicar o que se passa para poder intervir nesses acontecimentos. 

Para entender o entendimento da imunologia, preciso entender algo sobre a natureza do entendimento humano. Certas coisas ficam em “pontos cegos conceituais”, coisas que não vemos que não vemos; somos cegos a algumas de nossas cegueiras e um pequeno olho aberto nessa direção pode ser muito importante.

Quando o polimento de lentes tornou possível fabricar microscópios e telescópios, o que mudou não foi nossa capacidade de ver coisas muito pequenas ou ver muito longe: foi a realidade. Galileu disse isso mesmo; virou seu telescópio para os planetas e para a lua e disse: “O céu mudou!” — a Igreja não podia deixar esse homem livre. Que realidade é essa, então, que muda quando a gente põe lentes frente aos olhos? As explicações são também formas de relacionamento humano. Queremos explicar o que se passa. E o que se passa agora são coisas que interferem — gravemente — com o que consideramos real. Acabaram as torcidas de futebol e as olimpíadas., os concertos de rock! — talvez o Carnaval! E milhares de outros hábitos que considerávamos permanentes. Talvez tenhamos que explicar realidades, talvez haja mais de uma.

O problema das explicações é importante principalmente para a imunologia, porque a gente imagina que o corpo “sabe” que foi invadido por algo “estranho”, “mobiliza defesas”, se livra da doença com “anticorpos” e, ainda por cima, guarda uma “memória” desses eventos e fica “imune” a esse vírus, ou micróbio — e é exatamente isso o que queremos que uma vacina contra o coronavírus faça! 

Há 50 anos eu era um imunologista convencional, até bem sucedido. Tinha ido para Nova York e tinha tido sucesso em pesquisas sobre a genética das respostas imunes.  Uma conjunção de dois acontecimentos mudou meu modo de ver a imunologia e a própria natureza do viver. O segundo acontecimento foi encontrar um jovem neurobiólogo chileno que me fascinou com conversas parecidas com essa que descrevo acima, e eu nunca tinha escutado. Francisco Varela era budista e falava coisas incríveis sobre o cérebro humano, como podemos ver o mundo e falar sobre ele. E sem saber direito quem ele era, eu o convidei para o pequeno laboratório que eu chefiava, onde acabava de tropeçar no primeiro acontecimento que mudaria minha carreira desde então: nós constatáramos que um camundongo forma mil vezes menos anticorpos para um proteína se antes ele a ingerir com um alimento!

Vocês nunca ouviram falar nisso! Que os animais “travam” sua reatividade aos antígenos que contactam por via digestiva — um fenômeno conservador, sistêmico. Isso deveria estar na primeira página dos livros de imunologia, mas não está. Não está porque contradiz e complica enormemente coisas que já sabemos e o que queremos é discutir sobre agentes invasores, “mobilização de defesas”, “memória imunológica” e, claro, aplicar logo uma solução simples, fabricável, ou seja, a vacina. 

Quando um animal ingere novas proteínas em um alimento, linfócitos são mobilizados e adquirem novas relações com outros linfócitos; o intestino está cheio de linfócitos ativados. Isso resulta no recrutamento mais ou menos permanente de imunoglobulinas naturais que podem reagir em novos circuitos que incluem detalhes dessas proteínas. O problema da atividade imunológica não é distinguir entre o próprio corpo e um corpo estranho — self nonself —, mas manter níveis estáveis de atividade linfocitária. A fisiologia imunológica é conservadora. O problema é entender o que se conserva nessas mudanças.

Esse modo de ver é útil para entender mais rápida e claramente a imunidade anti-infecciosa, pois nenhum ser vivo está isento de contágio por incontáveis vírus e micróbios. Cerca de um terço de todos os seres vivos vive às custas (explora, parasita) outro ser vivo. A situação usual não pode ser bem descrita como uma batalha entre invasor e invadido, não é episódica, é processual, contínua, e seus elementos principais não estão entre os mortos e feridos, mas sim entre a enorme maioria de entes saudáveis. A fisiologia do organismo é a fisiologia de entes saudáveis. Já nos acostumamos aos métodos de amplificar DNA/RNA que nos mostraram que a microbiota nativa, com que cada um de nós convive harmonicamente em seu viver, é gigantesca e muito diversificada. 

As doenças são acidentes de percurso e não invasões malévolas vindas do desconhecido. Mesmo quando somos invadidos por vírus e micróbios recém-chegados, nossa microbiota nativa e os muitos vírus que já abrigamos participam do que acontece. Se tudo corre a contento, mantemos nosso equilíbrio.

Durante duas centenas de milhares de anos, os seres humanos, assim como as plantas e os animais ao seu redor, não sofriam de doenças infecciosas agudas, nem eram dizimados por epidemias. As doenças infecciosas agudas que, desde o Neolítico, afetaram plantas e animais não domesticados, ocorreram por intervenção direta ou indireta de seres humanos. Tudo o que os seres humanos fazem pode ser considerado “natural” assim como tudo que os pássaros fazem, mas as doenças infecciosas agudas não são fenômenos naturais nesse sentido: elas surgiram como acontecimentos recentes, são fenômenos históricos ligados à invenção da escrita, da escravidão e da agricultura de cereais em campo fixo, entre 12 e 5 mil anos atrás, e que possibilitaram o surgimento dos primeiros Estados. Mais que invasões inesperadas por vírus e micróbios desconhecidos, as doenças infecciosas agudas são fenômenos criados por um modo de viver humano, que não é nem permanente, nem o único possível, e não foi o modo de viver humano durante quase toda a sua existência no planeta.

Assim como o aquecimento global e a contaminação do mar e do ar por microplásticos, a covid-19 é uma criação do modo de viver cosmopolita e da exploração desregrada e aviltante do nosso entorno. Mas contra essa ameaça em particular — a pandemia —, existe a esperança de vacinas, e a imunologia tornou-se o assunto dominante na mídia. Contra o pandemônio que criamos, não há vacinas. O entendimento da imunologia que resulta da aceitação das doenças infecciosas agudas como criações humanas, não vê os anticorpos como antídotos específicos que o corpo fabrica em sua própria defesa. A defesa imunológica — a imunidade — é um resultado, uma consequência dos mecanismos do viver, que, claro, dado o nosso modo de viver atual, não dispensam a interferência da vacinação, mas inclui a adoção de outros modos de vida, como, aliás, vimos experimentando com algum sucesso nos últimos meses. Ou podemos continuar apostando todas as fichas nas soluções simples, acreditando que se pode reforçar uma “memória imunológica” com vacinas. Pois é. Só que não.

Belo Horizonte, 2 de dezembro de 2020

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Pedra na botina

Você já parou para pensar? Um presidente como Jair Bolsonaro, cuja total falta de empatia não sabemos se é uma questão psiquiátrica ou de caráter. No Ministério das  Relações Exteriores, um tipo como o tal do Ernesto Araújo, que envergonha a nossa nação aos quatro ventos. No Meio Ambiente, um ministro que é contra o meio ambiente, contra os povos indígenas e a favor dos grileiros e do garimpo ilegal. Mais de 3 mil militares no governo e vários generais. Um ministro da economia que até agora não apresentou um plano. Ou apresentou um a cada dois dias.

São tantas aberrações que, confesso, dá até revolta enumerar os absurdos dos feitos e o desatino das declarações do capitão e de seus capitaneados. Triste Brasil, diria hoje o nosso Drummond.

Felizmente, ainda temos jornalistas afiados que tentam, a duras penas e pouco apoio publicitário, revelar o Brasil real a seus leitores, ouvintes e espectadores. Não são muitos como o Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Revista Fórum e Intercept Brasil. E ainda alguns bons comunicadores espalhados web afora. Entre eles, o excelente Gregório Duvivier (Greg News).

Dos jornalistas mais seguidos do Brasil, cito o Reinaldo Azevedo. Nunca fui seu fã. Pelo contrário, eu tinha até uma certa birra de seus escritos. Como a metáfora que o  próprio Reinaldo gosta de usar, nós não frequentamos a mesma enfermaria. Socialista, eu não concordava, e não concordo, com o seu posicionamento liberal e sua costumaz crítica à esquerda. Nos últimos anos, no entanto, passei a acompanhar seus artigos na Folha e seu programa na Band. Ali e lá, encontrei muitas e boas qualidades. 

