As forças amadas

Eu não poderia deixar passar o mês de abril sem fazer uma referência à Revolução dos Cravos. Dia 25 de abril de 1974. Eu estava lá com a Clarinha e o Beto. Ter vivido aqueles dias em Lisboa é pra não esquecer jamais. E nem eu quero deixar de recordar. Foi uma experiência cognitiva rara. Uma coisa é tomar conhecimento do fato pelos compêndios da história. Outra, é testemunhar e participar dos acontecimentos.

Há 46 anos, um movimento militar com apoio popular derrubou a ditadura do Estado Novo e criou as condições para o restabelecimento da democracia em Portugal. Para a população, o Movimento das Forças Armadas, naquela madrugada do dia 25 de abril, foi uma surpresa. Mas era o resultado de nove meses de intensa movimentação e preparação. A senha para o início das operações foi uma música de Zeca Afonso, Grândola Vila Morena. Proibida pela ditadura de Marcelo Caetano, ela foi tocada pela rádio Renascença na madrugada de 25 de abril. E assim nasceu a Revolução dos Cravos, que devolveu ao povo a democracia após 48 anos de ditadura militar e civil. 

Peço vênia aos leitores para recordar um pouco da minha passagem por este país que tanto amo. Viver em Portugal neste período foi muito especial, repito. Em Lisboa, tive a oportunidade de exercer inúmeras atividades. Na imprensa, assinei coluna em jornal (O negócio é Brasil) e tive um programa de rádio (O livro e seus autores). E ainda, ao lado do poeta Thiago de Mello, participei do lançamento da edição portuguesa da revista Tercer Mundo (publicação mexicana dirigida pelo jornalista brasileiro Neiva Moreira). Como trabalhador, fui eleito delegado intersindical (representando 8 sindicatos) e presidente da Comissão de Trabalhadores da empresa onde exercia a função de redator publicitário. Tudo isto, sem contar as muitas amizades que fiz e mantenho.

Em minha mala da vida, tenho inúmeras recordações da época. Entre fotos e recortes, encontro desenhos do meu filho, então com 4 anos, com cenas do primeiro 1º de Maio após a Revolução. E também um exemplar do Diário Popular do dia 25 de abril de 1974.

Se no Brasil, as armas e o arbítrio instalaram uma ditadura militar no 1º de abril de 1964, dez anos depois assistimos, em Portugal, o poder ser devolvido ao povo pela ação dos integrantes de suas forças amadas.

Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E inda guardo, renitente / Um velho cravo para mim (Tanto Mar, Chico Buarque)

Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

4 comentários em “As forças amadas

  1. Boa tarde, Arthur. Primeiramente meu abraço e os parabéns pelo blog. Você mencionou uma coisa importante: viver, presenciar a História é algo que vai muito além dos fatos frios relatados nos livros acadêmicos. E como isso
    nos emociona. Portugal está sendo uma lição para nós brasileiros. Também tenho admiração enorme pelo país e seu povo.

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  2. Nesse dia eu estava no México com Francisco Julião, tentando entender o golpe em Portugal, e ele me dizia que devíamos apoiar, pois era um movimento de esquerda que poderia trazer de volta a vida democrática em Portugal, o inverso do golpe no Brasil em 1964. Tá aí a história que deu razão ao amigo Julião, com quem convivemos muito os brasileiros exilados no México. Que vivam os cravos!

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