Contos

UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA

Carlos Vianna

  1. GAËL LE GUERRIC

O ex-comissaire-divisionaire da Police Judiciaire parisiense Gaël Le Guerric, Gegé para os seus íntimos, feliz reformado com 62 anos de idade, errava os olhos pelo farol do Bugio, a foz do Tejo, os grandes navios, as pequenas embarcações de recreio e a outra banda, como os lisboetas chamavam à zona limitada pela margem sul do Tejo e um trecho do litoral oceânico, frente a Lisboa.

Num dia ensolarado de março de 2018, sentado na mesa 14, a de melhor vista do restaurante do Centro Náutico de Paço d’Arcos, aguardava a chegada de seu afilhado, Jean Baptiste Gaspar, um luso-francês nascido de pais portugueses emigrados em França e que era já, aos 32 anos de idade, inspetor-chefe da PJ portuguesa, colocado no Departamento Central de Cooperação Internacional, na sede de Lisboa.

Gaël observava com especial carinho o seu pequeno veleiro de 5 metros, de nome “Pénerf”, em homenagem à terra natal no sul da Bretanha, a ser içado na rampa ao lado do restaurante para ser estacionado na doca seca do Centro. 

Até entrar na Faculdade de Direito, em Rennes, a capital da Bretanha, Gaël viveu na pequena vila de Pénerf, comuna de Damgan, famosa pelas suas ostras. O seu pai foi ostreicultor até idade avançada e ele cresceu em comunhão com o mar, tanto no duro trabalho paterno como no velejar incansável pelas baías, enseadas e ilhas da região, em especial pelo deslumbrante Golfo de Morbihan. Antes e depois da morte dos seus pais, Gaël e sua mulher passaram várias de suas férias em Pénerf. O mar, os antigos amigos e a sua Bretanha natal eram um marco forte nas suas vidas.

O afilhado, retornado definitivamente ao país de origem de seus pais,  convidou o padrinho a instalar-se no concelho de Oeiras, onde o Tejo e o Atlântico se encontram, no qual vivia com a família. Reformado depois de 35 anos de trabalho no famoso 36, Quai des Orfèvres, sede nacional da PJ francesa e viúvo poucos meses antes da reforma, já quase nada o ligava a Paris. Era filho único e os seus pais já tinham falecido há vários anos. O retorno à Bretanha natal já não o atraía sem a companhia da mulher, Morgana, colega da Universidade de Rennes, também bretã de Gacilly, a vila florida dos perfumes Yves Rocher. Mudar de país, para junto do seu querido afilhado, o filho que nunca teve, tornou-se uma alternativa sã num momento de grande tristeza e falta de perspectivas. Jean Baptiste, a sua mulher Inês e os seus dois filhos pequenos, Francisco e Pedro, eram a sua verdadeira família.

Orientado pelo afilhado, alugou o seu apartamento parisiense e comprou com as economias de uma vida, em Paço d’Arcos, um sala e quarto amplos, com uma varanda de bom tamanho, sympa et pas cher, numa bela e grande praça em frente ao mar: uma pequena pentouse. Um luxo de fazer inveja a muitos parisienses que vivem em pequenos apartamentos caríssimos e velhos. Seguira o exemplo de muitos franceses aposentados, que estavam a emigrar para Portugal nos últimos anos, em busca de muito sol, boa comida, menos impostos, enfim, melhor qualidade de vida e mais barata.

Recuperado psicologicamente do choque provocado pela morte da companheira de tantos anos, levava uma vida tranquila, com alegrias familiares e muitos peixes capturados na costa próxima, belos robalos, sargos, douradas e até algum polvo, escondidos em baixios rochosos. 

Gostava de conversar diariamente, quando acordava, com um grande retrato da falecida esposa, Morgana, colocado em frente à sua cama, onde gravou uns versos de uma música do filme “Un homme et une Femme”:

A l’ombre de nous
Restera toujours
Au noms de l’amour
Un gout d’eternité
Au nom de notre amour
Une ombre va rester

Bom grelhador e também capaz de alguns bons cozinhados, fazia a alegria da famíla Gaspar e de alguns amigos, também pescadores e donos de embarcações. Até uma relação sentimental conseguira, uma vizinha também viúva, de seu nome Ana Carolina , uns bons anos mais jovem que ele. Um encontro calmo de gente madura, um novo começo. Com a devida benção da falecida, nas conversas matinais. Gäel interpretou a mudança de tempo no dia seguinte ao do início do namoro como um sinal de aprovação de Morgana. Cada casal tem seus códigos.