Lula. Desde a sua prisão, em 7 de abril de 2018, foram inúmeros os programas e artigos contra a ilegalidade cometida pelo ex-juiz Sérgio Moro contra Lula. Ultimamente, não passa uma semana sem o jornalista lembrar que o presidente Lula foi preso sem prova para não poder disputar, e provavelmente ganhar, a presidência da República. Agora mesmo, em fins de novembro, Reinaldo escreveu: “Ah, sim: se Cármen e Fachin me indicarem em quais páginas da sentença de Moro aparecem as provas contra Lula, eu as transcreverei aqui. Mas a dupla não tem como aceitar o desafio porque as provas não estão lá. Se é que eles a leram, claro… E o desafio se estende aos ministros do STJ e à trinca do TRF-4 que referendou a dita-cuja. Insisto: eu quero as provas, não um romance mal redigido em que as ilações são as protagonistas e os fatos os seus adversários. Advirto: se qualquer um desse grupo ousar chamar de prova o que quer que seja, eu o desmentirei com palavras do próprio Moro. Ou vocês não leram também a resposta que ele deu aos embargos de declaração?”

O racismo estrutural brasileiro é destacado e condenado pelo jornalista diuturnamente. Registrou e comentou as agressões (conhecidas) contra os negros e pobres. Apresentou as estatísticas que demonstram o tamanho do racismo no Brasil e criticou recentes falas do presidente e de seu vice. Para os dois, não há racismo no país. Ontem, fez uma homenagem a Gilberto Gil e Caetano com a música “Haiti” .

Trecho:

E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
E são quase todos pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados

Com relações às cotas sociais e raciais nas Universidades, o Reinaldo já falou diversas vezes que ele, inicialmente, era contra. Hoje, ele é totalmente a favor e explica que mudou porque as cotas comprovaram ser eficazes. Além da dívida histórica que o país tem com os negros, a cota veio minimizar as diferenças raciais e socioeconômicas que sempre existiram no Brasil.

Homofobia e movimento LGBT são temas recorrentes do jornalista. Recentemente, reprovou o ministro da Educação Milton Ribeiro pelo seu discurso homofóbico. São conhecidas as suas críticas aos reacionários, preconceituosos e fundamentalistas religiosos que querem sonegar direitos.

Um dos assuntos mais comentados pelo Reinaldo é a presença de militares no governo. Ele lembra que as Forças Armadas servem ao Estado e não a governos. Ele é radicalmente contra a participação de militares no governo Bolsonaro (mais de 3 mil), inclusive com generais da ativa. Segundo o jornalista, a História irá debitar às Forças Armadas os graves desacertos do governo Bolsonaro. Outra crítica é a presença de policiais militares nas empresas de vigilância e segurança particulares. Vide o exemplo recente no Carrefour.

O seu programa diário de uma hora na Band Rádio, transmitido pelo Youtube, “O É da Coisa” recebe centenas de milhares de ouvintes e espectadores. Na semana passada, um deles chegou a ser ouvido/visto por 500 mil pessoas.

Não dá para falar de todos os muitos assuntos abordados pelo jornalista. Durante a pandemia (que continua), ele faz a defesa da ciência, do distanciamento social, do uso da máscara e das vacinas (todas elas). E sempre responsabiliza o governo pela péssima gestão na pandemia, na economia, nos incêndios florestais, no desmatamento e no combate ao garimpo ilegal. 

Como jornalista atento, um dos assuntos mais abordados pelo Reinaldo Azevedo é o Bolsonaro e seu governo. Todos os dias, a cobertura dos mal feitos, das omissões e das falas grotescas de um presidente caricato.

O Sérgio Moro é figurinha fácil nas páginas e falas de Reinaldo Azevedo. Além de relatar os crimes cometidos por Moro, tanto como juiz em Curitiba como ministro em Brasília, o jornalista abriu espaço para reproduzir as acusações divulgadas pelo Intercept Brasil sobre os desmandos e conluios da Lava Jato.  

Por falar na sinistra figura, o ex-juiz e ex-ministro do Bolsonaro trabalha agora, como advogado, na defesa de um empresário investigado por suspeitas de corromper governantes, lavar dinheiro, sonegar impostos e violar direitos humanos e leis ambientais e que já foi preso a mando das autoridades suíças e israelitas. O nome do novo patrão de Sérgio Moro é Benjamim “Beny” Steinmetz, um bilionário da mineração e alvo da justiça na Suíça, nos EUA e em Serra Leoa.

