Abertura lenta e gradual. Triste memória.

Como em outras cidades brasileiras, Belo Horizonte decidiu promover uma reabertura gradual do comércio. Em princípio, nada contra. Pelo que temos observado, a prefeitura de Belo Horizonte tem se comportado de acordo com as orientações da Organização Mundial da Saúde e dos cientistas. Pelo menos, até agora.

Além das máscaras, álcool gel e higienização com água e sabão, um processo já comprovado para diminuir a velocidade de transmissão do vírus é o distanciamento social. Esta estratégia independe das decisões governamentais e pode ser adotada até o último suspiro da doença entre nós. Pode e deve. Principalmente no Brasil, onde há tão poucos testes e não sabemos quem e quantos são os infectados. Segundo o Ministério da Saúde, a meta do governo federal é oferecer 46,2 milhões de testes até dezembro. Dezembro?! 

Se você puder, fique em casa. Nem todos podemos ficar em casa, é verdade. Com a reabertura de alguns setores da economia, muitos brasileiros terão de pegar seus carros, seus ônibus ou caminhar até seus postos de trabalho. É legítimo o nosso medo das consequências de uma recessão global. Com o desemprego e o aumento da pobreza, a saúde é afetada. A Organização Mundial do Comércio já anuncia que esta será a recessão mais profunda da nossa existência. Não só aqui, mas em todo o planeta.

O distanciamento social não deve ser compreendido como isolar em casa os idosos e os portadores de doenças. Tal medida, que leva o nome de isolamento vertical, chegou a ser defendida, primeiro pelo Trump, e depois pelo Bolsonaro. Mais grave foi a frase do presidente do Brasil: “Cada família deve colocar o vovô e a vovó lá no canto e é isso”. Se assim fosse, ficaria subentendido que os mais jovens e aqueles sem doenças graves, poderiam circular normalmente. Eles poderiam ser infectados e levar o vírus para a casa. Ou alguém considera possível isolar todos os vulneráveis? Só de idosos, somos 28 milhões.

Por falar em idosos e distanciamento social, vamos ver o que o Canadá está fazendo pela sua população menos jovem. O Ministério dos Idosos (sim, lá tem uma pasta só para cuidar da terceira idade) acaba de anunciar uma nova ajuda de 360 dólares canadenses (1.440 reais) para cada um de seus 6,7 milhões de idosos com média e baixa renda. Em março, o governo já havia transferido 375 dólares para os idosos solteiros e 510 para os casados. O investimento no programa foi, até agora, de 3,8 bilhões de dólares (cerca de 22.400 bilhões de reais). Para a ministra Deb Schulte, a pandemia afetou as finanças dos idosos, a saúde mental e as redes sociais de relacionamento de amigos e parentes. Ela ainda ressaltou: “os idosos construíram este grande país, foram eles que nos criaram e cuidaram de nós, e agora faremos tudo o que pudermos para cuidar deles” 

Já para todos os trabalhadores canadenses que perderam sua renda como resultado do COVID-19, o governo está fornecendo 2,8 mil dólares canadenses (cerca de 10 mil reais) por 4 meses. E não importa se estava trabalhando em período integral, por contrato ou se era autônomo. 

Mas, por que coloquei no título que tenho uma triste memória de uma abertura lenta e gradual? 

Pela lei norte-americana, documentos do governo são liberados a partir de 30 anos da data de sua classificação. Em 2015, o pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, encontrou na internet um memorando do diretor da CIA, William Colby, para o secretário de Estado Henry Kissinger, com data de 11 de abril de 1974. Nele, a transcrição de um documento, no qual o general Ernesto Geisel, recém empossado presidente da República, reivindica para o Palácio do Planalto, na figura do general João Batista Figueiredo, na época chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), a responsabilidade por decidir sobre a execução de presos pela ditadura. A reunião serviu também para que o general Milton Tavares informasse ao Geisel da execução sumária de 104 pessoas feitas pelo Centro de Informações do Exército e para que o Figueiredo recomendasse a manutenção de tal política.

Durante o governo Geisel, ocorreram 53 assassinatos comprovados, entre eles o do jornalista Vladimir Herzog (1975) e do operário Manuel Fiel Filho (1976). Uma informação que não consta do relatório da CIA foi a decisão de Geisel, apoiado pelo Figueiredo, de que os mortos pelo regime militar a partir de 1974 deveriam ser dados como desaparecidos.

Assim, quando escuto a frase título, a minha triste lembrança vai para quando o Brasil era governado pelo general Geisel, elogiado por muitos como “o governo da abertura lenta e gradual”.

Como aconteceu naquele encontro entre generais em 1974, daqui a 30 anos iremos encontrar na internet documentos da CIA com os diálogos ocorridos nos gabinetes atuais. Ou antes, como aconteceu com a reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Nela, entre outros absurdos, Bolsonaro pediu ao então ministro Sérgio Moro assinar uma portaria de armamento para a população ir contra a quarentena. E o Moro assinou.

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Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

3 comentários em “Abertura lenta e gradual. Triste memória.

  1. ô conde, você realmente acredita em 22 mil mortos por esse maldito virus? No meio desse número não há um único caso de AVC, tuberculose, dengue, assassinato, acidente, malária, enfarto, suicídio, overdose? Perdíamos mais 60 mil brasileiros por assassinato todo ano e era preocupação de poucas pessoas em diminuir esse número. Qual é a quantidade de mortos em situação comum durante o ano? A informação é que nestes meses de crise sanitária morreram MENOS pessoas que sem ela. Por que impor tanta medo na população? A quem interessa esse pânico generalizado? Somos pobres de estatísticas ao longo da história, por que agora há tanta precisão no 22.000?

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    1. Oi Carlos, obrigado pelo comentário. E pelo prestígio da leitura. Além dos mortos pela coronavírus, de janeiro a maio, pela média, morreram no Brasil, entre outras, mil pessoas em acidentes de trânsito, 1.300 por homicídios, 1.800 por infecção pulmonares, 4.800 de câncer e 7.500 de doenças cardiovasculares.
      Ou seja, o número de 22 mil não computa os demais falecimentos por outras doenças, que continuam morrendo. O problema é somar mais uma doença que, felizmente, uma hora vai embora. Mas as outras devem continuar, infelizmente.
      Abração,
      Arthur Vianna

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      1. não esquecendo dos feminicídios (um caso a cada 7 horas no país) e do alto índice de genocídios de pobres, negros, índios e quilombolas que, com esses governantes, infelizmente, vai continuar

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