Sob a batuta da internet: seu poder, suas manhas e suas vacinas.

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Em 1982, comprei o meu primeiro computador. Era um DGT 100, fabricado em Belo Horizonte por uma empresa de três jovens idealistas. A sua memória (hoje em dia seria considerada como uma vaga lembrança) era externa e funcionava com um drive para disquete tamanho família. Vereador à época, levei o aparelho para a minha sala na Câmara. Um sucesso. Todo dia, eram inúmeros os pedidos de amigos, colegas e curiosos para mostrar e fazer funcionar a novidade.

Dito assim, com tantos anos de estrada, até parece que sou, hoje, um expert em computação. Não sou, mas tenho uma boa convivência com o aparato. No entanto, a velocidade dos avanços na área me assusta. A portabilidade, por exemplo, é coisa de doido. O sistema operacional de um smartphone substitui câmera, televisor, gravador, despertador, computador, scanner, comércio, fax, banco, livro, dicionário, agenda, correio, cinema, rádio, e a relação não se esgota. Veja você, esqueci de assinalar que podemos utilizá-lo também para telefonar.

A quantidade de celulares no Brasil também é um espanto. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, temos cerca de 230 milhões de celulares ativos. Se juntarmos computadores, notebooks e tabletes, sobe para 420 milhões de engenhos digitais circulando pelo país afora. E olha que a população no Brasil ainda não emplacou os 210 milhões.

No Brasil real, o sistema é perverso com os mais pobres. Dois exemplos recentes. O primeiro, a distribuição do auxílio emergencial aos informais. Durante o período, a luta daqueles que mais precisam para entender e acessar os aplicativos disponibilizados pelo governo. Mesmo para quem possui um smartphone não é fácil preencher formulários, por mais simples que sejam. A maioria do público com direito aos 600 reais utiliza, no entanto, celulares populares, pré-pagos, com internet de baixa conexão. Agora, a discussão é sobre aulas à distância. Com celular é quase impossível acompanhar o ritmo, é preciso um computador. E, mais grave, a internet não chega a 34% dos alunos da rede pública que fizeram o Enem. O IBGE, com base em sua última pesquisa, divulgou que um em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros.

A era digital no Brasil é muito recente. Até 1991, a conexão só era possível para fins estatais. Em maio de 1995, a rede abriu para o comércio. Mas foi a partir de 2004, com o advento das redes sociais, que ela começa a se popularizar como uma mídia de massa. Foi quando surgiu o Orkut e o Facebook. No ano seguinte, 2005, chegou o Youtube. A partir de 2007, com o lançamento do iPhone no Brasil, o celular tomou conta e começou a substituir várias ações antes exclusivas dos computadores.

Com o isolamento social, a internet tem sido o canal de comunicação de milhões de brasileiros. O programa Greg News, do jornalista Gregório Duvivier, ultrapassa a 1 milhão de visualizações, O noticiário diário da TV247 tem mais de 500 mil inscritos. A excelente cantora Teresa Cristina reuniu, numa roda de samba em 30 de maio, mais de 200 mil pessoas pelo Youtube. São apenas alguns exemplos. Você, certamente, conhece outros.

Mas nem só o entretenimento e o jornalismo correm nas veias abertas da internet. Nos últimos dias, manifestos pró-democracia e suprapartidários ganharam as redes. Unindo adversários ideológicos, eles buscam dar um basta a um governo autoritário que veste o manto do fascismo e prega, abertamente em praça pública, a volta da ditadura militar. Seus ataques aos poderes constituídos e suas ações contra a democracia e o estado de direito, atingiram um ponto que a maioria da população brasileira não suporta mais. E o desmando acontece no momento em que o Brasil vive a sua pior crise na saúde e na economia. Com um poder executivo dominado por militares de fala golpista, o nosso país vive momentos dramáticos. Não há nenhuma crise institucional entre os poderes. O que há, é uma tentativa de criar uma situação de conflito da parte do poder executivo. As forças armadas, como querem os bolsonaristas, não podem exercer o papel de poder moderador porque elas não são um poder. E nem a constituição permite.

Entre outros, três movimentos democráticos ganham atenção e adesão pelos canais da internet. Um, assinado por mais de 600 juristas brasileiros, afirma que o presidente “agride de todas as formas os Poderes constitucionais das unidades da Federação, descumpre leis e decisões judiciais e o país é jogado ao precipício de uma crise política quando já imerso no abismo de uma pandemia que encontra no Brasil seu ambiente mais favorável, mercê de uma ação genocida do presidente da República”. E o manifesto termina: “Todos nós acreditamos que é preciso dar um BASTA a esta noite de terror com que se está pretendendo cobrir este país. Não nos omitiremos”.

Outro movimento, surgiu espontaneamente após uma pesquisa divulgada pelo DataFolha. Nela, 70% rejeitam aproximação com o Centrão, 70% acham Bolsonaro Péssimo/Ruim/Regular, 70% apoiam as medidas de isolamento e 70% sabem que a terra é redonda. Assim nasceu o “Somos 70%”.

O terceiro, “Estamos Juntos”, já tem mais de 258 mil assinaturas e tem como referência o movimento Diretas Já, que uniu velhas disputas partidárias em busca de um bem comum. “Somos muitos, estamos juntos, e formamos uma frente ampla e diversa, suprapartidária, que valoriza a política e trabalha para que a sociedade responda de maneira mais madura, consciente e eficaz aos crimes e desmandos de qualquer governo”, diz o documento. 

Mas a internet também tem seu fel. Para os incautos, ela oferece as fake news. Um levantamento da Avaaz, plataforma de mobilização online, revelou que os brasileiros são os que mais acreditam em fake news no mundo. Segundo o estudo, 7 em cada 10 brasileiros se informam pelas redes sociais e 62% já acreditaram em pelo menos uma notícia falsa.

Ao contrário do coronavírus, que ainda não tem remédio provado e aprovado, as fake news podem ser tratadas. Empresas jornalísticas, agências e ferramentas inteligentes ajudam a checar se uma notícia é verdadeira ou não. Cito alguns dos sites que desmentem esta praga da internet que, pelo menos no Brasil, tem nome, sobrenome e endereço.

O Fato ou Fake (g1.globo.com/fato-ou-fake) é uma iniciativa do Grupo Globo para verificar conteúdo suspeito nas notícias mais compartilhadas da internet. A apuração é feita em conjunto por jornalistas da CBN, Época, Extra, G1, TV Globo, GloboNews, Jornal O Globo e Valor Econômico.

O Comprova (projetocomprova.com.br) é um projeto de checagem de fatos que conta com o trabalho em equipe de jornalistas de 24 diferentes veículos.

O Truco é uma iniciativa de checagem de fatos da Agência Pública (apublica.org), agência de jornalismo investigativo fundada por mulheres em 2011. 

A Aos Fatos (aosfatos.org) é uma agência especializada na checagem de fatos também membro da IFCN e contratada pelo Facebook.

O Fake Check – Detector de Fake News (nilc-fakenews.herokuapp.com) é uma plataforma criada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) para checar notícias falsas.

O Boatos (www.boatos.org) é um site criado pelo jornalista Edgard Matsuki em 2013. Seu objetivo é publicar verificações de notícias populares na web.

O E-Farsas (www.e-farsas.com) é o mais antigo serviço de verificação de notícias falsas, lançado em 2001. Segundo o portal, a iniciativa surgiu “com a intenção de usar a própria internet para desmistificar as histórias que nela circulam”

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Abertura lenta e gradual. Triste memória.

Como em outras cidades brasileiras, Belo Horizonte decidiu promover uma reabertura gradual do comércio. Em princípio, nada contra. Pelo que temos observado, a prefeitura de Belo Horizonte tem se comportado de acordo com as orientações da Organização Mundial da Saúde e dos cientistas. Pelo menos, até agora.

Além das máscaras, álcool gel e higienização com água e sabão, um processo já comprovado para diminuir a velocidade de transmissão do vírus é o distanciamento social. Esta estratégia independe das decisões governamentais e pode ser adotada até o último suspiro da doença entre nós. Pode e deve. Principalmente no Brasil, onde há tão poucos testes e não sabemos quem e quantos são os infectados. Segundo o Ministério da Saúde, a meta do governo federal é oferecer 46,2 milhões de testes até dezembro. Dezembro?! 

Se você puder, fique em casa. Nem todos podemos ficar em casa, é verdade. Com a reabertura de alguns setores da economia, muitos brasileiros terão de pegar seus carros, seus ônibus ou caminhar até seus postos de trabalho. É legítimo o nosso medo das consequências de uma recessão global. Com o desemprego e o aumento da pobreza, a saúde é afetada. A Organização Mundial do Comércio já anuncia que esta será a recessão mais profunda da nossa existência. Não só aqui, mas em todo o planeta.

O distanciamento social não deve ser compreendido como isolar em casa os idosos e os portadores de doenças. Tal medida, que leva o nome de isolamento vertical, chegou a ser defendida, primeiro pelo Trump, e depois pelo Bolsonaro. Mais grave foi a frase do presidente do Brasil: “Cada família deve colocar o vovô e a vovó lá no canto e é isso”. Se assim fosse, ficaria subentendido que os mais jovens e aqueles sem doenças graves, poderiam circular normalmente. Eles poderiam ser infectados e levar o vírus para a casa. Ou alguém considera possível isolar todos os vulneráveis? Só de idosos, somos 28 milhões.

Por falar em idosos e distanciamento social, vamos ver o que o Canadá está fazendo pela sua população menos jovem. O Ministério dos Idosos (sim, lá tem uma pasta só para cuidar da terceira idade) acaba de anunciar uma nova ajuda de 360 dólares canadenses (1.440 reais) para cada um de seus 6,7 milhões de idosos com média e baixa renda. Em março, o governo já havia transferido 375 dólares para os idosos solteiros e 510 para os casados. O investimento no programa foi, até agora, de 3,8 bilhões de dólares (cerca de 22.400 bilhões de reais). Para a ministra Deb Schulte, a pandemia afetou as finanças dos idosos, a saúde mental e as redes sociais de relacionamento de amigos e parentes. Ela ainda ressaltou: “os idosos construíram este grande país, foram eles que nos criaram e cuidaram de nós, e agora faremos tudo o que pudermos para cuidar deles” 

Já para todos os trabalhadores canadenses que perderam sua renda como resultado do COVID-19, o governo está fornecendo 2,8 mil dólares canadenses (cerca de 10 mil reais) por 4 meses. E não importa se estava trabalhando em período integral, por contrato ou se era autônomo. 

Mas, por que coloquei no título que tenho uma triste memória de uma abertura lenta e gradual? 

Pela lei norte-americana, documentos do governo são liberados a partir de 30 anos da data de sua classificação. Em 2015, o pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, encontrou na internet um memorando do diretor da CIA, William Colby, para o secretário de Estado Henry Kissinger, com data de 11 de abril de 1974. Nele, a transcrição de um documento, no qual o general Ernesto Geisel, recém empossado presidente da República, reivindica para o Palácio do Planalto, na figura do general João Batista Figueiredo, na época chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), a responsabilidade por decidir sobre a execução de presos pela ditadura. A reunião serviu também para que o general Milton Tavares informasse ao Geisel da execução sumária de 104 pessoas feitas pelo Centro de Informações do Exército e para que o Figueiredo recomendasse a manutenção de tal política.

Durante o governo Geisel, ocorreram 53 assassinatos comprovados, entre eles o do jornalista Vladimir Herzog (1975) e do operário Manuel Fiel Filho (1976). Uma informação que não consta do relatório da CIA foi a decisão de Geisel, apoiado pelo Figueiredo, de que os mortos pelo regime militar a partir de 1974 deveriam ser dados como desaparecidos.

Assim, quando escuto a frase título, a minha triste lembrança vai para quando o Brasil era governado pelo general Geisel, elogiado por muitos como “o governo da abertura lenta e gradual”.

Como aconteceu naquele encontro entre generais em 1974, daqui a 30 anos iremos encontrar na internet documentos da CIA com os diálogos ocorridos nos gabinetes atuais. Ou antes, como aconteceu com a reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Nela, entre outros absurdos, Bolsonaro pediu ao então ministro Sérgio Moro assinar uma portaria de armamento para a população ir contra a quarentena. E o Moro assinou.

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O social do isolamento

Banco de alimentos em parque de Toronto

No Aurélio, legado é o valor ou objeto que alguém deixa a outrem em testamento. A palavra, que vem do latim, tem, no entanto, outros significados além de sua apropriação jurídica. Pode ser alguém que vai em missão especial para representar o Papa. Ou mesmo um significado imaterial, como o legado intelectual que herdamos dos filósofos e pensadores do passado.

O termo tem sido muito utilizado atualmente. Uma busca rápida pela internet leva-nos à inúmeras páginas tratando do “legado da pandemia provocada pelo coronavírus”. Confesso que não consigo encontrar nenhum legado positivo numa doença que tem infectado milhões em todo o mundo e matado centenas de milhares de pessoas. Há males que vem para o bem é um conhecido provérbio que se refere a eventos que, apesar de ruins, podem trazer bons resultados ou levar a consequências favoráveis. Mas como encontrar algo de bom neste vírus tão traiçoeiro?