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o inferno: fora daqui

todo ano, queimam-se no japão os bonecos do daruma, tenha ele atendido ou não as preces de seu dono.

beto vianna

pois é, racismo é estrutural, e cobra sua parte no comportamento de todos nós, em especial dos brancos, pessoalmente beneficiados por não arcar com todas as suas consequências. ainda assim, vivemos um momento em que o recurso ao racismo explícito, dito pública e impunemente, inclusive por agentes públicos e celebridades, aprofunda o problema, pela via da naturalização, e dificulta as ações institucionais e as políticas públicas pro seu combate.

a expressão pública do racismo, mal disfarçada pelo tom jocoso e travestida de liberdade de expressão, não é condenada com a mesma intensidade pelo grosso da grande mídia, recebe o apoio de parte da população, e motiva a escalada da violência contra os pretos, como se essa já não fosse insuportável, e minimiza ou ressignifica suas consequências (como na recente declaração da delegada sobre o caso do preto assassinado por seguranças do carrefour). o problema se estende a outras populações minorizadas nas relações sociais e econômicas, como índios, mulheres, bichas, transgêneros, imigrantes e deficientes, em que o fator classe é muita coisa, mas não é tudo (se meu tom tá didático, já peço desculpas, quero ou desabafar ou conversar, não ensinar).

é um problema continuado, sempre político, a ser tratado politicamente, mas, atualmente, também uma questão ideológica (que implica, em qualquer espectro político, o adesismo convicto, resistente à prática da conversa), graças ao renascimento da extrema direita e sua personificação na figura do presidente, eleito democraticamente pela maioria da população brasileira (ignorar essa última parte é negar a parte – talvez a pior – do problema), que nunca escondeu suas posições preconceituosas, ao contrário, aumenta seu cacife político graças à sua exposição constante. ainda hoje, e apesar das pinceladas de diversidade das últimas eleições municipais.

tudo isso é muito óbvio, mas darcy já alertou que é o óbvio o que mais nos devia assombrar. todas as frases abaixo foram ditas publicamente pelo presidente da república do brasil. não precisam de contexto. o conjunto das frases é o contexto.

“olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. não fazem nada. acho que nem pra procriador serve mais”.

“falei realmente, né, aquele negócio lá do… ‘ô hélio, tudo bem, hélio? tranquilo aí? você pesa quantos arrobas, hélio?’ (dirigindo-se ao deputado hélio lopes, psl-rj)

“meu irmão que demorou para nascer (…)deu uma queimadinha no hélio aí. senão, ele seria a minha cara” (em referência ao deputado hélio lopes, psl-rj)

“índio tá evoluindo, cada vez é mais ser humano igual a nós”

“não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu“ (respondendo à pergunta de preta gil, sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma negra)

“prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”

“só não te estupro porque você não merece” (dirigindo-se à deputada maria do rosário, pt-rs)

“as minorias devem se curvar às maiorias ou serão esmagadas”

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Jus esperneandi*

Rei morto, rei posto.

No poderoso país localizado acima do Rio Grande, lá está um presidente derrotado nas últimas eleições fazendo birra. Mesmo sabendo que no dia 20 de janeiro próximo terá de cair fora da Casa Branca, o histriônico Trump continua soltando traques e demitindo quem se opõe à sua permanência. Como outro presidente que conhecemos bem, também portador de graves transtornos de personalidade e de caráter, Trump poderá ser indiciado e preso logo após perder seu mandato. São inúmeras as acusações, que vão desde abuso de poder até calote na Receita. A imprensa dos EUA descobriu que ele não pagou o imposto de renda em 10 dos últimos 15 anos. Embora tenha uma fortuna calculada em mais de US$ 4 bilhões, ele só pagou 750 dólares no ano em que concorreu para presidente. Vale lembrar que Al Capone, também nascido em Nova Iorque, só foi preso quando deixou de pagar o imposto de renda.

Com a derrota de Trump nos EUA, o meme mais divulgado nas redes sociais do Brasil não poderia ser outro: Donald já foi, agora só falta tirar o Pateta.