A vida corria-lhe de feição.

Diz-se que polícia uma vez polícia para sempre: 35 anos é muito tempo e marcam um tipo de relação especial com o mundo, em particular com a maldade das pessoas, a ganância, o egoísmo, as taras, as injustiças de toda ordem. 

Para Gaël, a continuidade da atividade policial, muito esporádica e sem maiores responsabilidades, relacionava- se, naturalmente, com a de Jean Baptiste, intensa e dedicada. Este, não por acaso, seguiu os passos do seu padrinho e mentor. E o padrinho apoiava discretamente o afilhado na sua atividade no Departamento Central de Cooperação internacional, devido aos seus múltiplos contactos, não só nos meios policiais franceses como de outros países europeus, com quem por vezes se comunicava por email. Ajudava esporadicamente alguns ex-colegas mais chegados, nas suas investigações. Os seus conselhos ou sugestões eram sempre respeitados. 

A relação com o afilhado começara desde a tenra idade de Jean Baptiste, filho da concierge do único prédio onde morou em Paris, no  XIXème arrondissement. O casal Le Guerric encontrou no pequeno Jean Baptiste uma certa compensação à sua dificuldade de procriar. Nos anos 80 os tratamentos de inseminação artificial e de combate à infertilidade estavam ainda numa fase inicial, não eram tão comuns como acabaram por tornarem-se. Havia um outro complicador para tomarem essa opção. Morgana tinha sofrido um aborto espontâneo, ainda muito jovem e o trauma nunca foi superado totalmente. Submeter-se a um processo complicado de inseminação artificial assustava-a, logo nos primeiros anos de casamento e vida em Paris. Por outro lado a vida profissional intensa e a alegria de acompanhar de perto o crescimento do pequeno Jean Baptiste acabaram por fazer com que o casal se resignasse à falta de um filho próprio. No entanto isto foi uma ferida nunca totalmente cicatrizada e mesmo depois da morte da esposa, Gäel lamentava-se sobre essa lacuna na vida do casal, nas suas conversas diárias com o retrato de Morgana.

O casal Gaspar, oriundo da então paupérrima região de Trás-os-Montes estava em França desde o início dos setenta. Seguiu a forte migração portuguesa nos anos sessenta para a região parisiense e era parecido com tantos conterrâneos pobres, nos costumes e profissões. A instrução dos dois era precária, para dizer o mínimo. A vida dos emigrantes portugueses naqueles tempos era muito difícil. O horário de trabalho de uma concierge era quase contínuo, pois a qualquer hora um vizinho podia bater à porta das suas modestas acomodações, uma sala e quarto bem reduzidos, no rés-do-chão do prédio da Rue de Thionville. O marido foi, como tantos outros, para a construção civil. Foi um bom pedreiro, mas não mais do que isso. Lá viveram marido e mulher por quase 40 anos, trabalhando duro e poupando. Depois de muitos anos em França, em 1986 nasceu o único filho, Jean Baptiste. Como tantos compatriotas, o casal sonhava fazer uma casa vistosa na sua aldeia natal para mostrar aos parentes e vizinhos que triunfaram no estrangeiro e ter o seu cantinho quando pudessem reformar-se. E assim se passou. Apesar dos dois terem apenas a quarta classe, a instrução muito básica das escolas rurais nos anos 60, encaminhar o filho para os estudos e sonhar com a sua entrada numa faculdade, representava para o casal uma quase religião. Viveram para isso. O apoio dado ao filho pelo casal Le Guerric, alguns anos mais jovem que eles, foi uma benção que agradeceram durante anos, das mais diversas formas. Gäel e a sua mulher deram ao afilhado o que os pais não tinham condição de dar. Acompanhamento escolar, férias na Bretanha, visitas didáticas a museus, muitos livros, enfim, um ambiente cultural e educacional propício ao desenvolvimento pleno do jovem. Jean Baptiste tinha então dois pais e duas mães devotados à sua felicidade e futuro. O que, de certa forma, também marcara a personalidade do jovem. Aos 18 anos, com a entrada na faculdade com notas excelentes no exame do baccalauréat, ao fim do ensino secundário, sentiu necessidade de se libertar da tutela dos quatro pais. Mudou-se para um pequeno apartamento na rive gauche, dividido com mais dois amigos. Ganhava algum dinheiro dando explicações de filosofia e francês para alunos do secundário e tinha uma vida espartana, de estudante pobre. Mas desabrochou para a vida fora dos limites do XIXème e da Rue de Thionville. Conheceu os namoros e o sexo, interessou-se por política e os debates na Faculdade de Direito. Cultivou-se. Suas visitas aos pais e padrinhos esparsaram-se. Eles sentiam sua ausência mas o orgulho pelo jovem e suas vitórias falavam mais alto.