Ainda estamos em plena pandemia. Os números são assustadores e não sabemos o que vem pela frente. Estudiosos sugerem estratégias para diminuir ou retardar o seu avanço e cientistas de todo o mundo pesquisam remédios e vacinas. Mesmo aos países que estão reabrindo sua atividade econômica, a recomendação é que, quem puder, fique em casa e só saia em caso de necessidade. 

Hans Kluge, diretor da OMS na Europa, alertou para a possibilidade de uma segunda onda, ainda mais mortal. Para ilustrar sua preocupação, relembrou da epidemia de gripe espanhola, entre os anos 1912 e 1920, quando apenas em sua segunda onda vitimou mais de 50 milhões de pessoas.

No entanto, um assunto que começa a tomar corpo na internet diz respeito ao pós-coronavírus. O jornal espanhol El País ouviu especialistas da inovação e elencou três prováveis tendências de comportamento num planeta após o Codiv-19:

Educação
A digitalização da educação nas escolas e universidades, que vinha em alta, entrará em uma curva de aceleração sem precedentes. Não haverá outra opção para as instituições a não ser a adaptação de todos os processos e atividades a ambientes a distância.

Saúde e Bem-Estar
Massificação de um estilo de vida saudável, baseado em autorresponsabilidade e telemedicina, graças a dispositivos digitais e software de monitoramento e consulta para fazer diagnósticos precoces e prescrever medicamentos.

Erosão do individualismo
Está prevista uma transformação de modelos sociais e políticos baseados no sucesso e nas capacidades individuais de acessar recursos, para dar destaque às fórmulas universalistas do passado, revisitando-as para enquadrá-las com uma identidade e mecanismos da comunidade que diminuem as desigualdades.

Em artigo publicado na UOL, o professor Fábio Mariano Borges, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, acrescentou outras tendências. Entre elas, a mudança nas prioridades. A população está pensando no que realmente é importante para ela. O lar passou a ser considerado um “espaço seguro”. A chamada “internet das coisas” passará a ser a “internet dos organismos”. Muitos governos estão usando os celulares das pessoas para monitorar seus movimentos. E, finalmente, o novo design pós-coronavírus será centrado na vida. A pandemia acelerou a mudança do “eu” para “nós”. O senso de comunidade recebeu um impulso enorme com o surgimento de um conceito que fala sobre cuidar de seus vizinhos e de parentes mais distantes. As pessoas passaram a exigir mais atenção.

Na velocidade da vida atual, as tendências previstas para quando o coronavírus der o seu último suspiro já começam a brotar. Em várias partes do mundo, as relações humanas desenham o futuro próximo. Como escreveu o escritor Thales Guaracy no portal Poder360, “assim como um vírus capaz de rodar o mundo, deve haver um círculo maior de solidariedade, e uma pressão por políticas que reduzam os efeitos negativos do liberalismo selvagem em escala planetária, como o crescimento da miséria, a concentração de renda e a extinção do emprego”.

Um dos principais produtos de exportação de Portugal durante a pandemia tem sido a solidariedade. Estudantes universitários de Lisboa, assim que as aulas foram suspensas, criaram um movimento denominado “Vizinho Amigo”. Como objetivo, ajudar os grupos de risco e promover o voluntariado entre as faixas etárias mais novas. Na prática, cerca de 6 mil jovens, entre 20 e 30 anos, ajudam nas compras de supermercados e farmácias de quem não pode ou não deve sair de casa. Cada voluntário atua dentro da área de sua residência.

Como não poderia deixar de ser, jovens voluntários brasileiros aderiram ao projeto português e estabeleceram uma parceria com o Vizinho Amigo utilizando a plataforma de voluntariado Atados. Quem precisar de ajuda ou desejar participar do projeto, é só entrar no site (atados.com.br/vizinhoamigo), preencher um formulário ou enviar um WhatsApp. 

No Canadá, vários grupos de ajuda foram criados. Em Kingston, uma cidade de 150 mil habitantes às margens do Rio São Lourenço, tem um serviço de ligações telefônicas chamado Vizinho para Vizinho. Quem necessita de ajuda se inscreve e todos os dias um voluntário liga para saber como ele ou ela está passando e se precisa de alguma coisa. O projeto é uma iniciativa da Sociedade São Vicente de Paulo e tem o apoio do Rotary Club local.

Em Toronto, também no Canadá, a solidariedade mora ao lado. Em inúmeras áreas da cidade, os vizinhos se organizam para ajuda mútua. Na região de Beaches, um brasileiro canadense criou, em março, o movimento Minha Vizinhança. Com mais de 30 famílias, cada um ajuda o outro naquilo que for preciso. Pode ser uma compra coletiva no supermercado, uma pesquisa de remédio nas farmácias ou uma troca de receita pelo celular. Para atender aos mais necessitados, o grupo transformou as minibibliotecas, que existem no parque do bairro, em bancos de alimentos. Mesmo com a reabertura gradual do comércio na cidade, os moradores já decidiram manter o projeto. Fica o exemplo.

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Cadê a campanha educativa do governo federal?

Campanha do governo federal lançada em março e suspensa pela justiça

Outro dia, resolvi fazer uma coisa que não faço há anos. Se é que já fiz alguma vez na vida. Peguei um bom livro (no caso, As Lágrimas da Girafa) e sentei-me à frente do televisor. Escolhi um canal e lá fiquei. Lendo e espiando de rabo de olho os comerciais. Não, não é por ainda existir no sangue o que sobrou do publicitário que já fui. O meu interesse televisivo era detectar a presença de campanhas educativas sobre a pandemia. Em toda uma tarde, não encontrei nenhuma. À noite, apareceram dois comerciais de empresas privadas com informações educativas sobre o coronavírus.

O que eu estava mesmo querendo saber é se o governo federal estava ou não veiculando uma campanha educativa sobre a pandemia. Não vi. E olha que o governo federal sempre foi pródigo em campanhas educativas. Quem não se lembra do Zé Gotinha, personagem criado pelo artista plástico Darlan Rosa? Mas, e agora com a pandemia do coronavírus?

Fui pesquisar no site do Ministério da Saúde e lá encontrei várias peças de uma campanha educativa sobre o coronavírus. Mas, cadê? Só se o governo está veiculando em seus próprios canais, que poucos acessam. A Empresa Brasil de Comunicação tem 7 emissoras de rádio, um canal de TV e duas agências de notícias. A campanha não deveria estar em todos os canais abertos de TV e em todas as emissoras de rádio e jornais pelo Brasil afora? 