O amor de Bolsonaro pelo Trump é explícito. Ao encontrar seu ídolo nas Nações Unidas, o capitão não segurou e soltou um I love you. E nem ficou magoado quando o presidente dos EUA respondeu: “Bom te ver de novo”. No ano passado, Bolsonaro decidiu indicar seu filho (um dos zeros à esquerda) para embaixador do Brasil nos EUA. A justificativa (além do filho saber fritar hambúrguer) seria a afinidade do filhote com a família Trump. A pretensão era tão absurda que Bolsonaro acabou não indicando ninguém. O novo embaixador só foi aprovado pelo Senado há dois meses.

Ao contrário do Bolsonaro, que não entende a pressa das pessoas por uma vacina, Trump contava iniciar a distribuição da vacina antes das eleições. Uma espécie de fake news para conquistar votos. Mas os dois encorajaram as manifestações contra o distanciamento social e, tanto Trump como Bolsonaro, criticaram os governadores que aderiram às recomendações da Organização Mundial de Saúde. Em julho, o governo dos EUA rompeu suas relações com a OMS. Pau mandado, Bolsonaro declarou na época: “E adianto aqui, os Estados Unidos saíram da OMS, e a gente estuda, no futuro, ou a OMS trabalha sem viés ideológico, ou vamos estar fora também. Não precisamos de ninguém de lá de fora para dar palpite na saúde aqui dentro”.

Há pouco menos de um mês, ao falar para os alunos do Colégio Rio Branco (Itamarati), o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, declarou: “Se falar em liberdade nos faz um pária internacional, que sejamos um pária”. Infelizmente, mercê das políticas ditadas por pessoas como Bolsonaro e seus ministros, o Brasil já está sendo considerado um pária no concerto das nações. Em menos de dois anos, perdemos o que conquistamos desde a transição para a democracia. Mesmo com todo o nosso potencial e riqueza, somos hoje considerados uma nação de terceira na diplomacia internacional. Bolsonaro e Ernesto Araújo já atacaram a Argentina (maior comprador de produtos manufaturados brasileiros), China (maior importador do Brasil), os EUA de Joe Biden (segundo maior importador do país) e diversos países da União Europeia, como Alemanha e França (que estão entre os dez mais importantes parceiros comerciais).

Na última terça-feira, durante a abertura da Cúpula de Líderes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), Bolsonaro fez um ataque direto aos países europeus. Sem citar nome, ele declarou que irá divulgar uma lista de países que importam madeira ilegal do Brasil e que são os países que mais criticam a política do Brasil na Amazônia.

Duas questões que, por ignorância, escapam ao presidente: o Brasil é que deveria ter um órgão para controlar o desmatamento e a venda de madeira ilegal e, segundo, não são os países que importam. Empresas importam madeira, seja legal ou não.

Finalmente, mais um registro da citada reunião do Brics. No encerramento da cúpula, o presidente da Rússia teceu loas ao colega do Brasil. Vladimir Putin considerou Bolsonaro “um exemplo” por sua gestão na pandemia do coronavírus e exaltou suas “qualidades masculinas”. Para nós, brasileiros, Bolsonaro foi um aliado da Covid-19, com uma atuação criminosa, negacionista, caótica e irresponsável. Com relação às suas qualidades “masculinas”, teríamos de perguntar ao dirigente russo quais foram.

* a expressão, embora pareça, não existe em latim e significa o direito de espernear e reclamar.

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É preciso ser muito imbecil para ser contra uma vacina. Qualquer uma

O presidente Bolsonaro, discursando sobre o turismo no Brasil, comemorou a suspensão, pela Anvisa, dos testes da vacina Coronavac. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária suspendeu os testes pela ocorrência de um “evento adverso grave” envolvendo um voluntário. Já sabemos que o “evento” não tem nada a ver com a vacina: o rapaz teria se suicidado. Hoje, o Supremo Tribunal Federal solicitou informações da Anvisa sobre a suspensão.

O mais absurdo é o Bolsonaro tratar a vacina como um jogo político. Ele finge torcer pela vacina de Oxford. Digo finge, porque, na verdade, ele é contra a vacina, qualquer delas. E como o governador de São Paulo, possível concorrente do Bolsonaro em 2022, fez um acordo com uma vacina desenvolvida pelo Butantan e um laboratório chinês, ele é contra o Dória e, pela sua lógica burra, a vacina. No mês passado, ele declarou que não entende a pressa que as pessoas estão para vacinar. Ao torcer contra uma vacina, seja ela dos EUA, chinesa ou norte-coreana, ele torce contra a vida dos brasileiros. Contra a nossa vida.