Pois o jovem Jean Baptiste a ninguém decepcionou. Uma criança alegre e estudiosa, um adolescente tranquilo e nada problemático, aos 18 anos independente e formado na Sorbonne com mérito aos 23. Na mesma época apaixonou-se por uma jovem portuguesa, Inés, de férias em casa de parentes em Paris. Foi paixão fulminante e em poucos meses, ela de volta a Lisboa, já falavam em casamento. Divididos por tanta distância, viagem para lá e viagem para cá, Lisboa venceu a disputa e Jean Baptiste, para tristeza dos pais, acabou por decidir fazer a sua nova vida em Portugal. Influenciado pelo padrinho, o direito criminal sempre foi o seu preferido na faculdade. Ser advogado, sem grandes contactos em Portugal, seria uma opção difícil, apesar do seu diploma ser reconhecido e ter podido inscrever- se na Ordem. Aproveitou um concurso aberto na Polícia Judiciária e, com a perseverança de sempre, passou em ótima posição, apesar das dificuldades com o português escrito e com uma legislação diferente. A sua formação académica, sólido conhecimento de línguas e informática contaram em muito a seu favor na avaliação final. Aos 25 anos tornou-se inspetor da PJ, colocado na sede de Lisboa, devido às suas boas notas no concurso. Corria o ano de 2011. Após um ano, já fazia parte da Unidade Central de Investigação Criminal e, alguns anos mais tarde, da Cooperação Internacional, um departamento prestigiado e ambicionado pelos inspetores. A história do padrinho repetia-se no afilhado. Aposentados e com o filho emigrado para Portugal, os pais de Jean-Baptiste, já a caminho dos 70 anos de idade, voltaram para a sua aldeia, alguns anos depois do casamento do filho. Lá tinham construído com as poupanças de mais de 40 anos uma boa casa de pedra, cercada por um belo jardim e uma área de pomar e horta. O sonho de tantos emigrantes portugueses. As reformas francesas dos dois, modestas para o custo de vida parisiense, em Trás-os-Montes dava e sobrava para quem não tinha luxos. Quando vieram os netos, a singela felicidade do casal completou- se.

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O Professor

Se non è tutto vero, è ben trovato (variante do aforismo registrado por Giordano Bruno – 1585)

            Ao contrário de outras turmas, que se reúnem para jogar conversa fora, a dos companheiros do Pedro Peixoto, o Pepe, não é formada por colegas de escola, vizinhos e nem sequer tem um interesse comum. A não ser o mesmo local de sempre. Na celebrada “esquina dos aflitos”, defronte aos cafés Pérola e Nice, na Avenida Afonso Pena, o grupo responde à chamada todos os dias. A faixa etária vai dos 50 aos 80 anos. A maioria de aposentados. Ou, como diz o Pepe, todos já com a vida ganha ou perdida. No grupo há, claro, um ou outro ainda em atividade. Entre esses, o conhecido advogado Toledo Piza; o jornalista Torquato; o Paccelli, oficial de gabinete do prefeito Amintas de Barros; e o corretor de imóveis Zico Dornelles.

            Invariavelmente, as conversas giram em torno das últimas notícias do dia. Ou de um e outro escândalo local. A primeira leva assina ponto lá pelas 9 horas, logo após as notícias da Rádio Itatiaia. À tarde, depois da siesta, os temas são pautados pelas manchetes da Última Hora, Diário da Tarde ou de jornais alternativos como o Binômio do Zé Maria Rabelo. Assunto é que não falta quando sobra tempo.

            Naquele ano de 1962, Pepe já vivia no mesmo sobrado que hoje habita, na Rua Iraí, a um quarteirão da Lavanderia Eureka. Longe do centro, mas em bairro novo e sossegado. Com três quartos, sala, copa, cozinha, banheiro e alpendre, a casa atende perfeitamente a seus moradores: Pepe, sua mulher, Laura, e sua filha Inês, solteira por opção.

            Desde a sua aposentadoria, Pepe decidira não ter mais carro e andar, de preferência, a pé. Nos dias de chuva, admitia pegar um trólebus e à noite, para um teatro ou cinema com a família, um táxi. Todo santo dia, alguns quilômetros até o centro e outro tanto pra volta.