Uma campanha nacional, com as informações necessárias e recomendadas  pela Organização Mundial da Saúde, já deveria estar no ar pelo menos desde 26 de fevereiro. Nesta data, a primeira confirmação da doença entre nós. Ou, na pior das hipóteses, desde o dia 11 de março, quando a OMS caracterizou a doença como pandemia. Naquele dia, eram 118 mil casos em 114 países e mais de 4 mil mortos. 

A veiculação de uma campanha educativa em todos os veículos de comunicação social é imprescindível agora, com os números subindo, e também o será quando chegarmos na tão esperada curva. Quando acontecer o relaxamento das medidas de isolamento, a campanha deverá insistir nos métodos de prevenção e pedir para, quem puder, permanecer em casa. 

O Ministério da Saúde, para piorar ainda mais a situação, resolveu iniciar o processo de  licitação para escolher uma nova agência de publicidade. Muda ministro, muda equipe, muda tudo no momento mais grave que a nação está vivendo. E, a cada mudança, novas orientações, outros planos.

Ao contrário de uma campanha educativa nacional, o que estamos assistindo é uma ação descoordenada, que não só embrutece como deixa a população brasileira totalmente desavisada e desinformada.

Além da falta de uma comunicação honesta, o Brasil vive uma das suas mais graves crises políticas. Entre outras, com um ministro pedindo a prisão dos membros do STF e outro acusando a China de espalhar o vírus. Na soma da balbúrdia, um presidente que defende um remédio sem eficácia comprovada, interfere na Polícia Federal e provoca reuniões públicas em total desacordo com as orientações sanitárias.

Enquanto isso, a maioria dos países tem investido pesado na comunicação, veiculando campanhas de orientação com base na ciência e nas experiências bem sucedidas em outras plagas. Em todo o mundo, presidentes e primeiros-ministros comandam pessoalmente a defesa de seus governados no combate à pandemia. Diariamente, eles promovem coletiva de imprensa para atualizar e orientar as medidas.

Como também sou cidadão canadense, acompanho os esforços do governo e de sua população no combate ao coronavírus. Com um investimento de trinta milhões de dólares, o governo federal lançou uma nova campanha, pedindo o distanciamento social e o cuidado com a higiene. Da mesma forma, algumas regiões do Canadá lançaram suas próprias campanhas. Ontário, cuja capital é Toronto, também acaba de colocar no ar uma nova campanha publicitária, de 10 milhões de dólares, destinada a aumentar a conscientização do público sobre o COVID-19 e manter os moradores informados sobre os últimos desenvolvimentos relacionados com o surto.

A História não perdoa. Mas ensina.

Todo e qualquer movimento dos nossos governantes durante a pandemia que estamos vivendo será motivo de estudos, pesquisas e registros nos livros de História. Seus discursos, suas ações e omissões estão gravados, anotados e na memória de muitos. Hoje, com a tecnologia que temos, não escapa nada. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, há 230 milhões de celulares ativos no país. Ou seja, raro aquele que não tem uma câmera e um gravador a tiracolo.

Em 10 de março passado, o Brasil contava com 34 infectados pelo coronavírus e nenhuma morte. O atual ocupante do Palácio do Planalto declarou: “o momento é uma pequena crise, a questão do coronavírus é muito mais fantasia”. No dia 12 de maio, contávamos com 177.589 pessoas infectadas e 12.400 mortos. Mesmo assim, o presidente da República declarou: “O povo tem de voltar a trabalhar. Quem não quiser trabalhar, que fique em casa, porra. Ponto final”.

Não vou aqui relatar a situação do nosso país face à pandemia. Todos estamos acompanhando – uns mais, outros menos – do que anda ocorrendo nas filas, nos hospitais, nos cemitérios. Da mesma forma, não é necessário lembrar que a doença ainda não tem remédio e muito menos vacina. Uma das estratégias tem sido implantar algum tipo de isolamento social para, segundo os especialistas, provocar a diminuição do contágio e, como seu maior benefício, não aumentar a procura por leitos e CTIs nos hospitais. Em boa parte do Brasil, os hospitais estão com quase todos os seus leitos ocupados. Como sabemos, além da pandemia pelo coronavírus, existem inúmeras outras doenças que necessitam de cuidados hospitalares e tratamentos intensivos.

Já que o tema é a História, vamos voltar aos tempos da gripe “espanhola”. O espanhola está entre aspas porque o primeiro caso da epidemia foi detectado, não na Espanha, mas em um quartel de Kansas, nos EUA. Aliás, a Organização Mundial de Saúde recomenda que as novas doenças não façam referências a lugares, animais ou pessoas para evitar o preconceito e a estigmatização.

Crédito: as informações sobre a pandemia de 1918 foram colhidas, em boa parte, do trabalho de pesquisa desenvolvido pela professora Heloisa Starling, historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais. O trabalho me foi enviado pela minha prima e amiga Lila Menin.

Entre 1918 e 1920, um quarto da população do mundo foi infectada por uma pandemia que matou entre 30 a 50 milhões de pessoas. Os países que mais sofreram foram a Índia, com cerca de 17 milhões de mortos, a China com 5 milhões e o Irã com 2 milhões. Na Europa, alguns exemplos: 400 mil mortos na Alemanha, 120 mil em Portugal e 250 mil no Reino Unido. Nos EUA, morreram entre 500 mil a 675 mil pessoas. 

O número de óbitos poderia ter sido muito menor se os governantes não tivessem ignorado uma recomendação de Arthur Newsholme, um dos maiores especialistas do mundo em saúde pública. Em artigo publicado, ele aconselhava as pessoas a ficar em casa e a evitar grandes reuniões.

O vírus chegou ao Brasil a bordo de um navio vindo da Europa, que fez escalas em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Assim como algumas autoridades do Brasil atual, a doença foi minimizada, sendo considerada apenas mais uma gripe. No entanto, vários países já contabilizavam milhares de mortos. Um jornal da época publicou: “A epidemia de gripe espanhola, apesar de grande número de doentes, se tem revelado muito benigna. Os casos de óbito são devidos a complicações, E tem se verificado que complicações só aparecem nos indivíduos depauperados”. 

O diretor nacional de Saúde Pública Carlos Seidl, cargo equivalente a Ministro da Saúde, chegou a declarar que a gripe era benigna e que tudo não passava de “histeria da imprensa”, que devia ser censurada. Segundo ele, “a imprensa incutia crescente pânico na sociedade carioca e ameaçava a preservação da ordem pública”. Uma semana depois, quando o Rio contava com mais de 800 mortes, ele foi demitido pelo presidente Wenceslau Braz, que nomeou Theophilo Torres. Como o novo diretor não estava conseguindo combater a epidemia, o presidente convidou um mineiro de Oliveira, Carlos Chagas. 