No discurso citado, além das bobagens sobre vacinas, inclusive mentiras que podem motivar processos, Bolsonaro, entusiasmado com a plateia de encomenda, chegou a ameaçar guerra aos EUA. Ao citar recentes declarações do presidente eleito Joe Biden sobre a Amazônia, ele emendou: “Apenas diplomacia não dá, tem que ter pólvora”. Um jornalista lembrou que, como a Coronavac, a pólvora é também uma invenção chinesa.

O Bolsonaro tem a maior deformação do ser humano, que é a total falta de empatia. Os médicos ainda não chegaram a uma conclusão se a falta de empatia é uma questão psiquiátrica ou de caráter. Já tratamos deste assunto aqui no blogue, mas não custa insistir.

A suspeita é que a Anvisa, dirigida por um militar, estaria servindo aos interesses eleitorais do Bolsonaro. Penso que o imbróglio provocado deve ser contornado nos próximos dias, já que a pretensa atitude técnica da Agência não se sustenta. 

E, por falar no dirigente da Anvisa, o contra-almirante Antônio Barra Torres, eu não resisto: também sou contra almirante, general, coronel, major, capitão e assemelhados no governo. As Forças Armadas, como determina a Constituição, devem servir ao Estado e não a um governo.

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Os barcos

Barco de Imigrantes, de Lasar Segall

Os barcos, por Carlos Vianna

(uma ficção política em 23 idiomas oficiais) 

O autor, brasileiro, vive há 32 anos em Portugal, é co-fundador e ex-presidente da Casa do Brasil de Lisboa e representante da comunidade brasileira no CM – Conselho de Migrações. 

Para ler ou baixar, clique no quadro

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A língua nos escritos do Carlos, do Caetano e do Beto

Outro dia coloquei à disposição dos leitores do Blog do Conde uma novela policial de autoria de um brasileiro, Carlos Vianna, que vive a 32 anos em Lisboa. A obra é excepcional e merece a nossa leitura atenta. Tanto pela bem elaborada trama como pelas denúncias do trabalho escravo nas colheitas agrícolas. Em sua obra, Carlos utiliza expressões do português falado em Portugal.

Foi aí que lembrei de uma música que está no disco “Velô”, de 1984. A canção chama-se “Língua”, letra do Caetano Veloso e música de Gilberto Gil. Para mim, é uma das mais importantes obras de Caetano, tendo sido tema de inúmeros estudos linguísticos, mestrados e doutorados.

Pedi ao Beto Vianna, meu filho e linguista, para escrever algumas linhas sobre a letra do grande músico baiano. Assim, logo após apreciarmos a língua do Caetano, segue o comentário enviado pelo Beto.

Língua

Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões 
Gosto de ser e de estar 
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias 
E uma profusão de paródias 
Que encurtem dores 
E furtem cores como camaleões 
Gosto do Pessoa na pessoa 
Da rosa no Rosa 
E sei que a poesia está para a prosa 
Assim como o amor está para a amizade 
E quem há de negar que esta lhe é superior? 
E deixe os Portugais morrerem à míngua 
Minha pátria é minha língua 
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó 
O que quer 
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas 
E o falso inglês relax dos surfistas 
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda 
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate 
E (xeque-mate) explique-nos Luanda 
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo 
Sejamos o lobo do lobo do homem 
Lobo do lobo do lobo do homem 
Adoro nomes 
Nomes em ã 
De coisas como rã e ímã 
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã 
Nomes de nomes 
Como Scarlet, Moon, de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé 
E Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó 
O que quer 
O que pode esta língua?

Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção 
Está provado que só é possível filosofar em alemão 
Blitz quer dizer corisco 
Hollywood quer dizer Azevedo 
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo 
A língua é minha pátria 
E eu não tenho pátria, tenho mátria 
E quero frátria 
Poesia concreta, prosa caótica 
Ótica futura 
Samba-rap, chic-left com banana

(Será que ele está no Pão de Açúcar? 
Tá craude brô 
Você e tu 
Lhe amo 
Qué queu te faço, nego? 
Bote ligeiro! 
Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado! 
Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho! 
I like to spend some time in Mozambique 
Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros 
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem 
Livros, discos, vídeos à mancheia 
E deixa que digam, que pensem, que falem

—–

“Língua” não fala sobre língua 

Beto Vianna

Linguista – Universidade Federal de Sergipe 

Há duas canções do Caê que bem ou mal tratam da língua (ou das línguas, ou das falas, ou das escutas, como a querer desaussuriar e deschomskiar o objeto), em especial a de lustre lusitano: uma é “Quereres”, e a outra, “A outra banda da terra”. Na primeira, Caetano malabariza com o infinitivo pessoal plural em particular, e, em geral, com o esquizofrênico entrelaçamento entre os nossos dizeres e os desejos do outro: um double bind, para usar o conceito do cientista-poeta Gregory Bateson (1979). Na segunda canção, o compositor-soteropolitano (cosmopolitano, então) capricha no erre retroflexo do Brasil profundo caipira para, nessa fonética, congregar Cantuária, Holanda, Canadá e Maputo em “nossa banda da terra”, ou seja, o “Brasil, tá que o pariu”. Sendo eu mesmo linguista por profissão, gostava mais de falar sobre essas duas linguajeiras canções de Caê, mas a missão que me é dada aqui é discorrer sobre outra obra do mesmo cantautor, intitulada (desajeitadamente, a meu ver) “Língua”. 

“Língua”, argumento eu, nada tem a ver com língua, no sentido ou referência (Frege, 1892) filológicos do termo. Pois cientificamente, ou, como se dizia em antanho, filosoficamente, não se pode analisar um objeto usando, como objeto de análise, o próprio objeto. Há de se guardar distância pra se ser objetivo. E a poesia de Caetano, talvez como toda poesia, ou como todo Caetano, recusa-se a tomar distância pra chutar a bola da língua. Vamos a um exemplo, para facilitar essa conversa, que já vai ficando demasiado hermética. Se seguirmos os preceitos da própria letra de “Língua” para traduzir, em filosofês, o que se fala da língua, diríamos que das Lied beginnt mit dem Wort “Geschmack” (“Gosto”), Sprache als Zunge, eher ein Teil des Körpers als ein sprachliches Objekt und enthüllt die wahren körperlichen Absichten eines sinnlichistischen Caetano!

De todo modo, sempre se pode achar algo no universo das criações artísticas que interesse a nós, estudiosos dessa superior capacidade humana, que é a fofoca. Em „Língua“, encontramos a alusão caetânica a uma hipótese científica sobre nossas hipóteses ocidentais acerca da comunicação humana, conhecida como „metáfora do tubo“, ou, no original, the conduit metaphor (Reddy, 1979). Segundo a crítica do linguista Michael Reddy, costumamos atribuir à linguagem o poder místico de transmitir ideias de uma cabeça a outra por um canal sonoro (ou gestual, como fazem nosses brothers & sisters surdes), daí a noção de „tubo“. Parece até conversa sobre telepatia ou viagem extrasensorial, e é. Em „Língua“, Caetano refere-se a essa noção terraplanista da língua (vigente nos melhores salões científicos) com o imperativo fático: „Fala, mangueira!“, seguido de um grito primal entoado por Elza Soares. Outro fenômeno residualmente afim aos estudos linguísticos em „Língua“ é a referência a Arrigo Barnabé (talvez não no estudo dos elementos segmentais da fala, mas como uma bioacústica da vanguarda paulista). Com essa, despeço-me caetano e cantando e seguindo ao final da análise da canção.

Aracaju, 5 de novembro de 2020

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Exemplos a seguir e a evitar

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

Por mau exemplo e destempero, deixo apenas o codinome: Chihuahua do Trump. Estamos prestes a conhecer o novo presidente dos EUA. Se repetir a dose (cavalar), o hóspede do planalto continuará o cachorrinho “papai mandou” de sempre. Se vencer, como espero, o mais ou menos democrata, ele se travesti naquele cachorro que corre atrás do caminhão de mudança. Para nosso desalento, o retrato do futuro ficou na fala, ontem (2/11), do presidente da Câmara Rodrigo Maia: “Estamos caminhando a passos largos para o precipício”. 