            Um dia, ao atravessar a Avenida Prudente de Morais, topou com um homem examinando um mapa. De cara, Pepe viu que era um estrangeiro. A roupa, o corte de cabelo e, claro, o mapa. Aproximou-se do indivíduo e perguntou se ele precisava de ajuda. O sujeito começou a ensaiar um português meio espanholado e deu a oportunidade de Pepe gastar o inglês que aprendera na Cultura Inglesa e, depois, no Instituto Brasil-Estados Unidos. E repetiu se ele precisava de ajuda, agora na língua do gringo.

            O homem abriu um imenso sorriso, agradeceu e perguntou como ele tinha de fazer para chegar até o centro da cidade. Pepe explicou que o centro estava longe e que o melhor seria pegar um ônibus ou táxi.

            – Não, ele respondeu e indicou que gostaria de ir a pé para conhecer o caminho.

            Pronto, ganhou a simpatia do nosso Pedro Peixoto. Andar a pé por toda a Belo Horizonte era o que ele mais gostava. Lado a lado, foram os dois novos conhecidos descendo a Prudente de Morais e São Paulo até o centro. O homem era americano, mas falava um pouco de espanhol e até arriscava algumas palavras em português.

            E assim, antes mesmo de chegar na Afonso Pena, Pepe já sabia que o gringo se chamava James Warren Jones, morava na Rua Marabá, 203, com sua mulher e quatro filhos. Era capitão reformado da Marinha Americana e estava no Brasil para se recuperar dos horrores que viveu na guerra da Coreia. Mas ele gostava mesmo era de ser tratado de professor, sua atividade atual. Durante o trajeto de quase uma hora, Mr. Jones praticamente só falou sobre guerra. Parecia ser um especialista no assunto.

            Quando estavam se aproximando do centro, o americano contou que morou com a família no Hotel Financial e que lá perto tinha um café com um nome bem original, Café Nice (nice em inglês quer dizer agradável), e que ele achava o lugar muito interessante. Pepe sorriu e revelou que ele estava indo exatamente para o Café Nice, onde, todos os dias, encontrava com seus amigos.

            – Que coincidência! – exclamaram os dois ao mesmo tempo e cada um na sua língua.

            Ao chegar na “esquina dos aflitos”(Pepe não conseguiu traduzir a expressão), Mr. Jones foi apresentado ao pessoal. Como a maioria não entendia patavina de inglês, Pepe virou tradutor oficial. A presença de um estrangeiro, professor e capitão da Marinha Americana na turma foi um acontecimento. A toda hora, Pepe era chamado para traduzir. O assunto principal não era mais as notícias do dia. A manchete era o capitão. E sua presença, uma exceção, pois nunca ninguém tão novo tinha sido aceito no grupo. O professor deveria ter no máximo 40 anos.

            Assim, durante meses, a dupla descia até o Café Nice. E, quando Mr. Jones não aparecia para a caminhada, a justificativa era sempre uma pequena viagem ou “um trabalho do Consulado”. Mas ele só poderia acompanhar o Pepe na parte da manhã. À tarde tinha outros compromissos.

            Mesmo não sendo muito falante, o americano não se fazia de rogado. Até mesmo sobre assuntos delicados, como política e religião. Sobre política ninguém conseguiu entender qual era a dele. Ao mesmo tempo que elogiava a revolução cubana, dizia que a CIA tinha um papel importante nas Américas. E que ele mesmo era amigo de pessoas importantes da agência, como Dan Mitrione, que também estava em Belo Horizonte. Como ninguém tinha ouvido falar no homem, o assunto ficou por isso mesmo. Sobre religião, o professor era mais reservado, mas todos entenderam que ele seguia um ramo da liturgia pentecostal. Ou seja, o moço era crente. Mas o que mais chamou atenção do pessoal foi quando o professor contou que escolheu Belo Horizonte para morar porque a cidade havia sido considerada uma das poucas cidades do mundo que ficaria imune da poeira atômica no caso de uma guerra nuclear. Como o pessoal duvidou, no dia seguinte ele levou e mostrou um recorte da revista Esquire com a informação.

            Em casa, Pepe só falava no amigo americano. Era James pra lá, professor pra cá e capitão pra acolá. Um dia, saindo de uma padaria com a sua mulher, deu de cara com toda a família Jones. O professor apresentou sua esposa, Marceline, e os filhos. Como estava na hora de bater o ponto no Café Nice, os dois despediram-se e deixaram as duas mulheres arranhando uma mistura de inglês, português e espanhol.