Carlos Chagas, mesmo doente, criou um serviço especial de postos de atendimento, inaugurou cinco hospitais emergenciais e publicou cartazes e panfletos de alerta para a  população com instruções para o combate à epidemia. As pessoas não deveriam sair de casa, lavar sempre as mãos e evitar colocá-las na boca eram algumas das recomendações de Chagas.

Mesmo com a subnotificação, a epidemia matou pelo menos 40 mil pessoas no Brasil, sendo 15 mil no Rio de Janeiro. 

 E em Belo Horizonte?

Em sua pesquisa, a historiadora Heloisa Starling investigou a passagem da gripe “espanhola” por Belo Horizonte. A cidade tinha apenas 20 anos de idade e uma população em torno de 50 mil habitantes. A epidemia deixou 292 mortos na capital mineira, um número relativamente pequeno se comparado a outras cidades como São Paulo e Rio. Segundo a historiadora, “mesmo que a gente assuma que houve subnotificação e triplique esse número, ainda assim fica claro que Belo Horizonte conseguiu um controle muito bom da epidemia”. 

O que foi que Belo Horizonte fez que os outros não fizeram? No início, ela agiu como as demais capitais, acreditando que a gripe não chegaria na cidade e, se chegasse, seria um problema menor. “Por ser uma cidade nova, com ótimas condições sanitárias, as epidemias que costumavam acontecer no país, como cólera e febre amarela, não ocorriam em Belo Horizonte”, explica a pesquisadora. Mas, o vírus chegou pelo trem da Central. Imediatamente, o prefeito Vaz de Mello convocou seu Diretor de Higiene (o que seria hoje Secretário da Saúde), Samuel Libânio, para tomar as providências necessárias. 

A primeira medida de Samuel Libânio foi fechar o comércio e suspender as aulas. Com os cafés e bares fechados, os comerciantes reclamaram. As medidas foram mantidas e as pessoas ficaram em casa. A população, assustada com as notícias do que estava acontecendo no Rio, aprovou o isolamento. Para atender aos mais necessitados, empresas, igrejas e comunidade passaram a fazer doações de alimentos e a Faculdade de Medicina se transformou num hospital com 120 leitos para os pobres.

Em reconhecimento ao trabalho que desenvolveu em Belo Horizonte, o médico, professor, sanitarista e pesquisador Samuel Libânio foi convidado para dirigir o Serviço Nacional de Tuberculose e, mais tarde foi, por duas vezes, Secretário de Saúde e Assistência do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Samuel foi ainda fundador e diretor do Sanatório Belo Horizonte, patrono da cadeira 41 da Academia Mineira de Medicina e membro da Academia Brasileira de Medicina.

Uma dica de leitura sobre a gripe de 1918 é o Chão de Ferro, terceiro volume das memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava.

Como epílogo, não resisto e revelo que o celebrado Samuel Libânio, citado pela historiadora Heloisa Starling, era irmão do meu avô materno, Ismael Libânio.

E os trabalhadores dos serviços essenciais?

Ainda não sabemos quando teremos o pico e a esperada curva do COVID-19. As autoridades sanitárias e de saúde em todo o mundo garantem que o isolamento social, a quarentena e o bloqueio total (lockdown) são os remédios mais indicados para segurar o número de contágio. Alguns países estão pagando caro por não ter adotado a estratégia em tempo hábil. Os EUA e o Reino Unido são dois exemplos. Outros, com o isolamento, conseguiram importantes vitórias no combate ao vírus, como a Coreia do Sul e a Nova Zelândia.

A crise financeira, provocada pelo isolamento imposto pelo novo coronavírus, é terrível para os empresários e pior ainda para os trabalhadores. Os desempregados, trabalhadores informais e outros estão lá nas absurdas filas criadas pela Caixa (vide alternativas no texto anterior) para o auxílio emergencial por três meses.

Alguns poucos setores da economia, no entanto, estão faturando neste período. Entre eles, as farmácias, mercearias e supermercados. As primeiras registraram, no último mês, um aumento no faturamento na ordem de 50%. Com relação aos supermercados, não consegui os últimos dados. Certamente superior ao das farmácias.

Já imaginou quantas pessoas se alimentavam fora antes da pandemia? Hoje, com os restaurantes e bares fechados, o único caminho tem sido apelar para as compras nos supermercados e cozinhar em casa. O supermercado aqui perto coloca álcool gel à disposição dos fregueses e desinfeta o carrinho. Poderia dar a mesma atenção a seus funcionários, em especial ao pessoal que fica no caixa. Apesar da utilização da máscara, eles têm um contato muito próximo com os usuários e ainda, sem luvas, recebem o dinheiro diretamente das mãos dos fregueses. 

Outro dia, perguntei a uma funcionária se ela estaria recebendo um extra por exercer uma atividade tão exposta ao coronavírus. Ela riu e respondeu: você acha que eles se preocupam? Esperam até um agradecimento por manter o nosso emprego. Não resisti e enviei uma mensagem para a Assessoria de Comunicação da ABRAS – Associação Brasileira de Supermercados, com cópia para o Sindicato dos Comerciários. Nela, coloquei algumas considerações e perguntei sobre a criação de um bônus para os funcionários de supermercados que lidam diretamente com o público. Ou, melhor ainda, um adicional de insalubridade como recebe o pessoal que trabalha na saúde. Recebi apenas um retorno, perguntando se eu era jornalista e informando que a Assessoria de Comunicação Social só trata com a imprensa.

No mundo, cujas pessoas estão morrendo como aqui no Brasil (ontem chegamos a 10.627 falecimentos com 155.939 infectados com o coronavírus), vários países já reconhecem a exposição ao perigo dos trabalhadores que estão na linha de frente. Nos EUA, cada trabalhador dos setores essenciais irá receber um bônus no final do ano, que varia de 5 a 25 mil dólares. O governo francês, por sua vez, decidiu que as empresas devem recompensar os empregados dos serviços indispensáveis com uma gratificação de mil euros, em torno de R$ 5,5 mil. O bônus deverá ser pago até no máximo 30 de junho.

Já o Canadá resolveu aumentar o salário mínimo daqueles que trabalham em serviços essenciais durante a pandemia. Para tanto, o governo canadense já reservou US$ 3 bilhões para aumentar a remuneração dos trabalhadores essenciais que ganham menos de US$ 1,8 mil por mês, cerca de 10 mil reais. Há dois dias, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, divulgou o seguinte comunicado: “Os trabalhadores estão arriscando sua saúde para nos fornecer cuidados e serviços essenciais, e precisamos garantir que sejam pagos adequadamente pelo trabalho que realizam todos os dias. Estamos intensificando e trabalhando com as províncias para dar um aumento salarial tão necessário aos canadenses que estão ajudando a manter nosso país e nossa economia durante este período difícil”.

No mínimo, fica o exemplo.

A propósito das filas ou, de propósito, as filas

Foto: Divulgação Procon/AM

Antes de entrar na fila, uma pergunta que me acompanha há muito tempo. Por que os serviços público para os mais pobres sempre são os piores? Exemplos não faltam. O transporte coletivo que serve a periferia é de pior qualidade, com veículos sujos, mais velhos. E os poucos abrigos de ônibus estão sempre precisando reparos, que nunca chegam. As ruas nos bairros populares são abandonadas, muitas sem calçamento. As instalações das filiais de supermercados não merecem a mesma atenção daquelas localizadas em bairros da classe A e B. As comunidades mais carentes recebem menos benefícios, como água, luz e esgoto. E o poder público só aparece quando líderes comunitários reclamam e chamam a imprensa para denunciar o descaso. Não preciso desenhar, basta assistir ao telejornal local de hoje.

Quando fui vereador em Belo Horizonte, estive certa feita na Cemig para atender a um pedido de eleitor. Sua rua não tinha iluminação pública. Fui falar com o diretor de Distribuição, meu conhecido. Expliquei a situação e o receio dos moradores com a falta de luz na rua. Ele, o diretor da Cemig, sabia que meu trabalho, mesmo tendo sido eleito pela classe média, era junto às populações mais carentes. O executivo pegou uma pasta e mostrou a quantidade de pedidos. Sinto muito, vereador, mas seu pedido vai ter de entrar na fila, disse ele. Depois de desfilar uma série de argumentos, e sempre sendo contestado pelas dificuldades técnicas em atender às inúmeras solicitações, senti que que tinha de revelar quem havia pedido a iluminação. No caso, o meu eleitor era dono de uma das maiores construtoras do Brasil. Ao ouvir o nome do empresário, o diretor da Cemig pediu para eu deixar o pedido com ele. Você já sabe o resultado, né? Menos de um mês depois, a rua do bairro Gutierrez já contava com a sua iluminação pública.

Temos testemunhado o que anda acontecendo com o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600. Um absurdo. Milhares de pessoas, uma ao lado da outra em plena pandemia e isolamento social. O presidente da Caixa afirmou que as filas “são inevitáveis, não há nenhuma possibilidade de se pagar 50 milhões de pessoas e não existir fila”. Será que não? Não poderia aplicar um outro plano, mais humano e menos criminoso do que juntar milhares de pessoas? A única solução (?) encontrada pela Caixa foi abrir suas agências duas horas antes. E as filas, diminuíram? Claro que não.

A Caixa Econômica Federal tem em torno de 3.500 agências em todo o Brasil. Como ela faz parte do sistema único de compensação bancária, o auxílio emergencial poderia ser feito através de todas as agências de todos os bancos. Somados, os quatro maiores bancos do país (BB, Bradesco, Itaú e Santander) possuem cerca de 16.000 agências. Impossível? Problemas técnicos? É só ter vontade política. Nos EUA, o que eles fizeram para pagar milhões de cidadãos? Enviaram cheques. E nada de fila. O que não podemos é aumentar ainda mais o número de infectados e de mortos. Caso contrário, a Caixa Econômica Federal vai ter de colocar em seu passivo milhares de mortes. Ou alguém duvida que o coronavírus está circulando pelas filas. E, mais grave, quem são os brasileiros que estão na fila? Exatamente aqueles que mais necessitam da proteção do Estado.

Ainda sobre o auxílio emergencial. Você, leitor, já preencheu cadastro ou outro requerimento pelo celular? Eu já e tive a maior dificuldade. Colocar os dados nos pequenos espaços, ter cuidado para não errar ou desconectar. Enfim, não é fácil. Agora, imagine fazer o mesmo procedimento em um celular mais modesto e com uma conexão de baixa qualidade. É o que tem acontecido com milhões de brasileiros. O anúncio do governo, para a população mais carente utilizar a internet e não entrar na fila para informações é, no mínimo, maldoso. A maioria não tem computador em casa e muitos têm dificuldades tanto com a tecnologia como de letramento. No celular é mais difícil ainda. Em nosso país, 71 milhões de brasileiros acessam a internet somente pelo celular. E as redes para as contas dos pré pago têm problemas de sinal. Pega aqui, não pega ali. Como você, eu também assisti às entrevistas. Muita dificuldade, tanto no acesso como na própria utilização do celular.

Parece até que os nossos governantes vivem em outro país. Ou outro planeta.

Achegamento literário

Em 1971, o estadunidense Michael Stern Har começou a digitar diversos textos. Entre eles, a Declaração de Independência de seu país e algumas obras de Homero, Shakespeare e Mark Twain. E assim nasceu o livro eletrônico. Ou e-book, como acabou ficando conhecido.

Eu sempre gostei de livros. Mais de ler do que colecionar volumes. Mesmo assim, durante anos mantive uma boa biblioteca. Na mudança para Portugal, fui obrigado a desfazer de muitos livros. A partir deste momento, comecei a esvaziar minhas estantes. Comprava, lia e passava adiante. Na volta ao Brasil, muitos livros ficaram para trás. Quando mudei para o Canadá, aconteceu o mesmo. Hoje, tenho apenas  algumas obras selecionadas. Mas continuo a manter uma estreita relação com o livro impresso. Tanto assim, que participo com os meus contos, há dezoito anos, de um projeto que já distribuiu, gratuitamente e em praça públicas, mais de 350 mil exemplares. O Livro de Graça na Praça nasceu por iniciativa do professor José Mauro da Costa e tem como finalidade democratizar e difundir o gosto pela leitura e promover a cultura literária. Em setembro deste ano, lá na Praça de Santa Tereza, em Belo Horizonte, teremos mais uma edição. O evento Livro de Graça na Praça já aconteceu, além de anualmente em BH, nas praças de Manaus, Uberaba, Uberlândia, Crato, São Lourenço e Toronto (Canadá).

O assunto em pauta, no entanto, não é o livro impresso. É aquele que o Michael Stern Har bolou em 1971, o e-book. Alias, foi ele quem fundou o Projeto Gutenberg, o maior e mais antigo produtor de livros eletrônicos do mundo.

