EUA ameaçam o Brasil

A melhor da semana

Depois da democracia brasileira sofrer ameaças dos generais que, como políticos, estão no governo Bolsonaro, o país sofre agora uma ameaça explícita dos EUA. Em entrevista ao jornal O Globo, o embaixador Todd Chapman, declarou que o Brasil sofrerá “consequências” econômicas negativas caso permita a Huawei participar do leilão da rede 5G, que deverá acontecer no próximo ano. E mais: ameaçou que empresas norte-americanas e de países aliados poderiam deixar de investir no Brasil. 

É grave. Tão grave que vale refletir sobre a chantagem do governo de Donald Trump ao nosso país. Pra início de conversa, sabemos que a “guerra” entre EUA e China não tem nada a ver com questão ideológica. É uma guerra comercial. Puramente comercial. Os dois países têm uma fabulosa relação de negócios. Só que, atualmente, a China vende muito mais do que compra. Em 2019, a China vendeu para os EUA um total de US$ 418,5 bilhões em produtos, contra US$ 122,7 bilhões na outra direção. 

No caso presente, a “guerra” é uma disputa comercial entre empresas americanas e aliadas, como a CISCO, Nokia, Samsung e Ericsson, com o maior fabricante do mundo de smartphones, a gigante de origem chinesa Huawei. Assim, segundo o tal embaixador chantagista, o país que estiver com a multinacional Huawei estará contra os EUA. Simples assim. Donald Trump conseguiu enquadrar algumas nações. Parceiros tradicionais, como o Reino Unido, já tomaram posição a seu favor. A Casa Branca enviou à Europa o vice-secretário de Estado para as Telecomunicações e Internet, Robert Strayer, para “convencer” países como Portugal e Espanha, com as mesmas ameaças dirigidas ao Brasil. A França, com receio das represálias, decidiu banir a Huawei a partir de 2028.

Para receber o apoio em uma disputa comercial, Trump lança mão dos velhos e surrados chavões anticomunistas. Diz ele que a empresa é ligada ao Partido Comunista da China e que os dados serão utilizados pelo governo chinês para dominar o mundo. Declarações para enganar trouxa. O que assusta mesmo os EUA é a capacidade de produção e distribuição da Huawei numa disputa pela 5G. Ela faturou 123 bilhões de dólares em 2019 e atua em 170 países com cerca de 200 mil funcionários. A empresa está presente em todas as pontas do setor de telecomunicações, como infraestrutura de rede, soluções de comunicação, voz, banda larga, internet móvel, wi-fi, laptops e smartphones.

Para os mais ou menos leigos no assunto, como eu mesmo, vale a pena conhecer o motivo de tanta discussão. O fato é que o Brasil vai promover um leilão, adiado para o próximo ano, para licitar a rede 5G. Segundo os entendidos, será a maior oferta pública para a tecnologia móvel de quinta geração do mundo. Em janeiro, o ministro da Ciência e Tecnologia, o ex-astronauta Marcos Pontes, chegou a declarar que os EUA não devem interferir no processo da rede 5G, “da mesma forma que o Brasil não fez pleito aos EUA sobre quais negócios fazer com a China, e como isso afeta ou não nossa agricultura”. Foi um espanto, mas, em maio, o mesmo astronauta anunciou uma parceria com a empresa estadunidense CISCO para a implementação do 5G no Brasil. Em junho, o presidente Bolsonaro declarou ao jornal Globo que “nós vamos atender os requisitos da soberania nacional, da segurança das informações, da segurança dos dados, e também a nossa política externa”. Aí é que mora o perigo. A política externa brasileira é comandada pelo Ernesto Araújo, já apontado como o pior diplomata do mundo e liderado do terraplanista e guru bolsonarista Olavo de Carvalho. Pode ser que o governo brasileiro esteja esperando a eleição nos EUA para saber qual caminho seguir.

Mas, afinal, o que é mesmo o tal do 5G? Ao tentar resumir, sei que não será tarefa fácil, pois a publicação mais simplificada sobre o tema, “5G for Dummies” (5G para Iniciantes, em tradução livre), tem 53 páginas. Para começar, como sabemos, 5G quer dizer 5ª geração. A quarta geração (4G) surgiu no final de 2000 e tornou a internet móvel 500 vezes mais rápida do que a geração anterior. A nova geração foi criada para ser até 100 vezes mais rápida que a 4G, sendo mais inteligente, rápida e eficiente.  

A quinta geração da comunicação sem fio, segundo a publicação citada, traz grandes mudanças na maneira como as pessoas pensam e usam a internet. Hoje em dia, coisas extremamente difíceis ou impossível se tornarão comuns. Downloads de filmes praticamente instantâneos, capacidade e segurança nas estradas com assistentes virtuais incorporados ao veículo. A nova tecnologia deve transformar o atendimento médico e hospitalar, com sistemas de saúde integrados e novos recursos para cirurgias e diagnósticos. Por outro lado, nem todo celular será capaz de captar o sinal 5G e também deverão ser instaladas novas torres para captar o sinal.

Ou seja, nem todos nós seremos brindados com os benefícios anunciados. No Brasil, muitos estão fora até da primeira geração. Segundo o IBGE, 69% dos brasileiros possuem conexão com a internet. Os outros 31% da população continuam desconectados. Em percentual de população com acesso, estamos em 72º lugar no mundo. Os mais conectados: Suécia (95,8%), Islândia (95,5%), Singapura (95,5%), Nova Zelândia (93,5%) e Holanda (92,5%).

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Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

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