Boca de militar é pra ficar calada

Sempre o nosso querido Henriquinho

Na semana passada, o presidente Bolsonaro voltou a ameaçar os brasileiros com um golpe militar: “As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso”, afirmou Bolsonaro. “Essa crítica de esculhambar, nós vivemos o momento de 1964 e 1985, você decida aí, pense o que você achou sobre aquele período”, sugeriu o presidente.

A fala do Bolsonaro, no momento em que o Brasil chega a quase 3 mil mortes em apenas 24 horas (16/03), merece uma resposta em pelo menos dois atos da farsa que estamos vivendo.

A primeira dela, resgate de um editorial publicado no dia 25 de fevereiro de 1988 na publicação “Noticiário do Exército”. Com o título “A verdade: um símbolo da honra militar”, o veículo oficial produzido pelo Quartel General do Exército em Brasília faz severas críticas ao capitão Bolsonaro: “desmerece a honra militar’, ‘faltou com a verdade e maculou a dignidade militar”. E mais: “Tornaram-se [Bolsonaro e seu colega], assim, estranhos ao meio em que vivem e sujeitos tanto à rejeição de seus pares como a serem considerados indignos para a carreira das armas”.

O editorial tratava da prisão e processo contra Bolsonaro e seu colega Fábio Passos, acusados de planejar a colocação de bombas em unidades do Exército e até na adutora do Guandu (sistema de distribuição de água do Rio de Janeiro). No final, ele foi considerado culpado por uma junta de coronéis, mas absolvido em um recurso ao Superior Tribunal Militar por 8 votos e 4. 

Em entrevista realizada em 1993, o general Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura militar brasileira, ao comentar a participação de militares na política, afirmou: “Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”. 

Difícil é explicar como um oficial tão mal avaliado pelos seus colegas de farda consegue o apoio de importante (?) parcela de militares. Hoje, mais de 3 mil militares estão nas tetas do governo, incluindo vários generais da ativa e da reserva como ministros.

A melhor resposta ao mau militar e ainda pior presidente, vem da França. Recebi do Frei Betto um oportuno artigo assinado pela jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon. O título, em francês, é Taisez-Vous (Cale-se). Em português, a melhor tradução seria: boca de militar é pra ficar calada.

Vamos ao artigo:

TAISEZ-VOUS

Recém-eleito, Macron respondeu ao general de Villiers, que emitira uma opinião em público. O presidente lembrou ao general que militares têm que obedecer ao “devoir de réserve” (dever de reserva). Militar francês não dá opinião nem mesmo sobre o orçamento da Defesa, como foi o caso de de Villiers, então chefe do Estado-Maior. Villiers se demitiu imediatamente e, um ano depois, escreveu um livro sobre o incidente. Não foi best-seller.

Aqui na França generais não são entrevistados nunca. Nem mesmo para falar do métier deles, a guerra, pois as ações que eles executam na África e no Oriente Médio são todas secretas. Assim sendo, não são vistos nem ouvidos pelos cidadãos, pois o que pensam sobre política não interessa a ninguém. E, pra começar, não podem falar de política por uma norma chamada « devoir de réserve ».

No Brasil, os milicos são adulados por jornalistas que lhes dão o protagonismo na vida política, que é dos civis. Que eles se ocupem de defender nossas fronteiras e fazer hospitais de campanha para doentes do Covid, são tarefas nas quais eles podem ser úteis. 

É o que os militares têm feito em toda a Europa, hospitais de campanha. E calados.  Eles executam o que os governos civis (eleitos pelo povo) decidem.

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Autora, entre outros, de “A tortura como arma de guerra” e “Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar”.

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Publicado por blogdocondearthur

Publicitário, jornalista e escritor

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