No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau anunciou que seu governo já assinou contratos com diversos laboratórios para a compra de 358 milhões de doses. Entre os laboratórios, a compra de 76 milhões de doses do canadense Medicago, de Quebec. Vale lembrar que a população do Canadá é de 38 milhões de pessoas. Segundo Trudeau, “a grande quantidade é uma apólice de seguro caso algumas das vacinas em desenvolvimento se mostrem ineficazes em testes clínicos”. Para financiar pesquisas médicas e ajudar a desenvolver e comprar mais vacinas, o governo destinou um adicional de US$ 5,4 bilhões (cerca de 30 bilhões de reais) para a Agência de Saúde Pública do Canadá.

Com uma população estimada em 211 milhões, o Brasil tem, segundo informa o Ministério da Saúde, contratos para a compra de 140 milhões de doses da vacina contra o coronavírus. O maior contrato (100 milhões de doses) é com a vacina de Oxford, cuja imunização será feita com duas doses por pessoa.

O grande exemplo, no entanto, vem de um país insular da Oceania, localizado no sudoeste do Oceano Pacífico e distante 4 mil Km da Austrália. Com uma população de pouco menos de 5 milhões de habitantes, a Nova Zelândia está entre os 10 países mais procurados pelos jovens brasileiros para intercâmbio estudantil. A hospitalidade e as políticas governamentais que incentivam o trabalho estrangeiro estão, ao lado de sua beleza natural, entre os principais atrativos para os intercambistas. 

Durante a pandemia, a Nova Zelândia mostrou ao mundo ser possível controlar a infecção pela covid-19. Com medidas duras, como o confinamento (lockdown) e o fechamento das fronteiras, o governo conseguiu manter o coronavírus em seus níveis mais baixos. Quando em agosto surgiram 4 casos em Auckland, após 102 dias sem qualquer manifestação da doença no país, foi novamente decretado um lockdown de 3 dias na cidade. Hoje, oito meses após o primeiro caso, a Nova Zelândia contabiliza 1.968 infectados, 1.868 recuperados e 25 mortes. 

O mérito do trabalho desenvolvido pelo governo neozelandês durante a pandemia deve-se a uma jovem de 40 anos, a primeira-ministra Jacinda Ardern. Ela acaba de ser reeleita pelo Partido Trabalhista para mais um mandato como chefe de governo. No combate ao coronavírus, ela priorizou a vida e a ciência. Como escreveu o colunista Jamil Chade: “A eleição de Jacinda é a derrota do ódio como política. Sua campanha é tão urgente como universal: o ódio precisa ser combatido e apenas o diálogo e a aceitação da diversidade podem trazer a paz social. Tão óbvio quando revolucionário, seu programa é uma antítese de tudo o que governos populistas, como o de Jair Bolsonaro, representam”. 

Nanaia Mahuta, ministra de Relações Exteriores da Nova Zelândia

Ao assumir o seu novo mandato, Jacinda Ardern nomeou Nanaia Mahuta como ministra de Relações Exteriores. Nanaia, membro do Parlamento desde 2008, pertence ao povo indígena Maori e é a primeira mulher no governo a usar o “moko kauae”, a tradicional tatuagem no queixo. Com as eleições, o novo parlamento neozelandês se tornou um dos mais diversos do mundo, sendo composto metade por mulheres e cerca de 10% dos parlamentares LGBTQ.

Ao comentar com a minha irmã sobre o trabalho desenvolvido pela primeira-ministra Jacinda Ardern, a Marcinha comentou que a cidade mineira de São Thomé das Letras não registrou, até agora, nenhum caso de infecção pela Covid-19. De fato, com cerca de 8 mil habitantes, São Thomé está entre as 10 cidades (dos 853 municípios mineiros) que não receberam a indesejada visita da doença. Em todo o Estado de Minas Gerais, somamos hoje 359.991 infectados e 9.015 mortes.

Mesmo sendo uma cidade turística, a prefeitura de São Thomé das Letras apostou na ciência e teve a coragem de isolar a cidade e proibir a entrada de visitantes desde o início da pandemia. Hoje, para um turista passar pelo município tem de preencher um formulário solicitando autorização com, no mínimo, 48h de antecedência.

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