Há vinte anos, um velho amigo jornalista dizia que os jornais impressos iriam acabar com o advento da internet. Não acabou. Da mesma forma que, quando surgiu a televisão, diziam que as rádios iriam desaparecer. Não aconteceu. No entanto, todos os jornais e todas as emissoras estão também na internet.

Em março do ano passado, a Câmara Brasileira do Livro publicou em seu site que os livros digitais não decolaram. E uma coluna no jornal Estado de Minas replicou, destacando que os e-books se tornaram um fracasso retumbante.

Pois é. Não tenho dados recentes, mas tudo leva a crer que os livros eletrônicos estão levando a melhor. Outro dia, o frei Betto me falou do lançamento de seu novo livro, O Diabo na Corte: Leitura Crítica do Brasil Atual. Curioso, comprei o livro no formato digital e li no mesmo dia. E mais barato do que a edição impressa que viria pelos correios. Em março, comprei um livro impresso para dar de presente e demorou 25 dias para chegar.

Nos tempos atuais de distanciamento social, inúmeras editoras e aplicativos estão oferecendo milhares de e-books totalmente gratuitos. Entre os sites: Amazon, Biblioteca Mundial Digital, eBooks Brasil, Livraria Cultura, Saraiva e Projeto Gutenberg. Este último oferece, de graça, mais de 38 mil livros eletrônicos em português. Na Biblioteca Mundial, você pode pesquisar e fazer o download em pdf de 19.147 itens sobre 193 países entre 8000 a.C. e o ano 2000. 

Embora muitos livros eletrônicos possam ser lidos no computador, celular ou tablete, o ideal mesmo é ter um leitor de livro. No mercado brasileiro existem vários. Entre os melhores estão o Kindle (da Amazon e pesa 161 gramas), Lev Fit (da Saraiva com 130 gramas) e o Kobo (180 gramas). A grande vantagem de um leitor de e-books, além de sua portabilidade, é que eles desenvolveram uma tecnologia que proporciona a mesma sensação de leitura de um livro convencional. Eu tenho um Kindle, já li mais de 30 livros nele e ainda tenho uns 50 no banco de reserva. Alguns deles, baixei de graça.

Uma dica final para quem deseja aprimorar o inglês. Tem um site de livros gratuitos (de todos os gêneros) com vários níveis de inglês, do principiante ao avançado. Vale uma espiada: english-e-reader.net.

Não resisto a um posfácio. Além de nossa tristeza pelo falecimento de mais de 5.000 pessoas (hoje, na manhã do dia 29 de abril), penso que nós só sentimos mesmo o tamanho da tragédia quando alguém próximo é vitimado pela doença. Há três dias, faleceu de coronavírus em São Paulo o meu querido primo Eduardo. Ele foi fazer um procedimento num hospital e lá pegou o vírus.

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As forças amadas

Eu não poderia deixar passar o mês de abril sem fazer uma referência à Revolução dos Cravos. Dia 25 de abril de 1974. Eu estava lá com a Clarinha e o Beto. Ter vivido aqueles dias em Lisboa é pra não esquecer jamais. E nem eu quero deixar de recordar. Foi uma experiência cognitiva rara. Uma coisa é tomar conhecimento do fato pelos compêndios da história. Outra, é testemunhar e participar dos acontecimentos.

Há 46 anos, um movimento militar com apoio popular derrubou a ditadura do Estado Novo e criou as condições para o restabelecimento da democracia em Portugal. Para a população, o Movimento das Forças Armadas, naquela madrugada do dia 25 de abril, foi uma surpresa. Mas era o resultado de nove meses de intensa movimentação e preparação. A senha para o início das operações foi uma música de Zeca Afonso, Grândola Vila Morena. Proibida pela ditadura de Marcelo Caetano, ela foi tocada pela rádio Renascença na madrugada de 25 de abril. E assim nasceu a Revolução dos Cravos, que devolveu ao povo a democracia após 48 anos de ditadura militar e civil. 

Peço vênia aos leitores para recordar um pouco da minha passagem por este país que tanto amo. Viver em Portugal neste período foi muito especial, repito. Em Lisboa, tive a oportunidade de exercer inúmeras atividades. Na imprensa, assinei coluna em jornal (O negócio é Brasil) e tive um programa de rádio (O livro e seus autores). E ainda, ao lado do poeta Thiago de Mello, participei do lançamento da edição portuguesa da revista Tercer Mundo (publicação mexicana dirigida pelo jornalista brasileiro Neiva Moreira). Como trabalhador, fui eleito delegado intersindical (representando 8 sindicatos) e presidente da Comissão de Trabalhadores da empresa onde exercia a função de redator publicitário. Tudo isto, sem contar as muitas amizades que fiz e mantenho.

Em minha mala da vida, tenho inúmeras recordações da época. Entre fotos e recortes, encontro desenhos do meu filho, então com 4 anos, com cenas do primeiro 1º de Maio após a Revolução. E também um exemplar do Diário Popular do dia 25 de abril de 1974.

Se no Brasil, as armas e o arbítrio instalaram uma ditadura militar no 1º de abril de 1964, dez anos depois assistimos, em Portugal, o poder ser devolvido ao povo pela ação dos integrantes de suas forças amadas.

Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E inda guardo, renitente / Um velho cravo para mim (Tanto Mar, Chico Buarque)

Os modernos e os antigos

Hoje, 25 de abril. Em 1974, eu estava lá em Portugal

Recebi de um querido amigo do Canadá um vídeo revelando as diferenças entre velho e idoso. Muito bem feito. Exemplos: idoso é quem ainda sente amor, velho é quem só sente saudades. Idoso é quem ainda se exercita, velho é quem apenas descansa e reclama. Com um belo fundo musical, todos nós nos sentimos idosos…por mais velhos que possamos ser. 

Tenho, no entanto, algumas observações. Pra início de conversa, há controvérsias  sobre quando é que nos tornamos idosos no Brasil. Pela Constituição Federal, a terceira idade tem início aos 65 anos. O Código Penal cita a idade de 70 anos. E, para a Política Nacional do Idoso, são 60 anos. Como eu já passei dos 60, dos 65 e até dos 70, para mim tanto faz. Tô enquadrado. Já os geriatras, sob o ponto de vista biológico, dividem o tempo de vida em primeira, segunda, terceira e quarta idade. A quarta vai dos 78 aos 105 anos.

