A corda do general

Como se não bastasse estarmos vivendo uma epidemia terrível, com quase um milhão de infectados e dezenas de milhares de brasileiros mortos pela doença, temos ainda de ouvir sandices de generais e assemelhados.

Após inúmeras manifestações contra a democracia, pedindo o fechamento do Congresso e do STF e até intervenção militar, com a participação do capitão-presidente, eis que vem um ministro, general da ativa, ameaçar o nosso país com um golpe caso a “corda seja esticada”.

Sua infeliz e impatriótica declaração: “É ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora, o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda”. Qual, o quê ou quem é o outro lado, general? É o Judiciário? É o Parlamento? É o povo? São os partidos políticos de oposição?

Animado com a fala de seu parsa, o presidente falou que o seu julgamento, pelo Tribunal Superior Eleitoral, “é começar a esticar a corda”. No dia seguinte, o mesmo elemento, ao atacar os ministros do STF Alexandre de Moraes e Celso de Mello, falou “estou sendo complacente demais, nós, militares das Forças Armadas somos os verdadeiros responsáveis pela democracia em nosso país”.

Sentindo poderosos, uma turma formada por militares de pijama lançou uma carta-manifesto ao ministro Celso de Mello, do Supremo. O texto começa assim “Nenhum Militar galga todos os postos da carreira, porque fez uso de um palavreado enfadonho, supérfluo, verboso, ardiloso, como um bolodório de doutor de faculdade”. Depois de vários bolodórios (gostei do termo), termina no velho estilo castrense: “E, principalmente, nenhum Militar, quando lhe é exigido decidir matéria relevante, o faz de tal modo que mereça ser chamado, por quem o indicou, de general de merda”.

Todos eles – presidente, generais da ativa e aqueles de pijama – ficaram indignados porque o Supremo decidiu manter o inquérito das fake news e enviar uma parte para o Tribunal Superior Eleitoral. Mas a chapa verde-oliva não quer saber de nenhuma investigação de fake news durante a campanha eleitoral de 2018. Por quê? Ora, se não tiver prova, os dois podem, eventualmente, continuar em seus palácios até 2022. No entanto, se ficar provado que houve utilização de esquema criminoso durante o período eleitoral, eles terão de ceder seus lugares. É assim que funciona numa democracia. A mesma que eles juraram defender.

Talvez pela falta da assessoria de um advogado constitucionalista, o presidente, seu vice e o ministro da Defesa assinaram e distribuíram uma nota, lembrando que as Forças Armadas estão sob a autoridade suprema do presidente da República, que elas não cumprem ordens absurdas e não aceitam tomada de poder por outro poder por conta de julgamentos políticos.

A quem foi dirigido o recado? Ao Parlamento? Ou ao Judiciário, onde o presidente e seus seguidores podem ser julgados? São ameaças e bravatas que não combinam com um Estado Democrático e de Direito.

Tem mais. Eles, os fardados, não entenderam o significado do Artigo 142 da Constituição. Até o Fernando Henrique Cardoso, que afirmou ser o autor do artigo, declarou que o texto não permite intervenção militar: “Qualquer dos três poderes pode requerer as Forças Armadas na defesa da Constituição e da ordem. Nada tem a ver com tutela, moderação ou intervenção militar. E é só”. 

Também não perceberam que as Forças Armadas não podem ser “poder moderador”. Até porque as Forças Armadas não são um poder. Como sabemos, são três os poderes da República. Poder moderador só existiu no tempo do império e era exercido pelo imperador. As Forças Armadas são regidas pela Constituição e não o contrário. E o presidente também, quer goste ou não.

Para quem tanto aprecia e segue de carteirinha os EUA, que tal assumir a postura da maior autoridade militar daquele país, o general Mark Milley. Ele defendeu que militar não faz parte de governo e pediu desculpas por ter participado de um ato político ao lado do presidente Donald Trump. 

Já o ministro da Defesa do Brasil, general Fernando Azevedo e Silva, sobrevoou, ao lado do capitão-presidente, uma manifestação pró-governo com faixas contra o Supremo Tribunal Federal e a favor da intervenção militar.

No Brasil, temos cerca de 3 mil militares no governo federal. E até generais da ativa. Um deles, comanda a tropa no ministério da Saúde. Outro, pasmem, sentou praça no gabinete da Casa Civil. É o general Braga Netto, o tal da corda. 

Acorda, Brasil.

#

Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

4 comentários em “A corda do general

  1. O perigo de encher o governo com militares não é a incompetência, muito pelo contrário. É eles deixarem se seduzir pelo salário adicional, pelos jetons e pelas mordomias que o poder civil proporciona. E é um ensinamento para o PT que achava que podia cooptar os militares pela ideologia;

    Curtir

  2. O comentário sobre o conto do lusitano saiu como se fosse referente ao outro intitulado “A corda do general”. Sobre esse, parece que os militares no governo esqueceram dos colegas na ativa, onde já há um mal estar com tanta burrice feita em conjunto pois estão misturando alhos com bugalhos – para ser gentil. Não sabemos até onde vai chegar isso ou se vai chegar.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: