A História não perdoa. Mas ensina.

Todo e qualquer movimento dos nossos governantes durante a pandemia que estamos vivendo será motivo de estudos, pesquisas e registros nos livros de História. Seus discursos, suas ações e omissões estão gravados, anotados e na memória de muitos. Hoje, com a tecnologia que temos, não escapa nada. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, há 230 milhões de celulares ativos no país. Ou seja, raro aquele que não tem uma câmera e um gravador a tiracolo.

Em 10 de março passado, o Brasil contava com 34 infectados pelo coronavírus e nenhuma morte. O atual ocupante do Palácio do Planalto declarou: “o momento é uma pequena crise, a questão do coronavírus é muito mais fantasia”. No dia 12 de maio, contávamos com 177.589 pessoas infectadas e 12.400 mortos. Mesmo assim, o presidente da República declarou: “O povo tem de voltar a trabalhar. Quem não quiser trabalhar, que fique em casa, porra. Ponto final”.

Não vou aqui relatar a situação do nosso país face à pandemia. Todos estamos acompanhando – uns mais, outros menos – do que anda ocorrendo nas filas, nos hospitais, nos cemitérios. Da mesma forma, não é necessário lembrar que a doença ainda não tem remédio e muito menos vacina. Uma das estratégias tem sido implantar algum tipo de isolamento social para, segundo os especialistas, provocar a diminuição do contágio e, como seu maior benefício, não aumentar a procura por leitos e CTIs nos hospitais. Em boa parte do Brasil, os hospitais estão com quase todos os seus leitos ocupados. Como sabemos, além da pandemia pelo coronavírus, existem inúmeras outras doenças que necessitam de cuidados hospitalares e tratamentos intensivos.

Já que o tema é a História, vamos voltar aos tempos da gripe “espanhola”. O espanhola está entre aspas porque o primeiro caso da epidemia foi detectado, não na Espanha, mas em um quartel de Kansas, nos EUA. Aliás, a Organização Mundial de Saúde recomenda que as novas doenças não façam referências a lugares, animais ou pessoas para evitar o preconceito e a estigmatização.

Crédito: as informações sobre a pandemia de 1918 foram colhidas, em boa parte, do trabalho de pesquisa desenvolvido pela professora Heloisa Starling, historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais. O trabalho me foi enviado pela minha prima e amiga Lila Menin.

Entre 1918 e 1920, um quarto da população do mundo foi infectada por uma pandemia que matou entre 30 a 50 milhões de pessoas. Os países que mais sofreram foram a Índia, com cerca de 17 milhões de mortos, a China com 5 milhões e o Irã com 2 milhões. Na Europa, alguns exemplos: 400 mil mortos na Alemanha, 120 mil em Portugal e 250 mil no Reino Unido. Nos EUA, morreram entre 500 mil a 675 mil pessoas. 

O número de óbitos poderia ter sido muito menor se os governantes não tivessem ignorado uma recomendação de Arthur Newsholme, um dos maiores especialistas do mundo em saúde pública. Em artigo publicado, ele aconselhava as pessoas a ficar em casa e a evitar grandes reuniões.

O vírus chegou ao Brasil a bordo de um navio vindo da Europa, que fez escalas em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Assim como algumas autoridades do Brasil atual, a doença foi minimizada, sendo considerada apenas mais uma gripe. No entanto, vários países já contabilizavam milhares de mortos. Um jornal da época publicou: “A epidemia de gripe espanhola, apesar de grande número de doentes, se tem revelado muito benigna. Os casos de óbito são devidos a complicações, E tem se verificado que complicações só aparecem nos indivíduos depauperados”. 

O diretor nacional de Saúde Pública Carlos Seidl, cargo equivalente a Ministro da Saúde, chegou a declarar que a gripe era benigna e que tudo não passava de “histeria da imprensa”, que devia ser censurada. Segundo ele, “a imprensa incutia crescente pânico na sociedade carioca e ameaçava a preservação da ordem pública”. Uma semana depois, quando o Rio contava com mais de 800 mortes, ele foi demitido pelo presidente Wenceslau Braz, que nomeou Theophilo Torres. Como o novo diretor não estava conseguindo combater a epidemia, o presidente convidou um mineiro de Oliveira, Carlos Chagas. 