O assunto me leva a uma conversa que tive com o meu filho em Aracaju. O papo foi sobre um volume que peguei em uma das suas muitas estantes, A Batalha dos Livros. A obra é do escritor, poeta, crítico literário e prosador satírico irlandês Jonathan Swift (1667-1745), o mesmo autor do conhecidíssimo As Viagens de Gulliver. Nele, o relato de uma batalha travada em uma biblioteca entre livros, autores, leitores e ainda com a participação de uma aranha e de uma abelha. A discussão era exatamente sobre os modernos e os antigos. Resumo da ópera: os antigos são os novos, pois viveram no início da humanidade, e os modernos são os antigos, pois exprimem o conhecimento acumulado desde o passado. Mutatis mutandis, nós somos os modernos. Assim, pelo sistema draconiano imaginado por um presidente, as crianças devem ficar em isolamento social e nós, os idosos, podemos sassaricar (de máscara) pelas ruas e barzinhos.

Em plena pandemia do Covid-19, com o presidente da República declarando que “cada família tem que botar o vovô e a vovó lá no canto e é isso aí”, eu, que sou até bisavô, só tenho dois caminhos. Pintar o cabelo e a barba de preto e esconder as rugas sob a  máscara ou pinto o sete e vou internado de qualquer jeito.

Uma outra saída é torcer para, antes do coronavírus, pegar logo aquela doença do Benjamin Button, personagem do filme O Estranho Caso de Benjamim Button*, lançado em 2008 e baseado em um conto homônimo escrito em 1921 pelo F. Scott Fitzgerald.

Acabo de ver que um estudo realizado por uma equipe médica de Paris, chefiada pelo neurobiólogo Jean-Pierre Changeux, membro da Academia de Ciências da França e um dos mais premiados cientistas do mundo, revelou que os fumantes são menos atingidos pelo COVID-19. Pesquisadores trabalham com a hipótese que a nicotina poderia dificultar o contágio. Ou seja, nicotina mata até coronavírus.

* Para quem não leu o conto ou assistiu o filme, trata-se da história da vida de um homem que, com o passar dos anos, vai se rejuvenescendo até morrer de velho logo após seu nascimento.

O dia dos mascarados

Uma coisa que me chamou atenção quando estive em Tóquio no final da década de 1980, foi encontrar, nas grandes lojas e no metrô, pessoas com máscaras. Passou pela minha cabeça que os japoneses utilizavam máscaras por causa da poluição. Sempre ouvi dizer que a poluição em Tóquio era elevada. E assim, nada mais natural do que a utilização de proteção. Ledo engano. Pra começar, a poluição do ar na capital japonesa está controlada a níveis relativamente baixos.

Acontece que, neste país e em outras nações asiáticas como a China, os habitantes das grandes metrópoles, quando constipados, cobrem a boca e o nariz para evitar a propagação de gripes e resfriados. Um sinal de respeito pelos outros e, claro, também de autoproteção.

Abro um parêntese para recordar, com alegria, A Noite dos Mascarados, música do Chico Buarque lançada em 1966:

Quem é você, diga logo/Que eu quero saber o seu jogo/Que eu quero morrer no seu bloco/Que eu quero me arder no seu fogo

Um dado curioso desta música é que ela foi composta meio às pressas pelo Chico para substituir uma faixa proibida pela ditadura militar. A música proibida era “Tamandaré”. A marinha brasileira interpretou a letra como um desrespeito a seu patrono. Entre outros versos: 

Pois é, Tamandaré/A maré não tá boa/Vai virar a canoa/E este mar não dá pé, Tamandaré

Hoje, em busca de um vinho chileno que está em promoção no supermercado perto de casa, cruzei com algumas poucas dezenas de pessoas. Quase todas de máscaras. Uma delas me chamou atenção, pois era igual àquelas utilizadas no velho oeste. Gostei da ideia e vou providenciar uma com um lenço comemorativo da Comuna de Paris (1871) que ganhei da Anna, em Alter do Chão. A Comuna de Paris foi a primeira tentativa da história de criação e implantação de um governo socialista. Durou apenas 73 dias, mas foi tão importante que Lenin escreveu na época da revolução bolchevique: “Nós somos apenas anões pousados nos ombros daqueles gigantes”. A metáfora é antiga, bem sei. Ela foi utilizada por muitos intelectuais durante vários séculos como, por exemplo, pelo judeu Isaías de Tranc em 1180. 

No Brasil, como em outros países, as máscaras são recomendadas ou obrigatórias praticamente em todas as capitais, principalmente nos estabelecimentos comerciais e no transporte público.

No entanto, e para nossa surpresa e espanto, matérias em redes sociais criticam a medida. Para estas fakes news, o coronavírus não é o bicho que estão pintando. Dizem até que nos hospitais têm leitos sobrando e respiradores de mais.

O tempo dirá.

Dica pra durante e depois do coronavírus

A dica serve pra qualquer vivente. Mas cai como luvas para quem, como eu e o meu irmão Ike, mora sozinho.

Na maioria dos celulares (todos?) tem uma tecla denominada Emergência, Contato de Emergência ou SOS de Emergência. Já reparou? Pois é. No meu funciona assim: se eu apertar o botão de ligar o celular 5 vezes, ele disca automaticamente para quem eu coloquei para me acudir em caso de, claro, emergência.

Se não encontrar o expediente no seu celular, pergunte ao google. Ele sabe, acabei de conferir.

Por que um blog?

Há alguns anos, quando morava em Brasília, resolvi publicar um blog. Foi bom. Durante quase um ano mantive o blog ativo. E daí veio a sugestão de amigos. Porquê não publicar um livro com os seus textos. Dito e feito. Assim nasceu Muito Bem Disse o Conde e outros escritos. O Beto fez a capa, Ana Emília a revisão e a Mazza editou. O lançamento foi na Travessa, com a presença de muitos e queridos amigos.

Outro dia, o Ivan falou: e ai, Arthur, por que você não aproveita que está mais em casa e escreve um blog. Uai, Van, a ideia é boa. Passaram-se dias e nada de colocar a mão na massa. Mas, hoje, decidi pesquisar como é que é mesmo colocar um blog na praça. Entre as muitas opções, procurei o WordPress. Não sei o motivo. Ou então lembrei de alguém que utilizou o dito aplicativo. E cá estamos.

O Blog do Conde vai ter de tudo. Pra dizer a verdade, eu nem sei como vai ficar. Mas o negócio é tocar o barco, já que navegar é preciso (no sentido de precisar e não na acepção utilizada pelo general Pompeu, Petrarca e Fernando Pessoa). E mais ainda quando encontro num texto da Universidade de Coimbra que “navegar é sonhar, ousar, planejar, arriscar, empreender e até realizar porque aí, navegar é viver”.

Assim, fica o dito pelo dito. E como demais é demasiado, vou encerrando esta meia apresentação.