            Naquela noite, Laura contou que ficou sabendo por uma amiga, que também morava na Rua Marabá, que o americano não era capitão coisa nenhuma, nunca foi professor e que também não estava aqui no Brasil para tratamento de saúde. E que ele estava tentando conseguir um emprego na Lavanderia Eureka. Pepe estranhou, mas acabou admitindo que o capitão estava em tratamento por causa a guerra e que não havia conseguido emprego como professor. Segundo ele, tudo tem uma explicação.

            – Pode ser, Pedro, mas acho muito esquisito – disse Laura encerrando o assunto.

            Durante os meses em que a família Jones viveu em Belo Horizonte, Pepe só esteve uma vez na casa do professor. E mesmo assim só para um cafezinho, acompanhado de um biscoito muito duro feito pela Marceline, chamado cookie. Na sala, em contraste com os móveis luxuosos, todas as paredes estavam cobertas de cartazes. Todos eles de fundo religioso e com imagens que mais pareciam da selva amazônica.

            Em setembro ou outubro daquele ano, o americano acompanhou Pepe pela última vez ao Café Nice. Segundo contou, havia conseguido um emprego no Rio de Janeiro e para lá iria com a família. Pegou um táxi em frente ao Cine Brasil e acenou para seus amigos. Nunca mais Pepe teve qualquer notícia dele.

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Como acontecia aos domingos, Pepe foi se encontrar com os companheiros no Mercado Municipal. Depois de uma empada e um cafezinho para fazer boca de pito, seguiu para o Bar do Tonho, que, segundo consta, tem a cerveja mais gelada de Belo Horizonte. E lá ficou bebendo a legítima Faixa Azul e comendo frango com quiabo até o mercado fechar.

            Voltou para a casa de ônibus elétrico e caiu na cama. Naquele domingo de novembro de 1978, Pepe só acordou quando ouviu os gritos da Laura:

            – Pedro, acorda, corre aqui! Pedro, virgem santíssima! Pedro, corre aqui pra sala, olha o professor no Fantástico! Minha Nossa Senhora, é o professor, Pedro! É o professor!

            Pedro se levantou ainda meio de ressaca, foi para a sala e, de pé e boca aberta, assistiu pela TV aos comentários dos repórteres Lucas Mendes e Hélio Costa, do Fantástico:

“James Warren ‘Jim’ Jones foi responsável pelo envenenamento de 913 membros de sua seita, na Guiana. A carreira do líder espiritual de James Warren Jones começou aos 22 anos, quando fundou sua igreja. Em 1962, antes de ir para a Califórnia, disse ter tido a visão de uma explosão nuclear e resolveu mudar para Belo Horizonte, onde morou com a família no tradicional bairro Santo Antônio.

Depois de muitos problemas com a seita na Califórnia, decidiu, em 1977, mudar-se com os seus seguidores para a Guiana. No bolso, uma fortuna calculada em 10 milhões de dólares e cartas de recomendações de governadores, deputados e senadores americanos e de Rosalynn Carter, mulher do presidente Jimmy Carter.

A mistura entre misticismo, política e fanatismo resultou, em novembro de 1978, num espetáculo de horror na Guiana. Ali, numa colônia agrícola batizada de Jonestown, 913 americanos da seita Templo do Povo, fundada por Jim Jones, líder espiritual que se dizia “a reencarnação de Cristo”, promoveram um trágico suicídio em massa. Instigados por Jones – no caso dos renitentes, convencidos por armas apontadas para suas cabeças -, homens, mulheres e crianças ingeriram um coquetel de cianureto e tranquilizantes diluídos em refresco de frutas. Em pouco tempo, os corpos se amontoavam no chão.

Depois da morte de sua mulher, Marceline, e de seus filhos, Jones matou-se com um tiro no rosto”.

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O enterro do Doutor Afrânio

A palavra pertence metade a quem a profere e metade a quem a ouve. Michel de Montaigne

I

Pedro nunca tinha visto nada igual, nem parecido. Eram carros e mais carros. Centenas de pessoas iam até a bonita urna e olhavam o Afrânio pelo visor de vidro do caixão. Alguns voltavam com água nos olhos. Um funcionário do cemitério, que havia ajudado na preparação do corpo, comentou que até o governador mandara representante. Entre os presentes, Pedro reconheceu vários rostos que sempre apareciam nos jornais. E nem mesmo ficou espantado quando viu chegar, acompanhado da esposa, o dono da empresa em que trabalhava. E a quantidade de coroas? Após a cerimônia, Pedro ainda ouviu um senhor comentar: que coisa, hem, o cemitério deveria ter colocado o nome inteiro do Afrânio na placa e não apenas Afrânio Bueno.

