Vida x emprego: um falso dilema

No dia 16 de março, logo após elevar o estado da contaminação pela Covid-19 à pandemia, a Organização Mundial de Saúde – OMS pediu empenho dos governos para deter o avanço da doença e declarou que novas infecções podem ser contidas com o isolamento social. 

Para diminuir a circulação do vírus, os países mais afetados adotaram medidas drásticas, como a quarentena e o confinamento. Com elas, o fechamento de escolas, comércio e indústrias, deixando apenas os serviços essenciais.

Alguns dirigentes, no início, não concordaram com as medidas de isolamento. Entre eles, os presidentes do Brasil e dos EUA e os primeiros-ministros do Reino Unido e da Itália. No Brasil, o presidente fez um pronunciamento na TV no dia 24 de março, pedindo para o país voltar à normalidade e que a crise era exagero da imprensa. Dois dias depois, tentou lançar uma campanha com o slogan “O Brasil não pode parar”, mas foi impedido. Na verdade, o presidente brasileiro estava seguindo as orientações do seu colega Trump que, em 9 de março, comparou as mortes pelo coronavírus com as ocorridas com a gripe comum. E declarou que nada deve ser fechado e que a vida e economia continuam.

Além da falta de empatia com a população, assustada com as mortes provocadas pela pandemia, o que aqueles governantes, de fato, estavam expressando, é que a economia de um país é mais importante do que a vida de seus cidadãos. 

Todos os países afetados com a pandemia devem buscar alternativas para salvar vidas e criar mecanismos para preservar empregos e empresas. Do ponto de vista social, a transferência de recursos para que aqueles que sofreram e sofrem com a pandemia tem como objetivo a sobrevivência. Em tese, pois sabemos que o valor repassado é insuficiente para as despesas de uma só pessoa. Já do ponto de vista econômico, os governos sabem que é preciso injetar dinheiro no mercado para manter empresas e empregos. 

No caso do Brasil, é preciso manter em funcionamento os micros e pequenos negócios, pois eles representam, segundo o Sebrae, 99% do total das empresas brasileiras e 54% dos empregos formais. Se não podem funcionar, cabe ao governo criar benefícios fiscais e linhas de crédito. Em três meses de pandemia, cerca de um milhão e meio de brasileiras e brasileiros com carteira assinada perderam seus empregos. E, ainda segundo o Sebrae, apenas 15% das pequenas empresas conseguiram crédito durante a Covid-19.

No entanto, nenhuma estratégia econômica terá êxito se os governos não priorizarem a vida das pessoas. Para Frederico Guanais, chefe-adjunto da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE, “se os países nada fizessem para diminuir os contágios pelo coronavírus, as consequências econômicas seriam ainda mais dramáticas”.

Em artigo assinado pela diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, e pelo diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, a disputa entre salvar vidas e preservar empregos durante a pandemia é um falso dilema. No documento, fazem um apelo às lideranças políticas para que “reconheçam que a proteção da saúde pública e a volta das pessoas ao trabalho andam de mãos dadas”.

Salvar vidas, controlando a propagação do vírus, é pré-requisito para salvar empresas e empregos. 

P.S.: como frequentador assíduo de butecos e restaurantes, sou solidário com seus proprietários e funcionários pelas terríveis dificuldades com que estão sendo vítimas durante a pandemia. Espero, como todos, que a curva de evolução da doença comece a sua ladeira abaixo. Não vejo a hora de voltar a frequentar seus estabelecimentos e tomar, em companhia de amigos, um bom vinho e a cachacinha mineira que tanto aprecio. 

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Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

2 comentários em “Vida x emprego: um falso dilema

  1. A nossa geração ainda não tinha vivido uma situação dramática quanto a de agora. A geração de nossos pais viveu a Grande Guerra mas era limitada ao cenário das batalhas, não era uma coisa espalhada pelo mundo inteiro e sem fronteiras ou distinção de qualquer parâmetro. Esse COVID conseguiu um fato inusitado: nivelou a humanidade, em poucos meses. Como tudo na vida, um dia passa.

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