Carlos Chagas, mesmo doente, criou um serviço especial de postos de atendimento, inaugurou cinco hospitais emergenciais e publicou cartazes e panfletos de alerta para a  população com instruções para o combate à epidemia. As pessoas não deveriam sair de casa, lavar sempre as mãos e evitar colocá-las na boca eram algumas das recomendações de Chagas.

Mesmo com a subnotificação, a epidemia matou pelo menos 40 mil pessoas no Brasil, sendo 15 mil no Rio de Janeiro. 

 E em Belo Horizonte?

Em sua pesquisa, a historiadora Heloisa Starling investigou a passagem da gripe “espanhola” por Belo Horizonte. A cidade tinha apenas 20 anos de idade e uma população em torno de 50 mil habitantes. A epidemia deixou 292 mortos na capital mineira, um número relativamente pequeno se comparado a outras cidades como São Paulo e Rio. Segundo a historiadora, “mesmo que a gente assuma que houve subnotificação e triplique esse número, ainda assim fica claro que Belo Horizonte conseguiu um controle muito bom da epidemia”. 

O que foi que Belo Horizonte fez que os outros não fizeram? No início, ela agiu como as demais capitais, acreditando que a gripe não chegaria na cidade e, se chegasse, seria um problema menor. “Por ser uma cidade nova, com ótimas condições sanitárias, as epidemias que costumavam acontecer no país, como cólera e febre amarela, não ocorriam em Belo Horizonte”, explica a pesquisadora. Mas, o vírus chegou pelo trem da Central. Imediatamente, o prefeito Vaz de Mello convocou seu Diretor de Higiene (o que seria hoje Secretário da Saúde), Samuel Libânio, para tomar as providências necessárias. 

A primeira medida de Samuel Libânio foi fechar o comércio e suspender as aulas. Com os cafés e bares fechados, os comerciantes reclamaram. As medidas foram mantidas e as pessoas ficaram em casa. A população, assustada com as notícias do que estava acontecendo no Rio, aprovou o isolamento. Para atender aos mais necessitados, empresas, igrejas e comunidade passaram a fazer doações de alimentos e a Faculdade de Medicina se transformou num hospital com 120 leitos para os pobres.

Em reconhecimento ao trabalho que desenvolveu em Belo Horizonte, o médico, professor, sanitarista e pesquisador Samuel Libânio foi convidado para dirigir o Serviço Nacional de Tuberculose e, mais tarde foi, por duas vezes, Secretário de Saúde e Assistência do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Samuel foi ainda fundador e diretor do Sanatório Belo Horizonte, patrono da cadeira 41 da Academia Mineira de Medicina e membro da Academia Brasileira de Medicina.

Uma dica de leitura sobre a gripe de 1918 é o Chão de Ferro, terceiro volume das memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava.

Como epílogo, não resisto e revelo que o celebrado Samuel Libânio, citado pela historiadora Heloisa Starling, era irmão do meu avô materno, Ismael Libânio.

Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

2 comentários em “A História não perdoa. Mas ensina.

  1. Muito bom o post. realmente a história não perdoa e ensina. o bem e o mal. Mas – pelo que estamos vendo nessa nova pandemia -, nem todos os governantes aprendem o bem. Como o exemplo de Minas Gerais, na gripe espanhola, nas ações de meu tio-avô, Samuel Libânio para o controle da pandemia.
    👏👏 Parabéns pelo blog, padim!

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  2. Excelente post.
    Tema semelhante ao depoimento de Henrique Cukierman, da UFRJ, que compara as medidas tomadas por Oswaldo Cruz, para controle da epidemia de febre amarela no Brasil no início do século XX e aquelas tomadas pela China atualmente, contra a pandemia Coronavirus.

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