Pedro voltou para a casa feliz e com aquela gostosa sensação do dever cumprido. Naquela noite foi até o barzinho. Sentou-se à mesa e, entre um copo e outro de cachaça, começou a pensar no seu próprio enterro.

II

A secretária recortou o anúncio fúnebre e o colocou sobre a mesa do chefe. O doutor Ricardo certamente vai comparecer, pensou a funcionária. Horas depois, o telefone interno tocou.

– Pois não, doutor.

– Carla, coloque o enterro do Afrânio na minha agenda. E não deixe de enviar duas coroas, uma em nome da firma e outra em meu nome e da Patrícia.

– Já está anotado, doutor.

Mesmo com a quantidade de papéis para despachar, Ricardo não conseguia tirar os olhos do anúncio à sua frente:

Afrânio Borges de Azevedo Peixoto Cunha Bueno.

As famílias Borges, Azevedo, Peixoto e Cunha Bueno convidam para a despedida do querido Afrânio a realizar-se amanhã, dia 25 de abril, às 10 horas, na Capela Crematória do Parque Renascer. Por expresso pedido do pranteado parente não haverá Missa de Sétimo Dia, sendo a cerimônia ecumênica realizada no próprio Parque Renascer.

Na quarta ou quinta leitura, Ricardo começou a lembrar que, realmente, havia mesmo um doutor Afrânio na família. Tinha uma vaga ideia de seu pai comentar de um parente muito importante cujo nome, se não falhava a memória, era Afrânio. É ele, tenho certeza – disse em voz alta ao colocar o anúncio no bolso do paletó para exibi- lo logo à noite na reunião do Rotary.

III

Dona Clarisse, com os seus noventa e seis anos, não perdia uma linha do jornal diário. E ia marcando, com lápis vermelho, os erros encontrados. Que vergonha, dizia para a sua governanta, como é que esses jornalistas escrevem mal. Até na página de cinema Dona Clarisse corrigia nomes de artistas. Imagine só, Elaine: Montgomery Clift escrito com dois tt no final. É demais, gritou. Finalmente – ela sempre deixava para o final – Dona Clarisse chegou à página dos anúncios fúnebres.

– Elaine, minha querida, corre e busca água e meus comprimidos. – O que aconteceu, meu Deus? A senhora está sentindo alguma coisa? – Não, menina, mas olha só quem morreu: o Afrânio.
Mesmo acostumada aos chiliques da madame quando encontrava

notícias de alecimento de amigos íntimos, Elaine constatou que o morto em questão era alguém especial.

– Era muito amigo da senhora?

– Ora, menina, parente. E parente próximo. As famílias eram muito unidas. Os Peixoto de Cataguases então, nem te conto. Tenho de ir ao enterro do Afrânio.

– Mas a senhora sabe que não deve se emocionar, Dona Clarisse. A senhora poderia enviar um cartão. Ou pedir a um neto para representá-la.

– Bobagem. Posso muito bem ir de cadeira de rodas. Aposto que vou encontrar outros na mesma situação. Pegue o telefone e ligue para o Gustavo enviar o motorista às 9 horas. Quero chegar cedo e, com um enterro tão disputado, o trânsito vai estar péssimo.

Elaine pegou o telefone e ligou para o caçula dos quinze filhos da patroa. Enquanto isso, Dona Clarisse fechou os olhos e passou em revista seu guarda roupa. Afinal de contas, ela poderia ser o parente mais idoso no velório. Pouco antes da merecida soneca, um pensamento ainda incomodava a velha senhora: não consigo lembrar- me da cara do Afrânio, deve ser a idade.

IV

Naquela manhã, o deputado foi o primeiro a chegar. Pegou a penca de chaves, experimentou cinco delas e nada. O jeito era esperar pela Glorinha ou ligar para seu chefe-de-gabinete.

– Heraldo, cadê você? Estou aqui na porta do gabinete há mais de uma hora e ninguém aparece para abrir a porta. E já são quase 10 horas da manhã. Assim não dá, estou te aguardando.

– Tudo bem, JB. Mas se você precisar entrar agora é só pedir a chave no gabinete do deputado Teixeirinha. A secretária dele, Marta, chega cedinho e tem a nossa chave.

