A propósito das filas ou, de propósito, as filas

Foto: Divulgação Procon/AM

Antes de entrar na fila, uma pergunta que me acompanha há muito tempo. Por que os serviços público para os mais pobres sempre são os piores? Exemplos não faltam. O transporte coletivo que serve a periferia é de pior qualidade, com veículos sujos, mais velhos. E os poucos abrigos de ônibus estão sempre precisando reparos, que nunca chegam. As ruas nos bairros populares são abandonadas, muitas sem calçamento. As instalações das filiais de supermercados não merecem a mesma atenção daquelas localizadas em bairros da classe A e B. As comunidades mais carentes recebem menos benefícios, como água, luz e esgoto. E o poder público só aparece quando líderes comunitários reclamam e chamam a imprensa para denunciar o descaso. Não preciso desenhar, basta assistir ao telejornal local de hoje.

Quando fui vereador em Belo Horizonte, estive certa feita na Cemig para atender a um pedido de eleitor. Sua rua não tinha iluminação pública. Fui falar com o diretor de Distribuição, meu conhecido. Expliquei a situação e o receio dos moradores com a falta de luz na rua. Ele, o diretor da Cemig, sabia que meu trabalho, mesmo tendo sido eleito pela classe média, era junto às populações mais carentes. O executivo pegou uma pasta e mostrou a quantidade de pedidos. Sinto muito, vereador, mas seu pedido vai ter de entrar na fila, disse ele. Depois de desfilar uma série de argumentos, e sempre sendo contestado pelas dificuldades técnicas em atender às inúmeras solicitações, senti que que tinha de revelar quem havia pedido a iluminação. No caso, o meu eleitor era dono de uma das maiores construtoras do Brasil. Ao ouvir o nome do empresário, o diretor da Cemig pediu para eu deixar o pedido com ele. Você já sabe o resultado, né? Menos de um mês depois, a rua do bairro Gutierrez já contava com a sua iluminação pública.

Temos testemunhado o que anda acontecendo com o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600. Um absurdo. Milhares de pessoas, uma ao lado da outra em plena pandemia e isolamento social. O presidente da Caixa afirmou que as filas “são inevitáveis, não há nenhuma possibilidade de se pagar 50 milhões de pessoas e não existir fila”. Será que não? Não poderia aplicar um outro plano, mais humano e menos criminoso do que juntar milhares de pessoas? A única solução (?) encontrada pela Caixa foi abrir suas agências duas horas antes. E as filas, diminuíram? Claro que não.

A Caixa Econômica Federal tem em torno de 3.500 agências em todo o Brasil. Como ela faz parte do sistema único de compensação bancária, o auxílio emergencial poderia ser feito através de todas as agências de todos os bancos. Somados, os quatro maiores bancos do país (BB, Bradesco, Itaú e Santander) possuem cerca de 16.000 agências. Impossível? Problemas técnicos? É só ter vontade política. Nos EUA, o que eles fizeram para pagar milhões de cidadãos? Enviaram cheques. E nada de fila. O que não podemos é aumentar ainda mais o número de infectados e de mortos. Caso contrário, a Caixa Econômica Federal vai ter de colocar em seu passivo milhares de mortes. Ou alguém duvida que o coronavírus está circulando pelas filas. E, mais grave, quem são os brasileiros que estão na fila? Exatamente aqueles que mais necessitam da proteção do Estado.

Ainda sobre o auxílio emergencial. Você, leitor, já preencheu cadastro ou outro requerimento pelo celular? Eu já e tive a maior dificuldade. Colocar os dados nos pequenos espaços, ter cuidado para não errar ou desconectar. Enfim, não é fácil. Agora, imagine fazer o mesmo procedimento em um celular mais modesto e com uma conexão de baixa qualidade. É o que tem acontecido com milhões de brasileiros. O anúncio do governo, para a população mais carente utilizar a internet e não entrar na fila para informações é, no mínimo, maldoso. A maioria não tem computador em casa e muitos têm dificuldades tanto com a tecnologia como de letramento. No celular é mais difícil ainda. Em nosso país, 71 milhões de brasileiros acessam a internet somente pelo celular. E as redes para as contas dos pré pago têm problemas de sinal. Pega aqui, não pega ali. Como você, eu também assisti às entrevistas. Muita dificuldade, tanto no acesso como na própria utilização do celular.

Parece até que os nossos governantes vivem em outro país. Ou outro planeta.

Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

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