A pobreza do Brasil sem máscara

Estamos todos acompanhando a luta dos mais pobres para o recebimento do repasse do auxílio emergencial de 600 reais. Pessoas de todas as idades enfrentam filas e, muitas vezes, o descaso e a burocracia da administração pública. Para citar um só exemplo, a dificuldade de acesso às informações devidas, que utiliza a internet como se todos tivessem um iphone na algibeira. E tudo acontece sob a ameaça terrível de um vírus que, após circular entre as classes mais privilegiadas, agora se espalha naqueles que mais lutam pela vida.

O que mais me assusta são os números. É nosso dever conhecer e refletir sobre os números que o vírus trouxe em suas gotículas. Não, não estou me referindo ao segundo lugar no pódio de horror ocupado pelo nosso país. Poderia, mas não quero falar agora sobre os 55 mil óbitos e da espantosa cifra de um milhão e duzentas mil pessoas infectadas noticiado ontem pelos governos estaduais. Estes dados são de seu conhecimento.

Quero trazer o que ontem me deixou acordado noite adentro. O Brasil tem uma população na casa dos 210 milhões. Se excluirmos as crianças e jovens de 0 a 17 anos, que somam 52 milhões, chegaremos a 158 milhões de adultos. Foi deste número de adultos que mais de 96 milhões de brasileiras e brasileiros solicitaram o auxílio emergencial de 600 reais. Do total inscrito, menos de dois terços já receberam. Este é o retrato, real e inaceitável.

Não são números nem estatísticas, são pessoas como eu e você. Ou melhor, não são bem como eu e você. Estamos na população que sobrou da conta: somos os 62 milhões que não entraram na fila para receber metade de um salário mínimo para as despesas de um mês.

Indigne-se! Comova-se! Mova-se!

Bertold Brecht

Nós pedimos com insistência: / Nunca digam: isso é natural!                                            

Diante dos acontecimentos diários. Numa época em que reina a confusão.

Em que escorre o sangue, / Em que se ordena a desordem,

Em que o arbitrário tem força de lei, / Em que a humanidade se desumaniza,

Nunca digam: isso é natural!

Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

2 comentários em “A pobreza do Brasil sem máscara

  1. Devido ao excesso de informação que chega a todos estamos perdendo a capacidade de indignação face a tanto descalabro, injustiça e desigualdade no mundo. Isso é um desastre, façamos votos que o tempo ajude a recuperar esse atributo que nos diferencia dos animais.

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  2. Artigo muito bom, Arthur.
    Precisamos, além de pensar, falar e agir mais. Apesar de vivenciarmos e sermos solidários a essa triste realidade, fazemos muito pouco. ou quase nada.
    Indigne-se, comova-se e mova-se. Grande, Brecht!

    Curtido por 1 pessoa

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