JB pegou a chave com a moça e entrou. Sentou-se à mesa e procurou o anúncio fúnebre que havia lido na hora do café. Lá estava, em 1/8 de página, a notícia da morte do tal Afrânio. Puxa vida, pensou, esse cara deve valer, no mínimo, uma avenida. Mas o diabo é que só tem rua sem nome nos cafundós, lembrou. JB resolveu esperar pelo Heraldo e aproveitou que havia madrugado para examinar alguns encaminhamentos. Vinte minutos após, o chefe-de-gabinete bate à porta.

– Posso entrar, deputado?

– Claro, estou aqui à sua espera. O negócio é o seguinte: acaba de morrer uma pessoa muito importante e precisamos dar o seu nome em alguma coisa que valha a pena. O homem deve ser parente de, no mínimo, uns três ex-governadores. Veja só o tamanho do anúncio que saiu hoje.

Heraldo pegou o jornal, leu e perguntou quem era, exatamente, o falecido.

– Não interessa. O importante é a gente chegar primeiro com o projeto. Depois, quem desejar – e todos vão querer, tenho certeza – é só apoiar. Mas o projeto é nosso.

– Pode deixar, vou enviar o projeto agora cedo para o legislativo com uma justificativa genérica. Depois, se precisar, eu completo com os dados que devem aparecer amanhã na imprensa. A minha sugestão, se o deputado concordar, é dar o nome do homem a um dos novos viadutos da Linha Verde.

– Ótima ideia, grande Heraldo. Eu sabia que você ia resolver a parada.

– E, já que o deputado vai comparecer ao enterro, vamos enviar uma coroa de flores em seu nome. Vou falar com a Eneida do Cerimonial para também enviar uma em nome da Casa.

V

Afrânio nasceu a poucos quilômetros da capital, num lugarejo chamado Campinho. Sua mãe, Amanda, trabalhava na fazenda dos Teixeira. Fazia de tudo um pouco. A gravidez surgiu logo após a chegada de um colono, conhecido por Bueno. O pai, de fala castelhana, partiu para o mundo antes da chegada do rebento. E assim Afrânio foi criado entre a meninada da fazenda. Seus olhos verdes ganharam a simpatia dos proprietários. Aos dezoito anos, pegou carona numa camionete e foi para Belo Horizonte. Dois fortes motivos: escapar do Tiro de Guerra e do pai da Terezinha, a namorada que engravidara. Na capital, a dificuldade que não conhecera no campo. Foram anos de muita penúria, tendo como domicílio a rodoviária da Feira de Amostras e a Estação da Central. Dinheiro para cigarro e pastéis conseguia como jardineiro ou pedreiro. Tudo sem carteira assinada nem nada. Cada dia uma busca de serviço. Trabalhou em casas de ricaços, lá pelo lado da Praça da Liberdade. Mas Afrânio queria mais. Seu sonho era vencer na vida, comprar um sítio e plantar roça. Sua origem nas plantações dos Teixeira não saia da cabeça. Os anos foram passando e o Afrânio não se aprumava. O máximo de conforto que conseguiu foi um quartinho alugado no Calafate e dormir com o cheiro de adubo de uma fábrica ao lado.

Foi perto de sua casa, há seis anos, que Afrânio conheceu Pedro. Os dois frequentavam o mesmo barzinho e acabaram dividindo a mesma mesa. Pedro, muito mais moço e funcionário da vizinha Andrade Gutierrez, gostava de jogar conversa fora após o expediente. No primeiro encontro, gostou do velho. A conversa era sempre a mesma: o que fariam com o dinheiro se fossem ricos. Pedro, que trabalhava na contabilidade da construtora, sabia – e muito bem o que faziam os ricos. Já Afrânio tinha uma ideia mais romântica do que fazer com o dinheiro que não tinha. A diferença entre os dois é que um tinha certeza que iria continuar funcionário até se aposentar. O outro, mais pobre e sem emprego fixo, imaginava que, um dia, a fortuna lhe bateria à porta. E assim passavam horas. Como sempre, na despedida, Pedro dizia: a conta é minha. Às vezes, Afrânio não aparecia. O amigo, preocupado, dava um pulinho até a casa do parceiro. Afrânio justificava: é só uma dorzinha nos ombros e no pescoço, amanhã estarei bom feito coco.

Um dia, ao chegar no bar, Pedro encontrou seu companheiro na pior. Suando muito e com falta de ar, Afrânio foi direto:

– Pedro, preciso de você. Sei que estou nos finalmente. Hoje de manhã estive lá no posto de saúde e o problema é mesmo com o coração. Não aguento mais a pressão no peito e nas costas.

– Ora, amigo é para todas as horas. Pode contar comigo. Se você está precisando de dinheiro para remédio é só falar. Não tenho muito, mas tenho crédito. E, como você, não tenho família para sustentar. Pode falar, Afrânio.

– Não, não preciso de dinheiro. Nem remédio algum vai dar jeito. E, para dizer a verdade, eu até consegui juntar alguns trocados. Foram mais de cinquenta anos de biscates e trabalho duro. Das nossas conversas tirei uma ideia e quero reparti-la com você.

– Em que posso ser útil, amigo?

– O negócio é o seguinte. Durante toda a minha vida desejei ter o suficiente para voltar onde nasci e lá no Campinho comprar umas terras e plantar. Não consegui. Anos e anos trabalhei em casa de rico. Gostava de ver os carros, as roupas finas, a comida farta e as conversas sobre outros países. Um dia, pensava, serei como esse pessoal. Não deu. Depois que conheci o amigo comecei a ter uma ideia. Se não consegui na vida, quem sabe fico importante depois de morto.

– Ora, Afrânio, você ainda vai viver muito. E, depois de morto, se garantirmos o purgatório já estará bom demais. Pode deixar. Sou capaz de até fazer uma novena para você melhorar e Deus ajudar.

– Não, Pedro, eu já tomei as providências. Mas preciso de um amigo e só tenho você.

– Então…

– Bem, vou contar para você o meu segredo. Só você e mais ninguém poderá saber o que andei fazendo com o dinheiro que consegui economizar nos últimos meses. Pois bem. Comprei um jazigo no Parque Renascer e já paguei a cremação. E, para completar, tenho dinheiro na Caixa para pagar os meus anúncios fúnebres.

– Deixa de brincadeira, Afrânio. Não acredito numa só palavra.

– E tem mais. Você sabe que meu nome é Afrânio. E é mesmo. O Bueno é por causa de um pai que nunca vi e que de bueno só tinha o apelido. Quando cheguei a Belo Horizonte fui tirar meus documentos e acabaram aceitando minha palavra. Fiquei Afrânio Bueno. Mas, para morrer, juntei outros sobrenomes. Tenho tudo aqui neste envelope: números, senhas, notas-fiscais. O amigo não vai ter de gastar nada. Posso contar com você?

– Ora, Afrânio, claro que tudo não passa de mais um lance das nossas conversas. Mas, fique tranquilo e pode contar comigo.

Afrânio levantou-se, abraçou o companheiro e saiu do bar. Pedro, meio assustado com a conversa, tentou dizer que ainda era cedo, mas o homem já ia longe.

Ao abrir a porta de casa, o telefone tocou. Era a dona da pensão onde Afrânio vivia. Contou que Afrânio havia chegado ofegante, sentou-se e fechou os olhos. Ainda tentou acudir, mas o velho já estava morto. E ela havia sido instruída pelo inquilino para, caso alguma coisa acontecesse, ligasse imediatamente para o senhor Pedro.

– O que eu devo fazer, Sr. Pedro?

– Estou indo, aguarde a minha chegada.

Pedro tomou um táxi e mandou tocar para o Calafate. No caminho, abriu o envelope que recebera do Afrânio horas antes. No trajeto, leu e releu quatro vezes. Estava tudo lá. Tudo e muito mais: cartão de banco, senha, recibos, texto e tamanho do anúncio fúnebre e ainda um cheque. Que fazer? Ora, decidiu no momento que o carro parou: vou cumprir minha promessa, fazer todas as vontades do amigo e ponto final.

Foi um corre-corre. Pedro deixou um táxi por conta para toda a longa noite. Ligou para o Parque Renascer e acertou todos os detalhes, incluindo o translado no melhor carro. Foi pessoalmente aos jornais encomendar o anúncio. Pelo adiantado da hora quase não conseguiu publicá-lo. Mas quem ia deixar de atender um anúncio daquele tamanho? Pedro sorria cada vez que tinha de repassar o texto do amigo. Lá pelas onze horas da noite, cansado, mas com todas as providências tomadas, voltou para a casa do Afrânio. Uma hora depois, o carro chegou e ele seguiu para o cemitério. E lá ficou velando o agora importante amigo até a chegada dos primeiros convidados.

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